17 setembro 2009

O yoga é verde?

couve

Hatha Yoga Pradipika, capítulo I, parágrafos 12 a 16:
Lugar para a prática
I:12. Deve-se praticar Hatha Yoga em uma pequena e solitária ermida (matha), livre de pedras, água e fogo (excessiva exposição aos elementos naturais), em uma região onde impere a justiça, a paz e a prosperidade.
I:13. O matha deve ter uma pequena porta e carecer de janelas. O piso deve estar nivelado; nem demasiado alto nem demasiado baixo, e deve conservar-se muito limpo, coberto de esterco de vaca misturado com água (um germicida natural) e livre de insetos. O exterior deve ser agradável, com uma entrada, uma plataforma elevada e um poço de água. O conjunto deve estar rodeado por um muro. Estas são as características da ermida descritas pelos siddhas que praticaram Hatha Yoga.
I:14. Em tal lugar o yogi, livre de toda preocupação, se dedicará unicamente à prática do Yoga seguindo as instruções de seu guru.
Requisitos para a prática
I:15. O yogi fracassa por excesso de comida, esgotamento físico, embuste, ascetismo exagerado, companhia inadequada e inquietude.
I:16. O sucesso no Yoga depende de esforço, determinação destemida, audácia, conhecimento discriminativo, perseverança, fé (nos ensinamentos do mestre) e afastamento de toda companhia (supérflua).
***

Meu professor diz com freqüência que a realização do yoga no indivíduo precede seu engajamento em causas sociais e ambientais. Eu o acompanho e com isso recuso ofertas -- de amigos, inclusive, mas principalmente das gentes -- de envolver-me com essas causas. Quando o mundo se vê tomado por problemas, ameaçado pela pobreza e pelos danos ao ambiente, o estudante de yoga sente reverberar na alma um apelo ao engajamento -- i.e. ao envolvimento com causas sociais e ambientais -- e engaja-se realmente. Engajar-se é visto como uma atitude "do bem", não se engajar é visto como solipsismo e alienação e, portanto, não é uma atitude bem vista.

Muitas dessas iniciativas são boas, sinceras e necessárias e de fato há ações magníficas em que se estabelecem conexões riquíssimas entre o yoga e lugares tomados pela instabilidade social e ambiental. Ganham com isso os lugares e seus habitantes e ganham também os professores e estudantes de yoga, de início pela experiência da aplicação do yoga e de seus princípios a uma realidade que em princípio não se abriria espontaneamente a essa influência.

Estas idéias vieram à tona quando tomei contato com o Movimento Yogi Ambiental (MYA). Eu não conheço este movimento para além daquilo que li no site que o apresenta. Troquei algumas mensagens com seu fundador, que para mim reforçaram seu esclarecimento em relação ao tema e suas boas intenções. Mas não pude deixar de notar a forma como o MYA assume um discurso que nada tem a ver com o yoga. A análise que farei, portanto, baseia-se exclusivamente nas palavras que li.

Na abertura do texto de apresentação do movimento lê-se uma citação de Leonardo Boff, que resume o problema:
Se o século XX é reconhecido como o século dos direitos humanos, individuais, sociais, econômicos, políticos e culturais, o século XXI será reconhecido como o século dos direitos da Mãe-Terra, dos animais, das plantas, de todas as criaturas vivas e de todos os seres, cujos direitos também devem ser respeitados e protegidos.
Boff é hábil na arte de seduzir com palavras, de apelar para os remorsos adormecidos na alma de pessoas de bem, de aproveitar-se da credulidade alheia. Experimente, por exemplo, definir "direitos da Mãe-Terra" ou "direitos dos animais". Não existe a noção de direito no mundo de contos de fadas sobre o qual Boff escreve com tanta freqüência. A moral subjacente ao discurso de Boff iguala homens, animais e plantas. Tarefa insana: homens podem agir para recuperar e proteger o ambiente, inclusive os animais e as plantas; animais e plantas não têm essa capacidade. Começar com Boff é começar muito mal.

O texto propriamente dito não alivia o estrago feito por Boff. Expressões como "nosso planeta", "nosso meio ambiente planetário" e "conscientização ecológica", o apelo a verbos no futuro e a imperativos ("devemos", "acontecerá"), a falácia do aquecimento global e do aumento da população deixam claro que não se trata de manter o pé na realidade, mas de deslocar o indivíduo engajado para um mundo de sonhos sob ameaça do inferno composto de aquecimento global, buracos na camada de ozônio, desertos e poluição. Não se trata de conscientizar -- ou, como dizem os próprios ambientalistas, de pensar globalmente para agir localmente --, mas precisamente do contrário: anestesiar a consciência e torná-la permeável à ideologia do movimento ambientalista, que nada têm a ver com a tradição do yoga.

É razoável afirmar que já não existe uma tradição do yoga. O yoga é um sistema amplo, que permite focos muito distintos, às vezes opostos. Hoje o yoga tem uma dimensão que ultrapassa aquilo que era recomendado nas escrituras. Há, no entanto, uma marca comum a todos esses focos: todos dizem respeito ao indivíduo, todos começam no indivíduo e terminam no indivíduo. Todas as variações do yoga têm um único e mesmo objetivo: o desenvolvimento individual, a condução do indivíduo de um estado de obscuridade (física, mental, emocional e espiritual) para um estado luminoso e liberto. Este estado é kaivalya, assim definido por Carlos Eduardo Barbosa em sua excelente tradução dos Yoga Sutras de Patañjali:
O Kaivalya é a destruição de todo o apego à diferenciação, e a vivência da integração total do indivíduo com tudo o que existe, como se fossem uma mesma e única existência absoluta. (...) O tempo e as mudanças já não afetam o yoguim que se conectou com o eterno e alcançou o Kaivalya. Não há mais ações nem sofrimento. Não há mais vinculação ao ciclo interminável dos renascimentos. Isolado de toda a turbulência ilusória do mundo manifestado, o iluminado yoguim se torna a mais pura fonte de sabedoria, enquanto repousa serenamente no seio do absoluto.
Retornamos aqui ao início: a realização do yoga no indivíduo precede seu engajamento. Alguns mestres vão além e dizem que não há bem maior para o mundo do que a realização da santidade no indivíduo -- muito, mas muito maior do que qualquer coisa que se possa fazer em benefício de populações pobres e do ambiente. O yogi não vê diferença entre a realização do yoga para si e para o mundo.

Há, além disso, o fato de que iniciativas como a do MYA têm uma origem bem definida. O leitor atento notará no texto de apresentação do MYA e nos textos complementares a repetição dos jargões que deram origem a todos os movimentos ambientalistas. O ambientalismo é um movimento tão globalizante quanto o globalismo que ele se propõe a combater. A tese subjacente a todo movimento ambientalista é a idéia de que certos padrões são universalmente adequados: torne-se vegetariano, consuma vegetais orgânicos, faça xixi no banho, deixe o carro em casa, economize água, não use sacolas plásticas, não use mats feitos de PVC, use papéis e tecidos naturais etc. etc. etc Cada um desses imperativos pode ser discutido e, muitas vezes, refutado. Qual o papel do estudante de yoga? Aceitá-los ou conhecê-los detalhadamente, avaliando suas causas e conseqüências?

Certamente o movimento ambientalista se beneficiará com o envolvimento de professores e estudantes de yoga com as causas ambientais, mas não vejo de que forma o yoga poderia se beneficiar ao aproximar-se de movimentos globalizantes.

Reitero aqui que não conheço o MYA em seus detalhes. Baseio-me aqui no que li no site e nas mensagens que recebi de seu fundador. Embora as perspectivas indicadas pelas palavras não sejam animadoras, é justo esperar que seus integrantes tomem a melhor direção: aquela que mantém o pé no chão e o olhar atento não aos discursos e às palavras, mas as ações -- exatamente como o yoga propõe. É desta forma que o yoga pode cumprir sua tarefa tanto para o indivíduo como para a sociedade e para o ambiente: kaivalya é liberação (das influências mundanas), mas é também integração com a realidade total, conduzindo o indivíduo a advaita, o não-dualismo que demonstra que não há distinções entre o indivíduo e o ambiente, entre o indivíduo e as pessoas ao redor.

O yoga não tem obrigações sociais e ambientais. A realização de ações social e ambientalmente positivas é mera conseqüência da realização do estado de yoga.


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Nota:
Sobre Leonardo Boff, um dos arautos do ambientalismo apocalíptico e fonte de inspiração do MYA, recomendo a leitura de A inversão revolucionária em ação, de Olavo de Carvalho. Este texto é bastante esclarecedor também sobre as principais teses do movimento ambientalista. A quem tiver interesse neste assunto recomendo também a leitura de Verdadeiro versus falso, de Alan Neil Ditchfield.

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2 comentários:

Shivaraja disse...

Neste texto há uma pergunta:
"Qual o papel do estudante de yoga? Aceitá-los ou conhecê-los detalhadamente, avaliando suas causas e conseqüências?"

E mais em baixo uma resposta:
"O yoga não tem obrigações sociais e ambientais. A realização de ações social e ambientalmente positivas é mera conseqüência da realização do estado de yoga."

Ou seja: nem uma nem outra. Nem aceitar cegamente, nem procurar ficar filosofando com algo "fora de foco".

Porque os seres cometem "erros" sociais ou ambientais?
R- Porque pensam no seu umbigo, iludidos pela idéia de "multiplicidade dos seres".
Então, continuar pensando em multiplicidade, mesmoq eu seja uma multiplicidade "do bem" (sic), ainda é a mesma ilusão de cabeça para baixo.

No meu ponto de vista, nem há tanta diferença assim entre ser um eco-chato e ser um espírito de porco com a natureza, a sociedade e os "outros" à sua volta. Porque em ambos casos o foco ainda é o "outro".

Deixe que o foco seja VOCE. Não voce corpo-mente, mas VOCE como SER-CONSCIÊNCIA-"BLISS".
Mas depende do que você se refere quando diz "EU". Para tanto, descubra quem é você.

Quem é você?

Como diria aquele louco que morou na Galiléia há uns 2.000 anos: "Buscai o 'Reino de Deus' e todas estas coisas vos serão acrescentadas".

eliane disse...

Chris, este olhar com rigor sobre o que se vai associando ao yoga é fundamental. Mesmo o vegetarianismo, tão essencial para os praticantes avançados, deve ser entendido como uma etapa necessária, e não como um novo paradigma holístico ecológico para o qual o praticante deve pousar como porta estandarte. Um praticante não pode ser um ativista, muito menos um propagandista; sua meta é a verdadeira busca espiritual.

Ma Ananda Moyi, que foi uma das grandes luzes da Índia, dizia : "Um professor competente, que compreende cada mudança sobrevinda no movimento do prãna em seu discípulo, acelerará ou desacelerará o processo conforme o caso, assim como o timoneiro que dirige um barco mantém firme o leme e não o solta. Na ausência de uma tal direção, o Hatha-yoga não é benéfico. Aquele que quer guiar, deve ter um conhecimento de primeira mão de tudo o que pode sobrevir nos diferentes estágios, e ele deve encará-lo com a acuidade perfeita que dá a percepção direta. Não é ele o médico daqueles que estão no Caminho ? Sem a ajuda de um tal doutor há o risco de se machucar".

Ensinar yoga exige um grande aprofundamento tanto nas práticas como nos estudos, exige constância, determinação e observância. Dedicar-se ao próprio ensinamento e compartilhar o aprendizado é servir à Deus.

abraços