06 novembro 2010

Cinco motivos para não praticar yoga

«Agora não porque os gatos dominaram o tapete...»


Perdi a conta das vezes que ouvi frases como

«Eu precisava tanto praticar yoga...»

«Puxa, yoga ia me fazer tão bem...»

«Meu médico disse que eu devia fazer yoga...»

Reparem nos tempos verbais. O pretérito imperfeito torna claras duas coisas. Primeiro, pessoas que dizem isso sabem que o yoga realmente faz bem -- e é verdade. Segundo, elas já desistiram antes de começar.

Questionadas sobre isso, essas pessoas oferecem justificativas diversas:

1) «Não tenho dinheiro»

De fato, este obstáculo é importante, mas existem diversas formas de incluir uma atividade como o yoga no orçamento pessoal. É uma questão de prioridade.

Eu, por exemplo, quando notei que o yoga era uma questão de necessidade e de saúde, coloquei esta atividade no topo de minha lista. «Ah, mas você é professor, tem que priorizar mesmo»: sim, mas eu vi que era uma questão de necessidade muito antes de pensar em me tornar professor. E, de fato, os benefícios que tenho obtido são tão indiscutíveis e numerosos que sempre considerei o valor gasto com o yoga irrisório.

Quanto vale a sua saúde? Quanto você estaria disposto a pagar para ter o peso ideal, uma postura melhor, sono tranqüilo e um corpo forte e flexível?

Não é necessário tentar estabelecer um valor para coisas que não têm preço, apenas compare o valor de uma mensalidade com o que uma pessoa comum pode gastar com médicos, planos de saúde, remédios para emagrecer, controlar a saúde e dormir, dietas, livros e revistas relacionadas a esse assunto, terapias tradicionais ou alternativas. É claro que a maioria destas coisas é boa e tem valor, mas apenas compare.

Além disso, hoje em dia é fácil uma pessoa gastar num restaurante ou numa balada um valor superior ao que se gastaria em um mês de aulas de yoga. Perdoe colocar desta forma, mas quem faz isso e diz que não pratica yoga porque não tem dinheiro ou está mentindo ou não quer mesmo praticar yoga. Se é este o caso, basta assumir, eu realmente não me incomodo e sei que o yoga não agrada a todas as pessoas (mais adiante falarei disso).

É claro que há pessoas que realmente não têm dinheiro para pagar aulas de yoga. Para muitas pessoas, pagar uma mensalidade significa faltar dinheiro para coisas essenciais -- casa, comida etc. É evidente que não questiono e não discuto a condição dessas pessoas -- a elas, se estão sinceramente dispostas a vir para o yoga, recomendo que busquem conhecimento, estudem e esforcem-se e logo as condições para a prática regular virão.

2) «Não tenho tempo»

Esta justificativa é muito semelhante à anterior. A diferença é que lidamos aqui com algo mais abstrato. Entretanto, o tempo ainda é algo palpável o suficiente para ser organizado. Novamente, é uma questão de prioridade.

Praticar yoga pode parecer tempo perdido agora. À medida que o tempo passa, você perceberá que a saúde melhorou e isso certamente significará, como se costuma dizer, «mais anos em sua vida e mais vida nos seus anos».

Ademais, duas ou três horas de aulas de yoga equivalem a menos de 2% do total de horas de uma semana. Não é possível que você esteja tão louca e absurdamente atarefado que não consiga reservar duas ou três horas semanais para dedicar-se a fazer bem para si mesmo, para escutar sua própria respiração e sua própria voz interior.

3) «Não sou flexível/forte o suficiente»

Yoga não tem nada a ver com flexibilidade e força física. Nas últimas décadas muitos mestres e métodos cometeram o erro de permitir ou mesmo estimular a associação do yoga com esses dois atributos (sobretudo com o primeiro). Então, você vê imagens como esta...

«Er... me ajuda aqui um instante...»

...e constata que a viu num site ou numa revista de yoga, a postura se chama yoganidrasana, a foto foi tirada numa escola de yoga -- logo, só pode ser yoga. Não, não é. Pode ser yoga. O que determina se é ou não é yoga não é o que você vê na foto, é justamente o que você não vê. Em outras palavras, yoga não depende do quê se faz, depende de como se faz.

É claro que no yoga existe um repertório de posturas e conseguir executá-las é sempre melhor do que não conseguir. Mas tudo tem seu tempo e seu ritmo. Não conheço a moça da foto, mas não há dúvidas de que não se trata de uma iniciante.

Ou seja, você pode não ser flexível ou forte o suficiente para a postura da foto, mas o yoga não se limita a essa postura e sempre haverá algo que você poderá fazer para progredir em seu próprio ritmo enquanto praticar yoga.

4) «Não tenho disciplina»

Das justificativas mencionadas até agora, esta é a mais séria e importante. Dizer «não tenho disciplina» equivale a dizer «quero praticar, mas não quero o suficiente».

Patañjali define em seus Yoga Sutras dois atributos fundamentais para quem quer se dedicar ao yoga: disciplina e desapego. Nesse texto clássico, a disciplina é entendida como o esforço constante, a firme decisão de seguir trilhando o Caminho escolhido. Sem isso, simplesmente não há prática e tudo será motivo para desvios, adiamentos, atrasos.

Sobre isto, pouco tenho a dizer. Disciplina, ou você tem ou não tem. Disciplina não é algo que se estabelece desde fora, embora alguns elementos externos sempre ajudem: um professor realmente dedicado e que domine aquilo que ensina, um espaço agradável, uma aula interessante, a perspectiva de obter benefícios com a prática -- todas estas coisas ajudam no estabelecimento da disciplina. Mas o que realmente a determina é a decisão pessoal e interior de dedicar-se ao yoga.

Você é responsável por tudo aquilo que acontece a você: compreender esta verdade simples já é um grande passo para criar a disciplina necessária para dedicar-se ao yoga.

5) «Não gosto de yoga»

Aqui as frases podem variar um pouco. Em vez da frase acima, algumas pessoas podem dizer «é muito parado para o meu gosto» ou «parece ginástica com música indiana e incenso», frases que geralmente são ditas com o nariz torcido e uma expressão facial pouco agradável.

Em resposta a isso eu perguntaria se a pessoa realmente já fez uma aula de yoga ou, se já fez, se teve a idéia de experimentar uma aula numa outra escola, com outro professor. A maioria das escolas oferece aulas experimentais gratuitas e a maioria dos bons professores se disporá a esclarecer as dúvidas relacionadas às frases citadas no parágrafo anterior. Digo isso porque nem toda aula é «parada demais» (embora alguns dos objetivos do yoga incluam estabilizar o corpo e acalmar a mente), nem toda aula limita-se a «ginástica com música indiana» (a maioria das aulas desse tipo não chega a ser yoga) e nem toda aula inclui incenso (o ideal é que não haja incenso durante a prática, aliás).

A diversidade atual é muito grande: existem muitas escolas, muitos métodos, muitos professores e, sobretudo por se tratar de algo antigo, ao longo dos séculos muitas coisas foram adicionadas, modificadas e adaptadas ao yoga de modo que todos os gostos sejam atendidos.

É claro que se você quer apenas perder barriga, talvez seja melhor modificar a alimentação e correr um pouco. Se você só quer relaxar, é possível que um happy hour com os amigos seja o ideal para você. As pessoas são diferentes umas das outras e, embora o yoga seja para todos, é possível que nem todos sejam para o yoga. Não há problemas.

Busque sempre aquilo que é melhor para você. Se você já experimentou o yoga, já sabe do que se trata e não gostou dele, realmente não há problemas.

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links: imagem 1 e imagem 2

5 comentários:

Daniela disse...

Olá, Christian!

Gostei muito da forma que abordou o assunto.
A partir do momento que eu incluí a prática do yoga no topo da minha lista de prioridades, nunca mais a abandonei.
Enquanto vejo amigos e familiares neuróticos, doentes, hipocondríacos, etc, caminho na direção oposta. Os benefícios dessa prática são tão importantes na minha vida que hoje me vejo como outra pessoa.
O mais engraçado é que quando as pessoas me perguntam o que eu fiz para ficar mais tranquila, com a postura melhor ou até mesmo mais magra, e eu respondo que é a prática do yoga, elas sempre fazem uma cara de interrogação. É uma pena que muitas se deixam levar pelo lunático ciclo do consumismo, mas não se dão o direito de incorporar uma prática tão completa em suas vidas que as fariam entender muitas outras coisas além da moda da vez .
Abraços e obrigadas pelas contribuições.

Christian disse...

Bem que eu falei...

«Voltei agora a fazer ballet, mas não para emagrecer, para manter a postura e a concentração. O ballet para mim é quase uma yoga. Não consigo fazer yoga porque não tenho muita paciência, me dá vontade de dormir.» (link)

Thiago N. disse...

Sensacional o Texto, foi você quem fez?
Estou de pleno acordo com tudo o que você escreveu, adorei, brilhante, as pessoas arrumam muitas desculpas, pra não praticar, mais a verdade é que elas não querem mesmo, eu pretico yoga na Companhia Athletica, e no parque do ibirapuera de finais de semana!!! Muito bom o blog, está de parabens,
beijos!!!

Christian disse...

Obrigado pelo comentário e pelos elogios, Thiago. O texto é meu, sim.
Abraço e boas práticas.

diogogaspar disse...

Gostei do texto, bem divertido ;)