20 dezembro 2010

Yogando em casa - I


Este texto provavelmente será o primeiro de uma série que tem como objetivo auxiliar o praticante-leitor a desenvolver uma prática de yoga em casa.

Antes de passar ao que de fato interessa, dois itens importantes:

1) Nada do que for explicado aqui tem a pretensão de substituir um professor. A intenção é apenas fornecer elementos que possam inspirar a prática em casa. Lembre-se de que algumas técnicas do yoga -- como todas as práticas que influenciam o corpo -- oferecem riscos e, portanto, o ideal é realizá-las com orientação profissional. Se você nunca praticou yoga e quer começar, procure um professor, não um texto. O autor não se responsabiliza pelo mal uso que possa ser feito das instruções indicadas a seguir.

2) Leia ou, se já o fez, releia este texto: Yoga sem professor
é importante saber a quê estamos nos referindo quando falamos de prática ou sadhana. Praticar asanas não é sinônimo de praticar yoga, embora a prática de yoga quase sempre inclua a prática de asanas. O exemplo dado por professores experientes e por yogis realizados demonstra que a sadhana perfeita não é aquela realizada na regularidade das aulas e cursos, mas aquele vivido integralmente.


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Este texto nasceu dos boletins que tenho passado a meus alunos e, pela brevidade desses boletins e da minha habitual delonga quando escrevo neste blog, é natural que este texto torne-se um aprofundamento dos objetos tratados naqueles boletins, com acréscimos e complementos.

Toda vez que sou procurado por uma pessoa interessada em aprender e praticar o yoga deixo claro que um de meus objetivos é oferecer-lhe elementos que a ajudem a praticar em casa, isto é, que lhe dê a inspiração e os conhecimentos mínimos e básicos para praticar sem depender o tempo todo de um professor. Há aqui dois fatores importantes:

1) Certos conhecimentos transmitidos em aula só são devidamente absorvidos se são experimentados fora da aula;

2) O yoga beneficia o praticante na exata medida em que ele é capaz de levar sua prática para fora dos limites da escola -- seja na prática formal sobre o tapete, seja observando no dia-a-dia os diversos elementos que são estudados na prática formal.

Além disso, pela minha experiência pessoal, noto que o que diferencia o bom estudante do estudante mediano é, de fato, a sede pelo estudo, pela pesquisa e pelo conhecimento. No yoga isto significa necessariamente praticar em casa, ler as escrituras, meditar, estender o tapete e realizar asanas etc.

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O primeiro passo para praticar em casa consiste em saber o que é o yoga e aonde ele pode levá-lo.

Nos Yoga Sutras, Patañjali define o yoga como «a neutralização das oscilações mentais». Em outras escrituras o yoga é definido de forma semelhante; nas escrituras do Hatha Yoga fala-se de raja yoga, o que deve ser compreendido como «estado de yoga» ou, se retornarmos a Patañjali, «estado em que as oscilações mentais foram neutralizadas». Há várias menções a técnicas, posturas etc., mas o principal é notar de que forma elas são organizadas numa linha contínua que tem um fim bem estabelecido, que não depende da conquista de certos atributos corporais. Pela forma como as práticas são descritas nessas escrituras, fica claro que

1) Yoga não é ginástica, não é terapia e não é religião. O yoga pode trazer os benefícios que estas três coisas trazem, mas isso não o torna igual a elas. Para o yoga, o corpo é um instrumento, não um fim. A cura de doenças físicas e emocionais, quando ocorre, é sintoma da prática constante, não um objetivo. E a espiritualidade no yoga não é um dogma ou uma doutrina, mas uma realização.

2) Uma das práticas mais importantes no yoga é a meditação. Quase todas as técnicas físicas do yoga têm como objetivo evitar que o corpo cause problemas durante a meditação e facilitar a realização dos seus diversos estágios. Novamente, o objetivo não é fortalecer o corpo e curar doenças, mas meditar.(Obs.: meditação é um nome vago que não explicita os diferentes estados que podem surgir quando nos sentamos em silêncio por algum tempo. Portanto, o uso deste termo no yoga não é totalmente correto. Mais adiante esclarecerei isto.)

3) A grosso modo, pode-se concluir que como prática o yoga é o processo através do qual nos tornamos capazes de enxergar através das diversas «camadas» de que costumamos associar a nós mesmos: o corpo, a mente, as emoções etc. Essa capacidade nos leva à desidentificação e, em muitos casos, pode nos levar a perceber quem realmente somos, quais são nossas limitações e capacidades genuínas, o que, é claro, altera profundamente a nossa percepção e nossa atitude diante dos problemas, sejam eles mais simples e cotidianos ou mais profundos.

...Ou, se quisermos resumir tudo, yoga é


Eu não estou nem aqui.
(Ramana Maharshi, um dos grandes santos da Índia do séc. XX)

A chave, portanto, é saber como o fazer conduzirá você ao não fazer.

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Vale lembrar também que se estamos falando de técnicas corporais -- sobretudo asanas -- estamos falando de Hatha Yoga. A partir daqui as coisas começam a ficar difíceis porque nos últimos 40 anos surgiram inúmeros métodos inspirados no Hatha Yoga. Cada um deles enfatiza alguns aspectos particulares do Hatha Yoga original, mas contam-se nos dedos os métodos que compreendem essa tradição e se dispõem a preservá-la. Sobre isto, recomendo a leitura deste texto: O que é Hatha Yoga - parte V. Neste texto o leitor poderá ter um primeiro contato com o que o Hatha Yoga de fato é e a partir daí será mais fácil colocar-se em contato com os métodos modernos e mais difícil confundir coisas que às vezes são diametralmente opostas.

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Se você tem alguma noção do que é o yoga, fica mais fácil passar à segunda parte deste texto, que se inicia com a seguinte pergunta: «o que eu estou buscando?». É uma pergunta importante, pois é claro que não é adequado buscar em nenhuma prática aquilo que ela não pode oferecer.

Vale notar que o yoga oferece muitos benefícios e é bastante fácil -- como os métodos modernos têm demonstrado -- limitar a prática à busca de um destes benefícios. Os puristas e os tradicionalistas consideram esta limitação um problema. Eu mesmo já pensei desta forma por algum tempo, mas é evidente que algum yoga é melhor do que nenhum yoga. Mesmo que você busque no yoga um de seus inúmeros benefícios e reduza a prática a uma espécie de «shopping center de resultados», o fundamental é ter consciência dessa escolha e saber até onde você pode chegar com aquilo que decidiu fazer. Ginásticas podem ajudar, mas não conduzirão à libertação, que é o principal objetivo do yoga. Ou, como cheguei a dizer para meus alunos, se você pode matar a fome com uma refeição completa e nutritiva, por que se servirá apenas de migalhas?

Prossigamos.

É comum a idéia de que o que mais importa na prática do yoga não é o que fazer, mas como fazer. A despeito disso, algo será feito e é adequado ter critérios para saber o que fazer. A minha experiência pessoal levou-me a estabelecer os seguintes critérios para decidir o que fazer:

1) Objetivos

Como expliquei antes, o que vai ser feito depende daquilo que se pretende. Embora não seja totalmente «correto» visar apenas um ou poucos aspectos do yoga numa prática, é possível que você queira enfatizar a ação corporal em sua prática ou a meditação ou as práticas de purificação etc. Não importa qual seja seu objetivo, importa que você saiba se seu objetivo tem alguma relação com aquilo que o yoga oferece. Se você quer apenas sentir-se bem, talvez você obtenha melhores resultados caminhando na praia, cochilando depois do almoço ou saindo com os amigos.

2) Tempo

Você avaliará quanto tempo tem disponível para a sua prática -- basicamente, horas/dia e dias/semana. À medida que começar a praticar, fará os devidos ajustes em função de sua própria disposição e de sua habilidade para praticar. Uma meditação pode durar 5 minutos ou várias horas; obviamente esse limite dependerá da capacidade física de manter-se sentado em alguma postura de meditação e da capacidade (que muitas pessoas chamam de «mental») de avançar nas práticas chamadas «internas» (que muitas pessoas associam à meditação). O mesmo pode ser dito de uma prática de asanas: uma prática razoável de vinyasa (asanas em seqüência, como o Surya Namaskar) pode ser realizada em 15 minutos; a prática tradicional de asanas no Hatha Yoga, que inclui permanências um pouco mais longas, facilmente chega a 90 minutos. Se esta opção será melhor do que aquela, isto depende muito do tempo disponível e, como indiquei antes, do que se pretende com a prática.

No que diz respeito ao tempo, inclui-se aí também o momento do dia em que a prática será realizada. Uma prática matinal, logo após sair do sono, provavelmente será diferente de uma prática vespertina ou de uma prática noturna. Muitas pessoas gostam de iniciar o dia com uma prática física vigorosa e encerrá-lo com meditação. A condição da mente e do corpo pode variar conforme o horário do dia ou o dia da semana. Tudo isto pode influenciar sua prática.

3) Repertório

No início deste texto eu disse «se você nunca praticou yoga e quer começar, procure um professor, não um texto». O motivo é bem simples: sem um repertório de técnicas é bem difícil começar a fazer algo. Um livro pode ser de grande ajuda, mas um professor é essencial no início. Por exemplo, repetir uma postura vista em um livro sem orientação direta pode expor o praticante ao risco de uma lesão. Claro que este risco existe em qualquer prática, seja em casa, seja numa escola, mas ele é muito menor quando somos acompanhados por uma pessoa experiente que está conosco especificamente para nos orientar.

O que determina o que você fará sozinho é aquilo que você efetivamente sabe. E «saber fazer» significa, é claro, dotar-se de conhecimento teórico e prático. Esta divisão entre teoria e prática não faz o menor sentido no yoga, assim como também não faz o menor sentido realizar técnicas do yoga como se elas fossem apenas corporais ou apenas mentais, pela simples razão de que não existe nenhum técnica que seja apenas corporal ou apenas mental.

1, 2, 3... Ei, espere um minuto...

Só isto já bastaria para tornar todas as técnicas muito mais complexas do que se supõe. Chaturanga dandasana pode ser encarado como uma espécie de flexão de braços ou pode ser encarado tal como é: uma técnica do yoga, que, portanto, pretende ajudar o praticante a obter a «neutralização das oscilações mentais» (lembra de Patañjali, não é?).

Vale a pena perguntar novamente: como uma ação pode nos levar à não-ação?

(continua)

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links das imagens: 1, 2, 3

Um comentário:

Anônimo disse...

Muito esclarecedor. Obrigado

Paulo