25 fevereiro 2011

Interior e exterior


Uma das lições mais difíceis para mim desde que comecei a estudar o yoga tem sido aquela sobre as relações entre interior e exterior. Embora reconhecido como uma disciplina de investigação interior, um caminho espiritual como o yoga é dotado de dimensões exteriores muito evidentes e importantes.

Independentemente do que se faz -- mesmo a meditação profunda ou a prática de samadhi --, o corpo continua a existir e a ter necessidades e propensões. Talvez por isso é que por muito tempo esperei que transformações exteriores pudessem conduzir inevitavelmente a transformações interiores. Se lembrarmos que é ilusória a linha que divide o exterior e o interior na vida de uma pessoa, concluiremos que essas transformações realmente são inevitáveis: alterar o exterior altera necessariamente o interior ou, pelo menos, a percepção que temos do interior -- e vice-versa. A estabilidade física para sustentar um asana por alguns minutos reflete-se na mente e na forma como nos percebemos -- esteja à vontade para chamar isto de «uma transformação interior», embora eu não me sinta à vontade para usar rótulos por enquanto.

Os problemas começam quando essas transformações não vêm ou quando vêm com sinal trocado. Um exemplo clássico é o do asanista que se orgulha de ter conseguido realizar um determinado asana. Outro exemplo bastante comum é o do meditador experiente que se incomoda com a falta de polidez dos colegas nas sessões de meditação. Nos dois casos -- e estou certo de que o leitor já experimentou ou testemunhou pelo menos um deles --, é clara a confusão que se faz entre externo e interno: toma-se um comportamento ou uma condição externa como critério suficiente para avaliar uma condição interna.

Decerto incorro no mesmo erro ao dizer isto, porque nunca sabemos ao certo o que se passa internamente numa pessoa que se orgulha do próprio domínio corporal ou que torce o nariz para quem não revela uma quietude búdica para meditar. Deus sempre sabe o que faz: é possível que Ele nos coloque diante de determinados tipos de pessoas para que possamos ver com mais clareza as arestas que precisamos aparar em nós mesmos.

Apesar disso, concordo com Lao Tzu quando diz que «o que vem de dentro por fora se revela» e somo isto ao que o yoga ensina: não há transformações internas, mas sim a realização de uma divindade que já nasce conosco. A grande dificuldade está em perceber que essa divindade não é condicional, isto é, ela não existe apesar do nosso orgulho, da nossa inquietude e de qualquer outro traço de nosso caráter. A revelação se dá precisamente quando aceitamos o orgulho, a inquietude e tudo o mais como parte dessa divindade.

É natural que nos sintamos mais à vontade quando percebemos essa divindade depois de nos despojarmos daquilo que não consideramos divino. A idéia de recompensa, de disciplina e de esforço nos leva a crer que a realização interior é conseqüência de uma realização exterior. Como é possível atingir a libertação se ainda fumamos, se ainda nos desentendemos com o marido ou com a esposa, se ainda gostamos de dinheiro e de confortos modernos, se somos impacientes, mesquinhos e orgulhosos? Uma resposta possível vem com a inversão da pergunta: como é possível que abdicar de cada uma dessas coisas possa conduzir inevitavelmente à realização da divindade? Ora, a divindade convive bem com nossos atributos mais dispensáveis porque ela pressupõe justamente a aceitação de tudo que se lhe apresenta. Tudo de Deus emana.

O yoga mostra que não é necessário descer ao fundo do poço para em seguida subir. Você já está no alto. Realização interior não é um movimento, mas a percepção de uma condição que já está dada. O fundo do poço consiste justamente em acreditar que você está no fundo do poço e viver como se não estivesse em outra parte. Em outras palavras, o fundo do poço consiste em aferroar-se à crença (bastante irracional, aliás) de que tudo que você fizer exteriormente o fará evoluir interiormente, de que é necessário sair de onde você está, subir escadas, escalar muros.

Mas não tente se enganar: o fato de compreender o que foi dito aqui e de despojar-se da preocupação de despojar-se não o conduzirá necessariamente a nenhuma realização interior. Faça o que quiser, com o máximo de consciência possível, identificando com o máximo de acuidade possível quem são os verdadeiros agentes de suas ações. Isto é yoga.

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