03 março 2011

Riscos e paradoxos do ensino do yoga


O primeiro e maior risco de ensinar yoga é permitir que o estudante acredite que realmente tem algo a aprender fora de si mesmo, isto é, não deixar claro ao estudante que todas as técnicas e discursos são «o dedo que aponta a lua», não a lua. Obviamente, o risco é muito maior para o estudante do que para o professor, que, no máximo, expõe-se à chance de ser tomado como figura hierárquica importante, como linha principal de transmissão de um conhecimento que, na verdade, não vale a pena ser absorvido se não vem da própria experiência consigo mesmo. Já o estudante expõe-se ao risco do deslumbramento, da repetição psitacídea, da ignorância travestida de erudição.

Quando notamos que a maioria das escolas e dos grupos depende em algum grau desse deslumbramento -- e há graus saudáveis, é claro --, compreendemos por que são raros os professores dispostos a declarar a própria inutilidade e a reafirmar valores tão fundamentais como svecchacara (agir conforme a própria vontade).

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O segundo risco, decorrente do primeiro, é o desejo de consolidar um grupo sem iniciar a consolidação dos indivíduos que pertencem ou que pertencerão a ele. Com «consolidação dos indivíduos» eu me refiro principalmente ao desenvolvimento de qualidades como satya (sinceridade, ser quem você é), svadhyaya (auto-estudo ou «entrar em si») e ishvarapranidhana (a entrega do ishvara, a divindade interior). Nenhuma destas qualidades é identificável num grupo, apenas em indivíduos, é claro. Nenhuma destas qualidades pode ser adequadamente desenvolvida quando o indivíduo dá mais valor a seu papel no grupo do que à sua própria experiência no yoga.

Naturalmente é bem difícil desenvolver no iniciante o apreço por tais qualidades sem atrai-lo para um grupo acostumado a elas. Os problemas surgem quando se prioriza a atração e a coesão em detrimento do estudo, da manutenção e da propagação dessas qualidades -- e assim o indivíduo é educado desde o início para olhar para o lado, não para dentro. Em pouco tempo essas qualidades serão substituídas por regras, condutas e jargões que têm como objetivo manter a coesão do grupo e ampliá-lo -- e assim o grupo passa a se alimentar de si mesmo.

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O terceiro risco, que decorre dos anteriores, está relacionado com o gregarismo e com a impermeabilidade ao conhecimento. Quando se somam as idéias de que todo conhecimento necessário para o indivíduo vem de fora dele mesmo (primeiro item) e de que «fora» significa o grupo a que ele pertence (segundo item), o indivíduo é levado a crer que nada mais há para aprender além daquilo que já circula em seu grupo e que as regras, as condutas e os jargões utilizados nesse grupo são todo o conhecimento de que ele precisa. À medida que essa crença se perpetua e é absorvida pelos recém-chegados, ela substitui aquilo que originalmente havia sido proposto como objeto de estudo.

Não surpreende, a partir daí, que o yoga seja visto essencialmente como uma disciplina social, cujo único propósito é manter uma atmosfera de paz e amor. O êxito na manutenção dessa atmosfera e o uso constante de uma fala adocicada, entre outros trejeitos, serão tomados como sinais suficientes de que o grupo segue na direção correta.

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Estes três itens levam a um caos mental alarmante. Consolidados estes três itens, já não há mais chances de recorrer ao conhecimento tradicional, materializado nos shastras e nos ensinamentos dos poucos mestres dotados de alguma ascendência; estes serão avaliados e julgados com base em sua sintonia com as regras, as condutas e os jargões do grupo, contrariando a lógica simples que recomenda avaliar o novo tomando o antigo e tradicional como parâmetro. Se a tradição não confirma a modernidade, pior para a tradição.

É evidente a importância que estes três itens têm na formação da cultura do yoga no ocidente, assim como o espaço que eles oferecem para a criação de novos métodos -- em sua maioria, com pouca ou nenhuma relação com as origens e com os objetivos do yoga. Mesmo que eles não resultem em novos métodos, os danos são evidentes.


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3 comentários:

Christian disse...

Um bom aprofundamento de algumas idéias presentes neste meu texto pode ser encontrado neste outro texto, do amigo Fernando Liguori:

Yoga Postural não é Yoga, é Ego Yoga

Fernando Liguori disse...

Olá Christian,

Om Namah Shivaya!

Muito bom seu texto. Se todos nós, professores de Yoga, pudessemos ter a visão interior da prática e o valor tradicional de seus ensinamentos aplicados aos dias de hoje, uma nova era de praticantes iria surgir.

Grande abraço.

Fernando Liguori

Christian disse...

Obrigado pelo comentário, Fernando.

Meu esforço -- timidamente, com minhas aulas e com meus escritos -- tem sido justamente no sentido de ajudar a construir e disseminar essa visão interior. Prossigamos, pois.

Abraço!