27 agosto 2011

«Não existe melhor ou pior»

Sarvangasana

Cristalizou-se ao longo das últimas décadas a idéia de que o bem é relativo e de que não existe verdade. No yoga, a fixação desta crença fê-la criar raízes e ramos e produzir frutos, redundando num sem-número de métodos maravilhosos. Embora cada um deles ostente uma bandeira diferente, com cores diferentes e formatos diferentes, só há um lema: «não existe melhor ou pior».

Um dos pilares desta crença é a compreensão literal do panteísmo hinduísta. Se «tudo é Um», realmente não faz diferença seguir esta ou aquela direção. Já somos o que deveríamos ser.

Decerto nada acontece fora de Deus e nada existe em «outro plano»; mesmo as mais tresloucadas idéias fazem parte do «Um». Assim, a própria noção de ilusão é estranha diante da idéia de que «tudo é Um». Porém, quem diz «não existe melhor ou pior» ou «não existe certo ou errado» não está se referindo a um plano em que «tudo é Um», tampouco está vivendo nesse plano.

A existência neste mundo implica diferenciações materiais e conceituais. Estar vivo é diferenciar-se. Tanto melhor é a vida quanto mais clara é essa diferenciação -- isto é, quando maçãs são vistas como maçãs, canecas como canecas, automóveis como automóveis, o Joãozinho como Joãozinho e a Mariazinha como Mariazinha. Logo, neste mundo existe melhor e pior, certo e errado porque esta diferenciação é a própria substância deste mundo.

No plano da eternidade, em que «tudo é Um», a própria noção de moral não tem o menor sentido. Neste mundo -- que é precisamente onde uma pessoa vive, trabalha, come e dorme, paga contas, produz idéias e as expressa -- a moral não apenas é possível como também é necessária -- daí todas as distinções entre certo e errado, melhor e pior.

Portanto, de duas uma: ou (i) o indivíduo assume integralmente que «tudo é Um» e silencia sobre o que quer que seja ou (ii) assume as limitações e necessidades do plano em que vive e pronuncia-se de acordo com elas. E é óbvio que as postulações de uma pessoa sobre a vida de um modo geral só fazem sentido se ela se dispõe a submeter as especificidades da própria vida a essas postulações.

***

«Tudo está fluindo da melhor forma»


Estas colocações são pertinentes para analisarmos o diálogo a seguir.

Deparei-me recentemente com um post num blog sobre «dog yoga» (modalidade em que posturas inspiradas no yoga são realizadas junto com seu cachorro). Qualquer pessoa com mais de dois neurônios sabe que «dog yoga» não é yoga. Se você tem alguma dúvida disso ou se esta frase soa rude ou antipática, talvez seja melhor você fechar esta página e não voltar a ela. Se não tem, prossiga.

Eis o diálogo.

Meu comentário, que deu início à troca:
Obviamente você não deve satisfações a mim e a quem quer que seja sobre as razões que o levam a publicar certas informações em seu site, tampouco tenho como objetivo inquiri-lo sobre isso. A casa é sua, não minha.

Seja como for, devo dizer que fico especialmente curioso sobre suas intenções neste post. Chama-me a atenção o contraste entre o fato de que não se trata, em nenhuma hipótese, de algo que se possa chamar de yoga (o que pode ser verificado e validado por diversas formas, das mais intuitivas às mais «científicas», incluindo as mais tradicionais e as mais modernas) e o fato mesmo da reprodução despretensiosa da informação, isto é, absolutamente desprovida de qualquer crítica.

Talvez tenha sido o caso de transmitir informações relacionadas ao yoga independentemente do teor e da qualidade, como mera curiosidade sobre o lado exótico do yoga e do que dele decorre. Contudo, não vejo por que isto deporia a favor do post, muito menos a favor do yoga. Onde quer que haja objetos diferentes tratados com o mesmo nome, cabe a nós profissionais manter a clareza das informações e dos conteúdos. E, claro, esta responsabilidade aumenta quando nos dispomos a escrever publicamente sobre o assunto.

Se achar adequado falar um pouco disso (isto é, falar do que não foi dito), o acompanharei com satisfação.

A réplica:
Querido Christian,

Esse blog tem a função de divulgar a prática de yoga e massagem ayurvédica bem como assuntos relacionados ao tema. Quando me refiro a assuntos relacionados ao tema abro o leque e divulgo tudo que eu achar que será relevante de alguma forma, mesmo que cause polêmica.

Entendo esse caminho milenar não como uma prática rígida mas com muita suavidade. Por isso faço e sigo o caminho da yoga e ayurveda com muita flexibilidade e de forma que se adapte ao meu dia dia numa cidade como São Paulo e sempre ouvindo minha intuição.

Não existe certo ou errado, melhor ou pior. O que existe está ai e está fluindo da melhor forma como deve fluir.

Espero que continue acompanhando nosso trabalho.

Publiquei a seguinte tréplica, que foi apagada pelo dono do blog horas depois:
Agradeço a publicação de meu comentário e sua resposta.

Se você não vê diferenças entre certo e errado, posso supor que você não as vê nem em sua própria vida e em seu próprio trabalho, certo? Por que, então, eu deveria continuar acompanhando seu trabalho, como você sugere no final de sua resposta?

Por favor, não me entenda mal. A pergunta pode soar retórica e antipática, mas na verdade é bem objetiva.

Por muito tempo eu acreditei que não existe certo ou errado, melhor ou pior. No plano a partir do qual os mestres encaram a realidade, realmente tais adjetivos não fazem muito sentido. Mas no plano em que nós nos encontramos -- em que dialogamos e trabalhamos para perpetuar o yoga --, adotar tal afirmação («não há certo ou errado») como regra mais confunde do que esclarece.

Por exemplo, se não existe certo e errado, qualquer coisa pode receber o nome de yoga e ser divulgada como tal. Comer parafusos, talvez. Ou a auto-mutilação. Se não há certo ou errado, só o mero acaso explicaria nossa permanência num caminho como o yoga e, portanto, bastaria fazer qualquer outra coisa que recebesse este nome para ser um yogin e para realizar-se como tal. O que quero dizer com estes exemplos extremos é que uma análise objetiva de certas afirmações pode mostrar a extensão de sua validade como instrumento para lidar com a realidade.

Então, a flexibilidade, a adaptação e a fluidez -- como qualquer atributo que se use para desenvolver qualquer tipo de atividade, disciplina ou auto-estudo -- têm limites. É precisamente por este motivo que o yoga mudou tão pouco na Índia, sobretudo entre aqueles que o criaram, e mudou tanto no Ocidente.

Além de apagar minha tréplica, o dono do blog aparentemente deu a discussão por encerrada, porquanto não houve mais nenhum sinal. Insisti, enviando um outro comentário, porém já prevendo o resultado.
1) Se sou «querido», por que apagou meu comentário?
2) Se não existe certo ou errado, por que apagou meu comentário?
3) Se não existe melhor ou pior, por que apagou meu comentário?
4) Se tudo está fluindo da melhor forma, por que apagou meu comentário?

Eu entendo que possa ter recusado minha tréplica. O que não entendo é a ausência de coerência entre palavras e ações.

As perguntas não foram retóricas, mesmo eu sabendo que elas trariam o fim prematuro do diálogo. Algumas horas depois todos os comentários foram apagados.

***

Satya e bom-mocismo


A maior parte das pessoas que estuda e ensina yoga hoje em dia considerará que fui agressivo e que não havia nenhuma necessidade de incomodar uma pessoa com questionamentos a respeito do que quer que seja.

Eu sinceramente duvido disso, por vários motivos.

Primeiro, pelos motivos expostos em meu primeiro comentário ao autor do post sobre «dog yoga»:

Onde quer que haja objetos diferentes tratados com o mesmo nome, cabe a nós profissionais manter a clareza das informações e dos conteúdos. E, claro, esta responsabilidade aumenta quando nos dispomos a escrever publicamente sobre o assunto.

É evidente que eu, como professor, tenho a obrigação não apenas de transmitir o que é certo mas também de questionar uma pessoa quando acho que ela não está transmitindo o que é certo. Não digo isso porque quero impor a ela a minha visão, mas porque não descarto a possibilidade de que eu mesmo esteja errado. Portanto, uso o questionamento da seguinte forma: se eu estou certo e a outra pessoa errada, ela pode passar a fazer o certo; se eu estou errado e ela certa, eu é que posso passar a fazer o certo; nos dois casos as duas pessoas podem ganhar, nos dois casos o yoga ganhará.

Logo, quando há divergências o questionamento não é apenas interessante, ele é necessário também, sobretudo quando tratamos de uma tradição que tem autores e história e quando participamos de um círculo de pessoas teoricamente dispostas a propagar essa tradição.

Segundo, uma afirmação não-ficcional só merece ser levada em conta se ela inclui o próprio autor. Por exemplo, dizer «não existe certo ou errado» ou «não existe melhor ou pior» dispensa automaticamente o ouvinte de dar ouvidos ao que quer que esse autor venha a dizer depois disso. Se todas as idéias e palavras têm o mesmo valor, por que raios eu deveria ouvir aquele sujeito em vez de ouvir uma conversa de botequim ou as entrevistas de um programa de auditório?

Este caso é um exemplo de paralaxe cognitiva, definida pelo filósofo Olavo de Carvalho como «o deslocamento entre o eixo da construção conceitual e o eixo da experiência existencial». Em palavras mais simples: aquilo que o sujeito diz não tem a menor relação com aquilo que ele efetivamente vive -- e, se não tem, não pode ser levado a sério a não ser como ficção.

Uma resposta a esta crítica é «você não é obrigado a me levar a sério», mas mais uma vez é evidente o deslocamento entre a vida que a pessoa vive e aquilo que ela diz, pois é claro que ela gostaria de ser levada a sério, respeitada e aprovada, sobretudo por alunos e clientes.

Ademais, se isto agrada aos viciados em yamas, o fenômeno da paralaxe cognitiva nada mais é do que um desrespeito a satya. Hoje em dia há poucas coisas mais comuns do que faltar com a verdade em nome de um bom-mocismo que as pessoas insistem em chamar de ahimsa.

***

Realmente não me importo de ter comentários apagados ou de não encontrar nenhum espaço ou disposição para discutir temas que considero pertinentes. Não escrevi este texto porque estas coisas me aborreceram -- de fato não me aborreceram e não me aborrecem. Realmente não se trata de discutir pessoas (por este motivo é que não indiquei nomes e endereços do site e do post), mas de discutir idéias e atitudes e de analisar como isto influencia o yoga e a compreensão que se tem desta disciplina.

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2 comentários:

Quil disse...

rsrsrs.. interessante... o exercício do ser...

Quil disse...

Li este texto na ocasião de sua publicação. De lá pra cá, tive outras interações significativas com você (na seara do Yoga), portanto, retornando a ele hoje, ocorre-me comentar:

Suas discussões se dão no mais alto nível, reconheço em você um par!

Concordo em gênero, número e "de"grau!