29 outubro 2011

Yoga não se discute?

Caos. Realmente.

As pessoas confundem intolerância com nervosismo, irritação e revolta. Não vislumbram que é possível ser crítico e intolerante sem mover um músculo do rosto, sem desviar-se um milímetro do conhecimento de si mesmo. E não percebem que com essa confusão revelam algo sobre si mesmas, porque se lhes fosse possível fazer essas coisas -- criticar sem se desviar -- não tomariam a crítica alheia como expressão de fraqueza ou de imaturidade emocional. E, talvez, lhes seria possível considerar, por um instante apenas, que a crítica tem alguma razão de ser.

No yoga, essa forma de encarar a crítica levou a uma intolerância a toda crítica. Existe uma proibição velada de manifestar-se contra o  que quer que seja. Mesmo que a crítica seja, na verdade, um convite expresso para a discussão de temas importantes, as respostas possíveis resumem-se a três:

1) silêncio;
2) acusar o crítico de faltar com ahimsa;
3) desvio retórico, que consiste em falar de qualquer outra coisa totalmente desprovida de relação com o tópico que levou à crítica.

No primeiro caso, trata-se de fingir-se de morto -- atitude que dispensa comentário.

No segundo caso, está implícito que o acusador sabe o que é ahimsa, sabe o que é um yogin e sabe quais são as razões e as motivações do crítico. Ele pode saber o que é ahimsa, pode saber o que é um yogin, mas só saberá as motivações do crítico se ele lhas declarar. E, se não sabe quais são as motivações do crítico, realmente não faz diferença saber o que é ahimsa e o que é um yogin, simplesmente porque ele não sabe se está diante de um bobalhão, de um yogin e crítico sério ou do próprio Gorakshanatha reencarnado.

No terceiro caso, prevalece aquela birutice típica dos abraçadores de árvores, dos deslumbrados esfumaçados e dos otimistas de tiroteio.

Estas três reações são faces diferentes de duas idéias:

1) yoga não se discute;
2) existe a «minha verdade» e existe a «sua verdade».

É evidente que o yoga se discute. Quem, por exemplo, propõe uma metodologia que consiste em usar blocos para fazer asanas tem uma idéia do que é o asana, propõe um uso dos asanas que é necessariamente diferente do uso proposto pelos hathayogins e, enfim, vai chegar a resultados diferentes daqueles obtidos quando os asanas são praticados sem blocos e são usados para seguir na direção de outros angas. Então você decide questionar essa pessoa e, quando há uma resposta, recebe algo como «pessoal, vamos deixar essa discussão para depois?» ou «melhor discutirmos isso em outro lugar». E, claro, a hora e o lugar ideais nunca vêm.

É evidente também que não existe «minha verdade» ou «sua verdade» a não ser como verdades isoladas, algo que elas nunca serão. Você está vendendo a «sua verdade» e ainda está dando a ela o mesmo nome que uso para «minha verdade». Isto, é claro, não estabelece nada a respeito da prevalência da sua ou da minha verdade, apenas torna evidente que existe pelo menos um território comum às «duas verdades» e é neste território em que começam avaliações sérias dessas «duas verdades» -- dar as costas para isso é o mesmo que carimbar «asno» na testa. Se existe esse território comum, é evidente que não pode haver nada tão ridículo como a coexistência de «minha verdade» e «sua verdade».

Nas raras vezes em que uma pessoa se dispõe a discutir, sobrevém o argumento da experiência, que é mais ou menos como se segue:

1) O yoga é fundamentalmente uma prática;
2) logo, o que deve prevalecer é a experiência e
3) é necessário expor-se a uma gama cada vez maior de experiências para que o Ser se revele na diversidade.

(Devo comentar o fato de que este raciocínio é um bom argumento para estudar e praticar qualquer outra coisa além do yoga e, no limite, abandoná-lo completamente? Prossigamos.)

O argumento da experiência faria algum sentido se o indivíduo já tivesse compreendido as lições essenciais. Eis algumas delas:

1) O yoga e as técnicas do Hatha Yoga foram criados com objetivos específicos.
2) A experiência deve ser empreendida sob a luz desses objetivos específicos. O mesmo vale para tudo aquilo que hoje em dia é defendido como «a evolução do yoga».
3) «Gama cada vez maior de experiências» e «evolução do yoga», no contexto do Hatha Yoga tradicional, significam «quantidade cada vez maior de vrittis».


Em verdade, o que a maioria das pessoas chama de «gama cada vez maior de experiências» e «evolução do yoga» significa:

1) A prática de asanas com blocos, cadeiras, cordas, panos, cobertores e cintos.
2) A prática de asanas através da repetição simiesca de séries fixas.
3) A prática de asanas com música ao vivo.
4) A prática de asanas sob calor amazônico.
5) A prática de asanas como forma de preparação física.
6) A prática de asanas como meio de curar doenças.
7) A prática de asanas com mensagens inspiradoras.
8) A prática de asanas «na natureza».
9) A prática de asanas em duplas.
10) A prática de asanas.
11) A prática de asanas.
12) A prática de asanas.

E ainda dizem que yoga não se discute.

2 comentários:

Guilherme Diniz disse...

Excelente texto!

Às vezes não se discute simplesmente
por não se saber sobre o está a se discutir.

Às vezes confundem ahimsa com covardia,
como se pelo fato de você querer ultrapassar
aquilo que é falso fosse uma agressão.

E não raras vezes o desvio retórico indica
um estado, se não de desonestidade, ao menos
de despreparo e insuficiência de conteúdo.

Christian disse...

Exatamente, Guilherme!