04 dezembro 2011

Por que não buscar «experiências de yoga»


Antes de mais nada, vejam este vídeo:

Anoushka Shankar plays «Pancham se gara»

Anoushka Shankar, como o sobrenome permite supor, é filha de Ravi Shankar, o gênio da cítara indiana.

Viu o vídeo? Se não viu, veja pelo menos a segunda metade. Veja. Insisto: veja. A insistência é justificada. Você só terá condições de responder a pergunta seguinte se realmente viu o vídeo e a performance dos músicos, em especial de Anoushka Shankar.

A pergunta é: como floresce a grande arte?

Qualquer observador, por mais simplório que seja, conseguirá perceber duas coisas vendo o vídeo acima.

1) O que o vídeo mostra é grande arte, indubitavelmente.

2) Tocar cítara indiana deve ser algo difícil. Numa escala que vai de 0 para «Atirei o pau no gato» até 10 para os «Concertos de Brandenburgo», tocar cítara indiana com a destreza de Anoushka Shankar deve estar em 9,97.

E poderá concluir, em resposta à pergunta proposta, que grande arte só floresce onde há estudo, prática, disciplina e ascendência:
— Estudo e prática para aprender efetivamente.
— Disciplina para manter-se estudando e praticando.
— Ascendência para que você não tenha que reinventar a roda e para ter quem o ajude nessa trajetória -- pode ser o pai-gênio-da-cítara-indiana, pode ser um professor, um instrutor ou qualquer pessoa que domine a arte que se dispôs a transmitir.

Ainda fazendo referência ao vídeo, é possível crer que Anoushka Shankar tornou-se realmente a herdeira da tradição de Ravi Shankar fazendo «experiências musicais»? Ou ela chegou aonde chegou estudando a arte da cítara com reverência e constância? Em arroubos adolescentes ela rasgou as capas dos LPs do pai ou os ouviu com atenção, encontrando neles fonte de estudo e inspiração? Ela estudou sanfona, violão, bateria, guitarra, fagote, violoncelo, flauta, gaita e trompete ou concentrou-se na cítara indiana e fez deste instrumento sua própria vida?

Se você viu o vídeo e respondeu as perguntas acima está em condições de seguir com a leitura deste texto sem torcer o nariz para o que encontrará nas próximas linhas.

***  

A segunda parte deste texto começa com duas proposições:

Proposição 1: o yoga está decaindo.

Proposição 2: uma das causas dessa decadência está nos métodos inventados nas últimas décadas.

Para que não haja dúvidas, serei anormalmente didático:

1) Por que decaindo?
Porque na mais gentil, bondosa e ingênua das hipóteses, o que se oferece hoje como «aulas de yoga» é ginástica indiana. Em comparação com o que se conhecia como yoga antes ou com o que se conhece como yoga nos círculos mais tradicionais, é evidente que houve perdas, é evidente que se trata de uma decadência.

2) Mas que presunção. Como você é arrogante. Não concordo com isso.
Isto não é uma discussão e eu não estou expondo um argumento. Estou expondo um fato.

3) Como assim?
Esta verificação pode ser realizada de várias formas, a começar pelo estabelecimento de termos: «yoga», «ginástica», «aula» etc. Se você ler as escrituras sagradas do yoga e/ou conversar com um yogin (alguém que, como Anoushka Shankar, pôs-se a estudar e praticar uma arte ou tradição com disciplina e regularidade sob a orientação de um mestre genuíno) compreenderá o que eu disse antes: o «yoga» de hoje em dia não passa de ginástica indiana. Se estudar mais um pouco descobrirá as ligações desses tipos atuais de «yoga» com práticas completamente alheias a Patañjali e ao Hatha Vidya, apenas para citar duas referências realmente importantes.

4) Para mim tanto faz. Não quero ser yogin, quero só melhorar minha saúde, aumentar minha capacidade de concentração, ficar mais calmo. Se obtenho essas coisas, então tudo bem.
Realmente não há alternativa. Ou você é um yogin e realmente se coloca a estudar e praticar com disciplina e regularidade ou está apenas perdendo seu tempo e desperdiçando o tempo de seu professor. Se seu professor é um yogin digno deste nome, ele realmente não está para brincadeira e parte do pressuposto de que você também não está. Seu interesse em «só melhorar a saúde» é tão justo quanto o interesse dele em «preparar futuros yogins», pelo simples fato de que yoga não é para «melhorar a saúde» e sim para realizar o yoga na vida do indivíduo, ou seja, para formar yogins -- não «praticantes de yoga», não «professores de yoga», mas verdadeiros yogins. É justo que você queira praticar cítara indiana só para «tocar umas músicas», assim como é justo que o seu professor de cítara queira transformar você num citarista e o dispense quando percebe que não é isso que você pretende para si. Por que Ravi Shankar perderia tempo com alguém que só quer «tocar umas músicas»?

5) Tá, mas eu continuo querendo só melhorar minha saúde, aumentar minha capacidade de concentração e ficar mais calmo e você, é claro, quer ter alunos e o dinheiro que eles pagam por suas aulas, certo?
Você realmente acredita que esses benefícios são o ponto mais alto a que uma pessoa pode almejar? Ou você está simplesmente admitindo que não quer estudar e praticar yoga? É claro que é bom melhorar a saúde, mas todos os «benefícios do yoga» são sintomas de uma prática bem feita, não o objetivo da prática.

6) Ok, você falou das invenções das últimas décadas, o que isso tem a ver com o atual estado de coisas?
Foi neste período que Krishnamacharya, o mallakhambista, e seus alunos, Pattabhi Jois, o ginasta, e B. K. S. Iyengar, o fisioterapeuta, lançaram métodos que se tornaram muito populares como «yoga» principalmente no Ocidente. Estas três pessoas viram nos ocidentais um interesse anormal (= dinheiro sobrando + credulidade) por disciplinas exóticas e/ou orientais. Não à toa floresceu no mesmo período (a partir do Segundo Pós-Guerra) uma gama de práticas que tinham como objetivo «expandir a consciência», algumas regadas a drogas, outras simplesmente regadas a baboseira pura, como no caso do yoga.

6) Você está sendo arrogante de novo. Como pode chamar de baboseira o que esses três mestres fizeram?
Por favor releia as respostas 2 e 3 e pergunte-se o seguinte: são mestres de quê? De yoga? Sério mesmo? Você continua achando que yoga é fôlego super-desenvolvido e contorcionismo?

***

Há um tipo de professor ou praticante que parece alheio às três figuras supracitadas. Ele tem consciência dos problemas mencionados anteriormente, sabe que o rumo que o yoga tomou nas últimas décadas é inadequado e incompatível com o que Patañjali e Gorakhnath ensinaram. A grosso modo, suas principais características (isto é, aquelas que os tornam um tipo pitoresco) resumem-se a:

1) Não se fixam num sistema, método ou linha de yoga (admito aqui por alguns instantes que estas expressões são algo além de nonsense) e parecem prezar aquilo que se costuma chamar de «tradição».

2) Embora prezem a «tradição», permitem-se beber em diversas fontes, muitas vezes alheias ao yoga, como a ginástica, a dança, a religião e a terapia física ou psicológica, trazendo para dentro do yoga elementos práticos e teóricos dessas fontes que mais adiante serão tomadas elas mesmas como yoga. Vinyasa (a prática seqüenciada de posturas corporais, com permanências mínimas, como o Surya Namaskar) é um dos exemplos mais comuns dessa tendência: raramente se vê uma pessoa capaz de perceber que a relação entre vinyasa e yoga é apócrifa. A associação entre Vedanta e Hatha Yoga é outro exemplo de apocrifia.

3) De forma semelhante, embora formalmente discordem do utilitarismo do yoga («yoga para gestantes», «yoga para combater a depressão» etc.), essas pessoas permitem-se cruzar o yoga com disciplinas alheias ao yoga, desta vez aplicando nessas disciplinas algumas técnicas típicas do yoga ou os benefícios obtidos com a prática dessas técnicas. Por exemplo, a yogaterapia (um tipo de terapia, não de yoga) surgiu quando professores de ginástica indiana começaram a se deparar com praticantes sem condições de se iniciar nessa disciplina.

Estes três itens podem ser resumidos como «devoção às experiências de yoga» (que, aliás, é semelhante ao dito cristão que diz «Examinai tudo: abraçai o que é bom»; I Tes, 5:21).

Seria perfeito se o indivíduo realmente buscasse na diversidade a Unidade que é comum a essas experiências ou se a quantidade cada vez maior de experiências realmente fosse uma espécie de treinamento através do qual o indivíduo exercitasse a observação da Unidade (do mesmo modo que aquele dito cristão, como qualquer outro, passa pelo crivo do Primeiro Mandamento). Mas não é. Não há nenhum mistério nas motivações dessas pessoas. Elas não são devotadas às «experiências de yoga» como forma de observar a realização do yoga, elas buscam acumular experiências na esperança de encontrar a realização do yoga por tentativa-e-erro -- como quem atira para todos os lados esperando acertar no alvo, como se a Unidade pudesse estar em uma das experiências mesmas e não no ato mesmo de transcender todas as experiências.

Sri Nisargadatta Maharaj ilustra isso de forma magistral:
«A minha vida é uma sucessão de eventos exatamente como a sua. A única coisa é que estou desapegado e vejo o show que passa somente como um show que passa, enquanto você se apega às coisas e vai com elas de um lado para o outro». (link)
Pode-se argumentar, em favor desses praticantes e professores, que a busca por «experiências de yoga» nada mais é do que o cumprimento de seu próprio caminho ou, como algumas pessoas gostam de dizer, «o cumprimento de seu dharma». Novamente, tudo depende dos objetivos, tudo depende do ponto em que a pessoa pretende chegar fazendo o que faz.

Se buscam estas experiências para o próprio desenvolvimento pessoal, demonstram que estão longe de compreender o que é o yoga. Uma dose mínima dessa compreensão demonstra que o yoga não está vinculado a tempo, lugar ou ação -- é algo que se manifesta quando estes três objetos (entre vários outros) começam a «cair». Se buscam estas experiências por razões meramente sociais ou profissionais, então que sejam sinceros em relação a isso -- sinceridade esta que implica reconhecer (e admitir) que o que está sendo realizado nada tem a ver com a realização do yoga para si mesmos.

***

Todo o problema descrito de forma fragmentada ao longo deste texto pode ser resumida em uma expressão: auto-imagem.

Auto-imagem é aquilo que você acha que é. O que você acha de si mesmo é determinado por inúmeros fatores, internos e externos. Se você tentar visualizar esses fatores, mesmo uma parcela pequena deles, perceberá que a auto-imagem não se assemelha a um auto-retrato renascentista, mas a uma pintura de Jackson Pollock:


Yoga é justamente o processo através do qual é possível ver o que há por trás de tantas camadas de tinta. Buscar «experiências de yoga» e aperfeiçoar sua auto-imagem significam jogar mais tinta nessa tela e embotar a única compreensão realmente fundamental.

2 comentários:

Anônimo disse...

Olá professor, adorei o post, já vinha refletindo a respeito. ZContinuarei rsrs!!! Obrigada por trazer a Luz do Yoga! Namaste. Amanda Nogueira

Christian disse...

Obrigado pelo comentário, Amanda. Seja sempre bem-vinda.