14 janeiro 2012

Yoga é religião

«Isto não é uma religião», disse Marcel Duchamp.

Nota prévia: se você é um experiente praticante ou professor de yoga, seja de qual «estilo» for, provavelmente discordará do que o título afirma. Se é um leigo com formação religiosa abraâmica (cristianismo, judaísmo, islamismo), provavelmente pensou «eu sabia! essa corja hinduísta quer nos afastar de nossa fé!» quando viu o título deste texto. Nenhuma das duas reações condiz com o sentido e com os objetivos deste texto. Portanto, peço encarecidamente a você, leitor, que o acompanhe até o fim. Obrigado.

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Se você não é hinduísta e não pratica yoga, em algum momento deve ter se perguntado sobre o lado religioso do yoga. Todos sabemos que o yoga nasceu na Índia e que este país possui tradições religiosas antigas e complexas. A maioria das escolas de yoga é ornada com imagens de divindades hindus e com freqüência usam-se mantras que são orações hinduístas e há elementos doutrinais óbvios, como aquele que explica o «namaste» como uma reverência entre deuses.

Mesmo assim, se você conversar com qualquer professor de yoga ele ou ela lhe dirá que o yoga não é uma religião, que o yoga não tem dogmas, não impede que a pessoa mantenha sua fé original etc. Tem divindades, símbolos, orações, doutrina, rituais, fala-se de espiritualidade o tempo todo, mas não se trata de uma religião? Conta outra, vai.

Por que, diante de tantas evidências de que o yoga é uma religião, dele se diz o contrário?
A resposta está no fato de que vivemos numa parte do mundo para a qual o hinduísmo ainda é uma religião estranha e, por isso, existe aqui a tendência natural a recusá-lo e a recusar tudo que puder ser associado a ele. A maioria de nós tem fé e crenças incompatíveis com essa religião oriental. Com dois ou três cliques é possível encontrar críticas de cristãos, judeus e muçulmanos ao yoga. Se para uma destas pessoas a necessidade de abandonar sua fé original (ou, como dizem, de «esvaziar a xícara») fosse colocada como condição prévia para praticar yoga, o que você acha que aconteceria?

Para quem decide fazer um curso de formação e tornar-se professor surge um problema óbvio: como estabelecer uma escola de yoga -- que obviamente será acompanhada de todo o «kit» hinduísta -- num país de maioria cristã? A solução encontrada foi absurdamente simples: priorizar as técnicas corporais e ao mesmo tempo negar veementemente toda «religiosidade» do yoga, mesmo que ela salte aos olhos.

 «Yoga é religião?»
«Claro que não. Agora junte-se a nós para cantar esse mantra para o deus-elefante»

Ou

«Yoga é religião?»
«Claro que não. Agora feche seus olhos, junte suas mãos em prece e visualize uma luz de cor verde fluindo de seu coração.»

Ou

«Yoga é religião?»
«Claro que não. Agora abram o Bhagavad Gita na pág. 22 e vamos dar seqüência à nossa leitura da semana passada.»

E por aí vai, como dizia Groucho Marx: «Você vai acreditar em mim ou no que os seus olhos vêem?».

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Para muitas pessoas, o que foi dito até aqui é suficiente para encerrar o assunto. Mas isto foi apenas o começo. Na verdade atropelamos algumas questões fundamentais e espinhosas. Vejamos:

1) O que é religião?

2) Todas as religiões são iguais? Elas falam da mesma coisa e levam na mesma direção?

3) As diferenças entre as religiões implicam o anulamento mútuo dessas religiões? Por exemplo, o fato de ser budista impediria um judeu de olhar o budismo por alguns instantes e, à maneira de S. Paulo, «experimentar de tudo e ficar com o que é bom»?

Por partes:

1) A explicação mais comum, que toma como base a etimologia do termo «religião», do latim «religare», a coloca como uma forma de «religar» o homem e Deus e isto está de acordo com um dos pressupostos presentes na maioria das religiões, de que o homem em algum momento «quebrou essa ligação», tornou-se cego para ela ou afastou-se dEle de algum modo (é claro que para apresentar cada uma destas hipóteses com clareza seria necessário fazer uma longa digressão teológica, o que deixarei para outra ocasião).

A segunda explicação deriva de uma outra leitura etimológica: religião viria do latim «relegere», que alude à idéia de releitura, de «refazer o caminho», o que parece estar de acordo com a forma como as religiões se estruturaram, com doutrinas, rituais, sacerdotes etc. Porém, esta não é uma explicação amplamente aceita.

2) É óbvio que as religiões não são todas iguais. Deduz-se isto não apenas pelas diferenças formais -- isto é, as diferenças entre doutrinas, escrituras e rituais de cada religião --, mas também pela substância de cada religião. Basta observar, por exemplo, a profusão de religiões de ascendência cristã, cada uma interpretando os Evangelhos à sua maneira e, não raro, entrando em conflito umas com as outras. O mesmo pode ser dito das inúmeras religiões de raiz hinduísta; por exemplo, há mais diferenças do que semelhanças entre um hare krishna e um monge da tradição natha, de origem shivaísta.

Se há diferenças notáveis e importantes na forma e na substância dessas religiões, e mesmo nas inúmeras ramificações de cada uma delas, é evidente que elas não levam ao mesmo lugar. É possível que elas falem da mesma coisa e apontem na mesma direção, mas os caminhos são obviamente diferentes e, por isso, também serão diferentes os riscos, obstáculos, possibilidades e frutos oferecidos por esses caminhos.

Há também o fato de que as religiões são manifestações culturais, às vezes ligadas às particularidades físicas e humanas de um lugar. Ainda que uma religião tenha sua origem nos ensinamentos de um indivíduo plenamente realizado espiritualmente, o estabelecimento, a organização e a disseminação dessa religião dependem fortemente de condições que ultrapassam o corpo doutrinal e ritualístico dessa religião.

3) Sobre a terceira questão, limito-me a dizer que concordo com S. Paulo quando diz «experimentai de tudo e ficai com o que é bom» e que estou longe de ver nisso uma resposta que encerre a questão que eu mesmo propus.

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O que isso tem a ver com o objetivo inicial deste texto e com o yoga? Acompanhe-me mais um pouco.

Dos três itens expostos acima permito-me deduzir o seguinte: o que define uma religião não é o «chegar lá», mas o «apontar para lá».

Se partirmos daquela idéia que compara o topo de uma montanha com o máximo da realização numa religião, perceberemos que o «topo» é diferente para cada uma delas. Assim, se puséssemos todas as religiões na mesma montanha, encontraríamos mais ou menos a seguinte situação:

-- uma religião apenas mostraria a foto do topo;
-- a segunda diria que não existe montanha e, portanto, não existe topo;
-- a terceira religião o levaria para apreciar a paisagem natural onde a montanha se situa;
-- uma quarta religião o orientaria para você chegar ao topo sozinho;
-- a quinta religião o colocaria num jipe confortável dizendo que o levaria ao topo, mas se perderia no meio da floresta que rodeia a montanha;
-- a sexta religião diria que ela própria não é uma religião e que tudo que foi dito até aqui é estupidez pura.

Etc.

Neste sentido, o yoga é religião. O yoga reconhece um «topo» e estabelece uma relação com ele, relação esta que em grande parte se traduz em «técnicas» (rituais, métodos, estudos, disciplinas). Porém, é evidente que o yoga não é uma religião da mesma forma que o cristianismo e o budismo são. As diferenças são óbvias.

***

A partir daqui torna-se importante saber de qual yoga estamos falando.

Quem acompanha os textos publicados neste site/blog deve saber que faço distinção entre pelo menos dois «yogas». Existe o «yoga moderno» que, por razões exaustivamente demontradas neste site, sequer merece o nome de yoga. Chamemo-lo portanto de «falso yoga». E existe o yoga, tal como tem sido perpetuado ao longo de muitos séculos, que por razões óbvias será chamado de «yoga» (do que mais poderíamos chamá-lo, oras?). Novamente, por partes:

1) O falso yoga é religião.

No início deste texto eu disse

«Tem cheiro de religião, tem gosto de religião, tem forma de religião, tem divindades, símbolos, orações, doutrina, rituais, fala-se de espiritualidade o tempo todo.»

Ainda que no falso yoga estes elementos sejam usados de uma forma cosmética, é evidente que eles constituem uma religião em alguma medida. A pessoa que pratica o falso yoga em algum «studio» acredita que está «se espiritualizando», ela busca «paz de espírito» e sabe que não obteria isso numa academia comum ou num consultório psicológico. Como causa e conseqüência dessa disciplina, ela só procura outras «religiões» desde que possa manter o falso yoga no rol de suas «práticas espirituais». Mesmo que tenha procurado o falso yoga apenas com propósitos corporais, evitará as práticas totalmente despojadas de «espiritualidade» porque faz questão de «sentir algo» para além das sensações corporais, pois subconscientemente busca «paz de espírito».

Novamente recorrendo à metáfora da montanha, a espiritualidade do falso yoga corresponde a contemplar a foto de uma montanha sem sequer imaginar onde ela se localiza, juntar as mãos em prece e «sentir» que já está no topo.

2) O yoga (o verdadeiro) também é religião, pois nasceu dentro do hinduísmo e também é dotado de símbolos, orações, doutrina, rituais etc.

É evidente que no yoga estes elementos têm um propósito. Se a «espiritualidade» do falso yoga é cosmética (e, portanto, raramente ultrapassa a «paz de espírito»), podemos dizer que a espiritualidade do yoga é genuína, ela efetivamente aponta numa direção. Em outras palavras, a espiritualidade do yoga efetivamente nos coloca para caminhar em direção ao topo da montanha. (Para ser mais rigoroso, uma observação importante e óbvia: métaforas têm limites. O yoga não propõe uma «caminhada», é claro.)

«Então, yoga é religião e ponto final, certo?»

Quase lá.

***

A partir deste ponto é necessário saber o que é o yoga e até que ponto ele depende de todos os elementos indicados anteriormente: rituais, doutrinas, escrituras etc.

Prática de yoga é prática de samadhi. Yoga é «libertar-se das amarras mundanas». Esta libertação significa realizar o Eu, que transcende (e que, portanto, abrange, inclui) corpo, mente e também qualquer idéia que se possa fazer sobre espiritualidade e sobre o próprio Eu. Significa também despojar-se de rituais, doutrinas, escrituras etc. Mas como, se estes elementos fazem parte do yoga? Simples: para quem não consegue enxergar através desses elementos, eles podem ser necessários em determinados períodos e em determinadas circunstâncias; para quem consegue enxergar através deles, eles não apenas são desnecessários como devem ser evitados. Yoga é esvaziar, não preencher e acumular.

Talvez essa explicação fique menos confusa se lembrarmos que a libertação de que se fala no yoga não tem nada a ver com Deus.  O yoga não o «leva» a Deus e também não o «afasta» de Deus. Não se trata de resolver sua relação com Deus. Trata-se de saber quem você. É este conhecimento que o levará a saber, por si próprio, qual é a sua relação com Deus. Logo, o yoga não pode ser teista ou ateísta.

Mestres de yoga que se declaram ateus recorrem a essa retórica porque pretendem esvaziar as crenças de sua platéia teísta. O «esvaziamento» momentâneo das crenças é sem dúvida importante no yoga. Recorrer a qualquer menção ao nome ou à idéia de Deus para fazer isso, por outro lado, equivale a usar um lança-chamas para apagar um incêndio.

Mestres de yoga que falam de Deus com a mesma freqüência de um pastor evangélico fazem isso porque não têm interesse em esvaziar crenças, mas em aproveitá-las. Mergulham ainda mais fundo no discurso retórico com o objetivo de criar identidade entre aquilo que está sendo ensinado e o teísmo original de sua platéia. Na verdade não há qualquer maestria aqui, há apenas uma espécie de «masturbação espiritual», que, na melhor das hipóteses, resume-se a reuniões sociais para abraçar árvores e «celebrar a vida».

O yoga implica a resolução daquilo que existe em um nível muito humano: reconhecer apegos, purificar a visão, colocar a consciência no plano real da existência, que, embora não exclua o corpo e a mente, não é determinado ou limitado por estas duas coisas. Mais uma vez: trata-se de saber quem você é o que você não é.

Voltando à metáfora da montanha, imagine que você começa a empreender a escalada carregando uma mochila pesadíssima nas costas. O yoga é o que lhe permite ver o que é essencial nessa escalada. Inevitavelmente isto leva ao despojamento da maior parte da bagagem. Este despojamento facilita não apenas a caminhada, mas também clareia a visão do caminho em que você se colocou e de suas próprias capacidades e limitações.

Em outras palavras, a jóia espiritual do yoga está em mostrar ao indivíduo quem ele realmente é e permitir que ele viva de acordo com essa consciência. Para aqueles que estão acostumados com o vocabulário cristão, realizar o yoga equivale a realizar as seguintes palavras de Jesus: «Vós sois deuses». Uma vez instalado nessa realidade é possível dirigir-se a Deus, seja você cristão, muçulmano, budista, judeu ou de qualquer outra tradição religiosa.

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8 comentários:

Quil disse...

;-)

Michel disse...

Belo texto, parabéns.

Christian Rocha disse...

Obrigado pelo comentário, Michel.

Anônimo disse...

Eu não sigo nenhuma religião "oficialmente", por isso fica fácil para mim os elementos espirituais do yoga. No entanto, eu sempre fiquei com a pulga atrás da orelha quando diziam que yoga não é religião e, mesmo assim, percebe-se vários elementos associados ao hinduísmo.

Esse seu texto é bastante esclarecedor!

Felipe Veroneze ( Dharma Tapas) disse...

Todas a religioes praticam yoga com seus rituais estudos caracteristicos particulares. Todas tem bhakti yoga, karma yoga, jnana yoga e o raja yoga. a unica diferença sao as posturas de fisicas. O unico problema e a mente humana que diferencia dando conceitos de certo. se um padre, um pastor abrir a conciencia tambem poderiam aprender para passar. mas as posturas e so um caminho entro todos o que eles ja tem, so falta a abertura de conciencia de nao julga.

Andréa Filomena disse...

Uau, que texto!
Se nos empenhamos para alinhar todas as dimensões em nós, em seus vários níveis vibracionais, e nos empenhamos para carregar a compreensão do Bhavana em nosso Purusha através de inúmeras ferramentas, conscientemente, seguimos na reconexão com este Purusha/Brahm, partícula de Brahm/Purusha, assim temos o Universo todo em nós. Pois tudo é verdadeiramente Brahm, tudo é da natureza de Brahm, e tudo é necessário!
O que pode haver fora disso?
:)

Christian Rocha disse...

Obrigado, Andréa!

Maria Fatima disse...

Eu busco no yoga o bem estar interior, o equilíbrio...
Pra mim independe do Deus que eu siga...