17 março 2012

Para que serve a tradição?



Em fevereiro passado a revista Época publicou um artigo que começava com um subtítulo de tempero folhetinesco: «O lado perigoso da ioga -- Um novo livro gera polêmica ao divulgar que a milenar prática indiana pode causar contusões graves e até danos cerebrais. Quando a ioga pode machucar?».

Sobre a matéria, que merece ser lida com atenção e cuidado, três comentários:

1) Todas as práticas que exigem esforço físico e se propõem a trazer mudanças importantes às pessoas oferecem riscos. Portanto, são «perigosos» em alguma medida.

2) Todas as práticas desse tipo tornam-se mais ou menos perigosas conforme o tipo de profissional que oferece orientação -- exatamente como acontece em qualquer área ou especialidade profissional, independentemente da existência de formalidades, regulamentos, entidades de classe etc.

3) O tipo de «yoga» a que a matéria se refere não é «o» yoga, mas o festival de métodos e «estilos» criados a partir dos anos 60 sob inspiração remota do hathayoga. Por exemplo, peça a algum professor de um desses estilos explicar a necessidade e o sentido de praticar esta postura:


A resposta que ele ou ela dará estará relacionada à flexibilização e ao fortalecimento da coluna, à superação de limites, a tapas, a abhyasa etc. Há mil formas de relacionar qualquer coisa com conceitos particulares do yoga. A única resposta correta é: não há necessidade e não há sentido em fazer uma postura dessa, é claro.

Em resumo, o problema do yoga atual -- e a matéria da revista Época é um sintoma disso -- está em querer ser algo que o yoga nunca será realmente e em perder de foco o que o yoga tem sido desde os tempos de Patañjali. Ignora-se a tradição pelo simples fato de não se compreender o que é uma tradição de um modo geral e, de modo específico, o que é a tradição do yoga.

Não é um problema exclusivo do yoga, claro. A medicina atual, por exemplo, envergonharia Hipócrates. A arquitetura atual, envergonharia Vitrúvio. A filosofia atual, envergonharia Sócrates, Platão e Aristóteles. A lista é extensa.

Isto pode nos levar a pensar que o sentido do yoga está na tradição. A resposta é sim e não. Se você acredita que «tradição» significa rituais, formalidades e procedimentos repetidos ad nauseam, a resposta é não. Se você acredita que tradição é o mesmo que legado, a resposta é sim. Devemos nos perguntar, então, o que é o legado do yoga.

Legado é aquilo que é transmitido geração após geração. Essa transmissão só se cumpre realmente quando a geração atual reconhece o valor daquilo que recebeu da geração anterior e, portanto, mantém uma linha mais ou menos contínua que vem desde os criadores de um determinado sistema ou conteúdo e chega aos dias de hoje.

Disto podemos deduzir uma primeira recomendação: a única forma adequada de praticar yoga é aquela que reconhece e respeita esse legado. O próximo passo é ter alguma clareza sobre o que é esse legado no yoga.

O legado do yoga chega até nós através das escrituras sagradas e de pessoas formalmente inseridas nas linhagens que criaram o yoga e sistemas como o hathayoga. Em tese, preservar e respeitar um legado exige participar formalmente de uma dessas linhagens, mas já seria um excelente começo fazer isso informalmente, seja mantendo em evidência as lições daquelas escrituras, seja buscando e se dedicando ao conhecimento que as linhagens genuínas perpetuam.

Temos aqui a segunda recomendação: mesmo que você seja um iniciante autodidata, alguém disposto a aprender yoga sozinho, através de livros e de sites, uma pesquisa necessária é aquela que lhe mostrará a origem do yoga e o que o yoga tem sido para os grandes mestres, desde que ele foi criado. Mas mesmo isto oferece alguns riscos, porque alguns dos indivíduos que hoje são considerados mestres não são mestres de forma alguma -- porque desconheciam o que era o yoga genuíno ou porque o conheciam e preferiram varrer este conhecimento para baixo do tapete.

O leitor já deve ter ouvido falar que no período colonial a presença estrangeira na Índia foi muito grande; isto culminou no domínio britânico no séc. XIX. Naturalmente, isto influenciou o yoga enormemente; por exemplo, neste período eram populares as demonstrações de faquirismo, que, a despeito de seu tom obviamente caricatural, até hoje é um pouco associado ao yoga.

O exibicionismo no yoga foi fortemente impulsionado por Tirumalai Krishnamacharya, patrono dos métodos modernos de yoga. As imagens abaixo são bastante conhecidas, sobretudo entre os seguidores de Krishnamacharya e de seus discípulos diretos.




Um exemplo de «maestria moderna» é B. K. S. Iyengar (que foi um dos principais alunos de T. Krishnamacharya), criador da linha que leva seu nome. Iyengar sabe o que é o yoga, mas preferiu estabelecer um método constituído apenas de posturas corporais e de exercícios respiratórios e chamar isto de yoga. Uma das referências de Iyengar é Ramana Maharshi, um dos grandes santos indianos do séc. XX. Mas o método Iyengar não tem nenhuma relação com os ensinamentos de Ramana. Aliás, nenhum dos ensinamentos de Ramana Maharshi aparece no Iyengar Yoga, cujo cerne é o alinhamento postural.

O mesmo vale para vários outros métodos modernos, cujos criadores declaram seguir as lições de mestres antigos e que, no entanto, estabeleceram métodos originais, isto é, desprovidos dos elementos tradicionais. Fica evidente, nestes métodos, o interesse em vender um produto original e ao mesmo tempo contar com a chancela dos antigos, como se Gorakhnath (o fundador do hathayoga) e seus herdeiros pudessem ter algum interesse em vinyasa e exibições de hiperflexibilidade.

A terceira recomendação está relacionada à pesquisa e ao questionamento. É possível que você tenha interesse particular apenas nos métodos modernos ou talvez na sua cidade só existam professores ou escolas dedicadas a esses métodos. Mesmo que você só tenha acesso a métodos modernos -- por opção ou por falta de opção --, é interessante questionar seu professor a respeito da tradição. Digo isso porque muitos professores dos métodos modernos incluem estudos a respeito da «filosofia do yoga», mas não explicam a relação entre tais estudos e a prática milimétrica de asanas ou a prática sudorípara de asanas ou, ainda, a prática de asanas em cordas -- como se o fato de você fazer «cara de meditação» quando faz asanas nos estilos modernos fosse suficiente para explicar essa relação.

Por exemplo, existem inúmeras interpretações para yama e niyama, como aquela, já lugar-comum, que associa ahimsa (não-violência) à necessidade de respeitar os limites do corpo (isto é, não agredir o corpo). É óbvio que a associação entre a «filosofia do yoga» e a prática do yoga nunca vai se resumir à auto-ajuda filosófica ligada a yama e niyama.

A pergunta essencial é: como os ensinamentos contidos em escrituras como Bhagavad Gita e Yoga Sutras se apresentam e se manifestam numa prática? Pergunte isto ao seu professor. Se você não receber uma resposta clara e objetiva, preocupe-se.

Uma resposta comum, que eu mesmo já ofereci a alguns alunos, é que as escrituras antigas indicam os caminhos que devemos percorrer quando realizamos a sadhana; elas ensinam o que acontece quando se realizam certas técnicas e também o que sentimos ou o que «temos que» sentir etc. e, portanto, deveriam ser usadas desta forma, isto é, esta seria precisamente a ligação entre a sadhana que uma pessoa realiza e os ensinamentos antigos.

Porém, o fundamento e a meta do yoga é o conhecimento do Eu e este conhecimento independe da experiência obtida -- com a realização das técnicas do yoga ou das ações cotidianas, corriqueiras. Logo, as escrituras só podem ser lidas e utilizadas à luz do conhecimento do Eu. Em outras palavras, escrituras só são realmente úteis quando o praticante pelo menos vislumbrou o ponto final da busca, algo que raramente pode ser obtido sem a dedicação formal à disciplina do yoga, de preferência sob orientação de um mestre. Portanto, o que as escrituras trazem é um conhecimento para iniciados, não para leigos. Isto é especialmente válido para os hathayoga shastras, as escrituras do hathayoga. O leitor leigo e sem orientação está sujeito ao risco de interpretar os hathayoga shastras como manuais técnicos e shastras menos práticos (como o Bhagavad Gita e os Yoga Sutras) como «textos filosóficos»; naturalmente, esta interpretação parte do pressuposto de que há no yoga um conhecimento prático de um lado e um conhecimento teórico de outro, o que é apenas um entre tantos erros comuns no yoga.

Por estes e outros motivos, a tradição não é e não pode ser feita apenas de textos. Instrutores, professores, mestres e gurus -- todos são extremamente importantes na perpetuação e na transmissão da tradição do yoga. Mas onde estão os gurus? Onde estão os mestres? O yoga é hoje feito de hordas de professores e instrutores mais fiéis à iconoclastia que tem predominado na cultura do Ocidente desde os anos 60 do que ao reconhecimento do valor de uma tradição genuína. Ultimamente, em redes sociais, não é raro encontrar professores de yoga desdenharem de tradições que eles só conhecem através dos noticiários e criticar valores e hábitos dos quais suas próprias vidas vêm dependendo desde a primeira infância. Se fazem isso até com temas decisivos, decerto sentem-se ainda mais livres para fazer coisas mais graves com tradições que afirmam conhecer e com as quais mantêm um compromisso meramente profissional.

2 comentários:

Flávio Vitor disse...

Gostei muito do artigo! É pura verdade isso.

Christian disse...

Obrigado pelo comentário, Flávio. Seja bem-vindo.