06 maio 2012

Sua prática pessoal de yoga em 10 passos


1) Sua prática pessoal de yoga começa com sua decisão de praticá-lo. A firme disposição para dedicar-se à prática é o que algumas pessoas chamam de abhyasa, a disciplina, a determinação. É isto que o levará da prática ao estudo, porque uma coisa é repetir técnicas do Hatha Yoga, outra coisa é estudar seriamente este sistema e compreender as ligações entre essas técnicas e moksha, a libertação.

2) Logicamente, determinação e disciplina exigem vontade e a vontade está a meio caminho do desejo, que está a meio caminho do apego. É por isto que quando se fala de abhyasa, fala-se também de vairagya, o desapego. A prática de yoga exige a disposição paradoxal de querer -- isto é, de estar firmemente decidido a praticar e estudar o yoga -- sem desejar -- isto é, sem apegar-se aos objetivos estabelecidos e aos frutos eventualmente «conquistados». Para o yoga, «minha conquista» é uma expressão que não faz sentido.

3) Como prática, o yoga não existe. Dizer «eu pratico yoga» é muito parecido com dizer «eu pratico esporte». O yoga não possui materialidade e não existe a não ser como um conceito que só se realiza pela associação com outros termos, que então o tornarão palpável e exeqüível. É a partir deste ponto que surgem os diversos sistemas de yoga. O Hatha Yoga, por exemplo, é o sistema de yoga que usa o corpo e a energia vital como instrumentos para a realização de moksha, a libertação. Outro exemplo é o Advaita Vedanta, que por muitas pessoas é considerado um sistema de Jñana Yoga (jñana significa conhecimento). Portanto, saiba onde você está e em que caminho você se colocou.

4) Todo yoga que usa asana e pranayama é Hatha Yoga ou veio do Hatha Yoga. É claro que existia a prática de asana e pranayama antes que o Hatha Yoga fosse organizado e estabelecido formalmente, mas você só pratica estas coisas hoje se estiver ligado a um professor de Hatha Yoga ou a alguém que criou ou que transmite um método inspirado no Hatha Yoga. E se você não tem certeza do que é Hatha Yoga, é bom ter.

5) Como vimos antes, o impulso inicial é uma combinação de disciplina (abhyasa) e desapego (vairagya), mas sua prática pessoal só começa realmente quando você estabelece o que vai praticar. Você vai fazer algo. O corpo será alongado e fortalecido, a respiração será modificada, você experimentará silêncio interior. Estas coisas todas são diferentes de preparar o almoço, dirigir um carro e conversar com os amigos. Fala-se muito em integrar o yoga à sua vida, mas isto só é possível depois que o praticante praticou e estudou o yoga com regularidade e disciplina e compreendeu o que o yoga é, não antes.

6) Embora você vá fazer algo, seus propósitos definem a qualidade de sua prática e as potencialidades do seu estudo. Por exemplo, uttanasana funciona muito bem para alongar as pernas, mas só poderá ser realmente um asana se for executado conforme um conjunto específico de princípios. Entre esses princípios está aquele que diz que «técnica de yoga» é aquela que conduz o indivíduo a moksha ou que o coloca no caminho de moksha. Em outras palavras, aquilo que não o leva a moksha invariavelmente o afasta de moksha.

Uttanasana

7) Por que é importante saber se você está fazendo uma «técnica de yoga» ou ginástica ou alguma outra coisa? Primeiro, para não ser enganado. Nisargadatta Maharaj, um dos grandes yogins do séc. XX, dizia que «somos escravos daquilo que não conhecemos; daquilo que conhecemos, nos tornamos mestres». Segundo, para não perder tempo. Se você estabeleceu um propósito para sua prática, é natural que você queira realizar esse propósito e que queira direcionar seus esforços para isso, evitando dedicar-se a técnicas ou colocar-se em direções que o afastam desse propósito.

8) Do «yoga para o bumbum» à cantoria que as pessoas insistem em chamar de satsang, tudo realmente é válido, desde que você saiba aonde está indo. Releia o quinto parágrafo: «fala-se muito em integrar o yoga à sua vida, mas isto só é possível depois que o praticante praticou e estudou o yoga com regularidade e disciplina e compreendeu o que é o yoga, não antes». Para quem compreende o que é yoga, nenhuma ação específica é necessária para realizar moksha e, portanto, tudo realmente poderá ser válido; para quem não compreende, nenhuma ação será suficiente para realizar moksha e, portanto, tudo será motivo para dispersão e ignorância.

9) Não existe samyama sem pratyahara. Não existe pratyahara sem pranayama. Não existe pranayama sem mudra e sem asana. Não existem mudra e asana sem a noção do propósito de tudo isso, isto é, sem o vislumbre de moksha. E é do guru que vem o vislumbre de moksha, que é a base para que o indivíduo possa se tornar um yogin. Ainda que para o iniciante este vislumbre seja indefinido e incompleto e moksha não seja muito mais do que um conceito, faz toda a diferença do mundo iniciar-se no yoga percebendo que o ápice está em moksha em vez de iniciar-se sendo ensinado que o sentido do yoga está em pendurar-se em cordas ou equilibrar-se em tijolos.

10) A essência do yoga está em lembrar-se de quem você é. Você é aquilo que sempre foi e que não mudou desde seu nascimento. Por sua própria natureza, a memória comum nos mostra somente aquilo que pode ser registrado em imagens, idéias e emoções -- coisas que sempre mudam. Uma prática consistente do yoga pode mostrar-lhe o que é uttanasana como asana de fato ou como simples alongamento e pode mostrar-lhe também de que forma uma técnica simples pode fazê-lo lembrar de quem você é. A prática se resolve quando as técnicas são colocadas na perspectiva dessa lembrança, na perspectiva de moksha.

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Talvez o leitor tenha chegado a este texto esperando encontrar 10 passos práticos para sua prática pessoal e acabou ficando um pouco desapontado por não encontrar dicas sensacionais sobre como realizar aquele asana dificílimo ou sobre como prender a respiração por mais tempo. Sobre isso, devo dizer o seguinte:

1) Os dez itens explicados neste artigo são práticos. No yoga não há diferença entre teoria e prática.
2) Compreender estes dez itens e integrá-los à sua rotina de técnicas é o que difere um yogin de um fazedor de posturas.

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