19 outubro 2012

Jogo dos sete(centos) erros


Na internet, o céu é o limite.

Recentemente, via Pergunte ao Yogi, li um texto genial pra burro. Vejam:
A palavra Ioga vem do sânscrito e quer dizer “unir”, “controlar”, “adequar”, “preparar”, “trabalho”, “aplicação” ou “junjir”, ou seja, ele é uma técnica com a qual o homem, através da meditação, consegue controlar a sua mente e o seu corpo, unindo-o ao universo. Originário da Índia, o Ioga associa as práticas meditativas do budismo e do hinduísmo.
Há várias linhas do Ioga no mundo, mas elas não são divergentes, só usam caminhos diferentes para alcançar o mesmo objetivo: a união com o universo. As escolas mais antigas usam métodos mais técnicos enquanto as mais novas preferem o espiritualismo.
As linhas iogues mais conhecidas são: Bhakti Yoga, Iyengar Yoga, Ashtanga Vinyasa Yoga, Hatha Yoga, Karma Yoga, Kriya Yoga, Raja Yoga, Vidya Yoga, Siddha Yoga, Kundalini Yoga e Tantra Yoga.  

Fazia tempo que eu não via tantos erros reunidos em apenas três parágrafos. Este texto merece uma análise e as devidas correções. Afinal, não são poucas as pessoas que se deixam guiar por textos como esse. Vamos lá:


1) A palavra Ioga vem do sânscrito e quer dizer “unir”, “controlar”, “adequar”, “preparar”, “trabalho”, “aplicação” ou “junjir”.

Yoga vem de «yuj», que significa fundir, unir. Mas, claro, não se trata de qualquer fusão, de qualquer união. Trata-se de obter um estado de unidade das forças ou energias opostas.

A afirmação genérica «yoga é união» tem sido usada como argumento para unir o yoga com qualquer coisa -- qualquer coisa mesmo. Desnecessário dizer que se trata de uma atitude burrinha e arriscada.

2) ele [o yoga] é uma técnica com a qual o homem, através da meditação, consegue controlar a sua mente e o seu corpo, unindo-o ao universo.

A idéia de união com o universo está correta, mas a de controlar a mente e o corpo, não, principalmente se supusermos que a meditação é que levará a algum tipo de «controle».

Comecemos pelo fato de que meditação é um termo muito ruim e porcamente utilizado. A meditação tal como as pessoas a compreendem hoje em dia pode ser sinônimo de samyama ou de qualquer um dos três estágios de samyama (dharana, dhyana, samadhi). Pode ser também sinônimo de relaxamento consciente e de uma infinidade de métodos de «terapia oriental», que vão desde o zazen até a «meditação do cigarro», do Osho.

Em seguida, há o fato de que o «controle mental» não é um objetivo, mas um dos inúmeros efeitos da prática da meditação. O mesmo vale para o «controle corporal»: o que se pretende obter através da meditação obviamente transcende o corpo.

3) Originário da Índia, o Ioga associa as práticas meditativas do budismo e do hinduísmo.

De todos os trechos, este foi o mais biruta de todos.

Primeiro: budismo no yoga? Como isto seria possível, se a tradição do yoga precede o budismo e se estas duas tradições seguem caminhos distintos em vários pontos? Experimente perguntar a um lama se ele crê que o yoga é filho do budismo em algum de seus aspectos.

Segundo: esqueça «hinduísmo». O ocidente inventou o hinduísmo para facilitar a compreensão do caldeirão de tendências e orientações espirituais da Índia. Tente, por exemplo, encontrar um eixo comum entre Tantra e Vedanta; o único eixo que você encontrará é abstrato, não factual, o que demonstra que a unidade das diversas tendências espirituais indianas só existe em nível conceitual.

4) Há várias linhas do Ioga no mundo, mas elas não são divergentes, só usam caminhos diferentes para alcançar o mesmo objetivo.

Nem tudo que recebe o nome de yoga merece este nome. Se tomarmos Patañjali como ponto de partida, fica fácil compreender isso. Patañjali define o yoga como «a manifestação do Eu Real», conseqüência da «cessação das oscilações da mente» -- uma óbvia referência à prática de samadhi. Nem tudo que recebe o nome de yoga hoje em dia -- sobretudo os sistemas modernos -- dedica-se ao estudo e à prática de samadhi. Aliás, há vários sistemas que se dizem «yoga» nos quais o samadhi sequer é mencionado.

Além disso, é evidente que caminhos diferentes, mesmo que levem ao mesmo destino, resultam em estados e percepções diferentes. A metáfora do «caminho espiritual» como um caminho que se percorre fisicamente é apenas uma metáfora.

5) As escolas mais antigas usam métodos mais técnicos enquanto as mais novas preferem o espiritualismo.

Nonsense puro. O que são «métodos mais técnicos»? E o que significa preferir o espiritualismo? Quais são as escolas mais antigas e quais são as mais novas? Nada disso faz sentido algum.

Essa frase é uma triste amostra de como a tradição tem sido lida à luz dos conceitos modernos, numa inversão doentia da ordem real dos acontecimentos e dos conhecimentos. Entre estes conceitos há aquele que estabelece pares de elementos opostos: teoria versus prática, espiritualidade versus materialidade, transcendência versus imanência etc., como se um dos principais obstáculos do yoga não fosse justamente o pensamento dualista.

E eu nem mencionei a maluquice que é «preferir o espiritualismo» e as confusões decorrentes do uso descuidado deste termo...

6) As linhas iogues mais conhecidas são: Bhakti Yoga, Iyengar Yoga, Ashtanga Vinyasa Yoga, Hatha Yoga, Karma Yoga, Kriya Yoga, Raja Yoga, Vidya Yoga, Siddha Yoga, Kundalini Yoga e Tantra Yoga.

Aqui a coisa toda ficou ainda pior. Realmente não dá para colocar esses sistemas todos na mesma lista sem observá-los um por um e saber exatamente

a) o que eles propõem,

b) o que fazem e

c) a que resultados chegam.

Sem isso, é impossível entender os sistemas antigos e os modernos. E antes disso, claro, é necessário saber se realmente se trata de um sistema de yoga ou de um outro uso do termo «yoga».

Todos os sistemas que usam técnicas corporais e energéticas tais como asana e pranayama são em algum grau derivações do Hathayoga. Por serem derivações, nem sempre mantiveram o propósito original do Hathayoga -- expresso antes mesmo de sua criação, nos Yoga Sutras -- e reafirmado pelos nathas, que criaram o Hathayoga. É o caso do Iyengar Yoga (sistema de fisioterapia), do Ashtanga Vinyasa Yoga (sistema de ginástica), do Vidya Yoga e do Kundalini Yoga. Os dois primeiros, na melhor das hipóteses, são aquilo que os hathayogis chamariam de sukshma vyayama, um sistema de ginástica sutil, cujo propósito é preparar o corpo para a prática dos asanas.

Raja Yoga é uma das expressões mais mal compreendidas do universo do yoga. Raja Yoga não é um sistema ou linha. Ela aparece com freqüência nas escrituras do Hathayoga; trata-se do «estado de yoga», que é sinônimo de moksha. Se traduzirmos a expressão encontramos «yoga real» (real no sentido de «royal», relativo a rei). O problema é que, na passagem do séc. XIX para o séc. XX, graças à aversão que alguns professores tinham pelos métodos ascéticos (mormente ligados ao Hathayoga e erroneamente associados ao faquirismo), tentou-se deduzir do texto de Patañjali um sistema disciplinar. A este sistema deu-se o nome de Raja Yoga. Só que:

a) Raja Yoga continuou sendo sinônimo de samadhi, já que os textos sagrados não foram apagadas e o sentido com que Raja Yoga aparece neles não se alterou;

b) mesmo com os oito passos mencionados por Patañjali, de seu texto não é possível deduzir um sistema prático sem recorrer a uma grande dose de liberdade de interpretação e de criação.

Karma Yoga não é exatamente uma linha ou sistema, mas uma forma de abordar o yoga, que dá ênfase às ações. A ênfase na devoção -- ao guru, a um deus etc. -- é parte da essência do Bhakti Yoga. Jñana Yoga é comumente associado ao estudo filosófico e ao discernimento. Porém, as coisas não são assim tão simples e diretas. Como Karma Yoga refere-se a ações de um modo geral, a ele se associam ações tão diferentes como a prática do Hathayoga e a realização de serviços sociais.

O mais importante é notar que estes «três yogas» -- Karma, Bhakti, Jñana -- não são linhas, mas aspectos do yoga. Não é à toa que estes três termos aparecem reunidos numa obra freqüentemente associada ao Bhakti Yoga, o Bhagavad Gita; afinal, toda e qualquer pessoa dispõe dos atributos necessários para realizar ações, para empreender o estudo filosófico e para exercitar sua devoção.

Mais do que isso: não há o menor sentido em imaginar que uma pessoa realizará um desses três aspectos mediante a desativação de funções e capacidades que lhe permitem realizar os outros dois. Em outras palavras, ninguém possui somente a capacidade de agir, somente a capacidade de realizar práticas devocionais ou somente a capacidade de pensar -- todos temos estas três funções e várias outras simultaneamente.

3 comentários:

Quil disse...

Ai… que tristeza a necessidade destes esclarecimentos!! (“setecentos”… “genial pra burro"!! rsrsrs… )

Christian Rocha disse...

O que mais me cansa é quando vem gente aqui que quer contestar com argumentos do tipo «mas o acroyoga não é só para o corpo» e que acaba, sem perceber, constituindo ela própria um exemplo vivo de que as idéias contidas no texto estão corretas.

Quil disse...

rsrsrs… algumas pessoas perdem a rica oportunidade de ficarem quietas e deixarem apenas a dúvida sobre sua inteligência!!