24 novembro 2012

O paradoxo do bem-estar

Virabhadrasana num resort caribenho, para ficar forte e saudável.
Não tem como não se iluminar, não é mesmo?

Sim, yoga faz muito bem. Você realiza kriyas e nota que algumas doenças crônicas desapareceram. Você pratica asanas e sente o corpo mais forte e flexível a cada dia. Você faz pranayama e sente que a respiração está mais profunda e ao mesmo tempo mais leve, a disposição aumentou, as emoções estão estáveis. Cada vez que você medita, você percebe que o medo e a insegurança se dissolveram e que não é necessário manter uma relação bruta com o mundo ao redor.

Mas você continua repetindo um certo ritual duas ou três vezes por semana, numa seqüência muito semelhante à indicada acima, porque é a maneira através da qual você obtém todos esses benefícios. Pelo menos é nisto que você crê e é esta crença que o mantém firme no yoga.

Se a descrição contida nestes dois parágrafos condiz em alguma medida com a sua atitude no yoga, devo informar que você está se enganando.

Isto não é necessariamente ruim. Isto é apenas uma fase pela qual a maioria das pessoas precisa passar. Patañjali já recomendava esse processo quando falava da substituição de maus pensamentos por bons pensamentos. Porém, mais adiante o mestre indiano fala da importância de transcender os pensamentos -- maus ou bons -- e estabelece aí o sentido do yoga.

A prática diligente do yoga, seu ritual semanal e o bem-estar que ele proporciona -- é claro que estas coisas são boas, mas coloquemos cada coisa no seu devido lugar.

Mais uma vez Nisargadatta Maharaj (negrito para não deixar margem de dúvida sobre a importância desta frase):
Não fale em ajudar os demais, a menos que você possa colocá-los além de toda necessidade de ajuda.
Se lermos a frase acima à luz das práticas modernas de yoga, sejam elas domésticas ou realizadas numa escola, perceberemos uma coisa um pouco assustadora: o sentido das práticas modernas não está em libertar as pessoas de uma certa rotina de atividades, mas precisamente em prendê-las na repetição eterna de um conjunto de técnicas e na perspectiva da obtenção de bem-estar atrelada a essa repetição.

Para que isto fique mais claro, lembremos das senhorinhas de mais 80 anos realizando posturas de yoga com desenvoltura juvenil: link1, link2 e link3.


Esta e as outras imagens são surpreendentes: senhoras provectas fazendo com o corpo coisas que normalmente uma senhora provecta não faria. Todos dirão que essas imagens provam que o yoga funciona. Não, isto é prova de que o yoga funciona para permitir que uma pessoa realize técnicas de yoga mesmo em idade avançada. Podemos ir além: senhoras muito idosas realizando técnicas de yoga são a prova de que a prática constante do yoga é necessária para continuar realizando técnicas de yoga até idade avançada. Tautologia pura: qualquer pessoa só consegue fazer até o fim da vida aquilo que ela se dispõe a fazer até o fim da vida.

Afinal, que há de especial em senhoras com mais de 80 anos se equilibrando sobre as mãos? A facilidade para usar o corpo no yoga certamente se manifesta também no dia-a-dia e essas senhoras provavelmente têm uma condição física melhor do que a de pessoas 20 ou 30 anos mais novas do que elas. Você vê uma senhora dessas fazendo mayurasana e pode imaginar que ela não tem problemas para bater um bolo para os netos sem auxílio de eletrodomésticos, para ir às compras, para ter uma boa digestão e uma boa noite de sono. Mas note como estas conjecturas, embora sejam simpáticas e até certo ponto corretas, estão distantes do yoga.

Eis o paradoxo do bem-estar: você realiza técnicas de yoga e se sente muito bem com isso, sente que a saúde e a disposição aumentaram, sente que tudo está ficando melhor. Então você se sentirá impelido a realizar constantemente as técnicas que proporcionaram esse bem-estar. Mas você entendeu verdadeiramente de onde vem isso tudo? Entendeu como as técnicas o ajudam? Entendeu por que as técnicas são necessárias e em que medida elas são necessárias? Se você não entendeu nada disso, então você apenas decorou sua prisão com cortinas bordadas, paredes pintadas em tons pastel e trilha sonora da Enya. 

Voltemos à frase de Nisargadatta:
Não fale em ajudar os demais, a menos que você possa colocá-los além de toda necessidade de ajuda.
Todo o sentido do yoga está na transcendência, representada na frase acima pela expressão «colocar além». 

Eu tive a sorte de ter recebido minha formação de um excelente professor -- na realidade, o único verdadeiro mestre de yoga que conheci. Ele me ensinou as técnicas de yoga, mas também me ensinou o lugar dessas técnicas dentro do yoga. Ele as ensinou não para que fossem repetidas ad nauseam, mas para que efetivamente me permitissem realizar aquilo que Patañjali descreve nos Yoga Sutras, que é ensinado nas escrituras e na tradição dos nathas (os criadores do Hathayoga) e que tem sido ensinado por tantos outros mestres genuínos ao longo dos séculos.

E o que Patañjali descreve em sua obra? Não há qualquer menção ao bem-estar. É claro que há referências a estados de realização superior, algo que tem sido modernamente descrito como uma felicidade suprema e/ou um estado de bem-estar inimaginável. Mas isto não explica nada, trata-se de ler uma tradição milenar com o vocabulário moderno em vez de tentar entender o que realmente tem sido transmitido por essa tradição milenar, independentemente de vícios modernos de interpretação. Esta forma moderna de olhar o antigo é uma forma de preguiça: é muito mais fácil dar opiniões conforme nossos próprios achaques -- achaques de pessoas ocidentais e urbanas do séc. XXI -- do que buscar saber o que o yoga realmente tem sido ao longo dos últimos 15 ou 20 séculos.

É claro que o bem-estar é bom. É claro também que os benefícios proporcionados pelas técnicas de yoga são importantes inclusive no processo do yoga. Porém, o sentido do yoga não está em afirmar o que quer que seja, mas em negar aquilo que não é a essência do indivíduo, em permitir que ele veja através daquilo que eventualmente é afirmado. Como diz Nisargadatta, o sentido do yoga está em ir além do plano das necessidades. O yoga não oferece troféus e medalhas. O yoga permite que o indivíduo se estabeleça num plano de existência que transcende o plano dos troféus e das medalhas, dos desejos e das conquistas, do bem-estar e da doença. Se não há essa noção de transcendência, não há yoga. E se não há yoga, o que há é a repetição daquele tipo de satisfação que faz o indivíduo suspirar em alívio quando consegue obter aquilo que tanto buscava ou livrar-se daquilo que tanto o repugnava -- até que surja outro objeto de desejo ou de aversão.

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