15 fevereiro 2013

Yoga para pessoas sensíveis demais

por Christian Rocha

Ser agradável ou dizer a verdade? Pois no yoga brasileiro não é possível juntar as duas coisas. Diga a verdade e logo aparecem os aldeões com tochas na mão. (Yogi Satyavan)

Diálogo em samsara (a.k.a. rede social), eu e uma professora:

Ela: «Cada um deve praticar o yoga que acredita.» [sic]

Eu, citando Ramana Maharshi: «Quando a realização de Si emerge, não meramente uma compreensão intelectual, mas uma verdadeira realização, as crenças desaparecem.»

Em resposta, ela pergunta: «E o que você sugere que se faça até lá?» [até a realização]

Uma terceira pessoa comenta: «Por que você fica impondo a sua opinião? Você está sendo muito arrogante.»

Depois disso seguiu-se mais meia dúzia de incompreensões, públicas e privadas. E fui expulso do debate antes que pudesse esclarecer o sentido da citação. Na saída, empurraram-me os rótulos que me haviam sido aplicados antes.

Tomei a liberdade de concluir que essas pessoas têm alergia ao conhecimento. Claro que o exemplo supracitado não foi único. Leva tempo e é necessário ter prática e disciplina para construir um corpus capaz de enojar-se diante do conhecimento.

Noutra ocasião, o seguinte diálogo entre essa professora e um rapaz que fez uma pergunta meio burrinha:

Ele: «O que vocês acham da inclusão da meditação nas práticas de yoga?»

Ela: «A meditação nunca deve estar de fora. No entanto, ela é uma conquista individual. Muitas vezes o aluno consegue apenas ficar quietinho na aula, ouve as instruções e se empenha, mas não a conquista.»

(Há tantos erros nesta resposta que será necessário um outro artigo para esclarecer ponto por ponto. Por hora basta dizer que yoga é meditação.)

Essas pessoas ensinam.

Quando são corrigidas afetam-se como se alguém tivesse furado a fila do açougue. Não se lembram do que foi dito, sequer são capazes de entrever a genealogia das mensagens, mas sabem muito bem o tom que foi utilizado. Para essas pessoas o tom é tudo. O conteúdo não tem nenhuma importância. O tom é tudo. E é por isso que dão mais valor a malabarismos no topo da montanha do que ao estudo do yoga. Malabarismos no topo da montanha são a cantoria hedonista da cigarra da fábula. Estudar o yoga seriamente é a sina da formiga. Em suma, pessoas sérias têm mesmo é que amargar desertos, pelo simples fato de serem sérias.

***

O único professor de yoga que tive sempre se mostrou um sujeito avesso às regras sociais. «Polidez? Pra quê?» Em seguida me passava um sermão sobre svecchachara.

Eu não quero que você saia googlando por aí (esteja à vontade, no entanto), por isso vou reproduzir aqui a explicação contida no wiki da International Nath Order, com minha tradução macarrônica:
Sveccha significa vontade própria ou vontade livre. Svecchachara significa um modo de vida em que o indivíduo age conforme seus desejos e faz o que é certo conforme sua própria visão -- fazer conforme a própria vontade. A expressão conclusiva no sânscrito, presente no Avadhuta Upanishad, é «Svecchachara Paro». O termo «Paro» alude ao padrão secreto ou misterioso presente na ação livre, realizada conforme a vontade do indivíduo. Em outras palavras, fazemos conforme nossa vontade, mas com discrição, sem tornar a ação óbvia demais e sem causar danos a outras pessoas. Trata-se de um conceito típico do Nathismo, uma visão totalmente distinta da moral e da filosofia vedica.
Além disso, meu professor possui uma habilidade incomum de explicar yamas e niyamas com atitudes -- basta lembrar que um facepalm geralmente é mais educativo do que uma explicação extensa que um recém-pós-leigo que parou de usar fraldas ontem dificilmente entenderia. Mestres são mencionados em parábolas zen-budistas usando recursos menos gentis, como tabefes e pauladas.

Não faz sentido ser bonzinho (conforme se diz por aí, isso é ahimsa) se isso não está de pleno acordo com sua personalidade (satya). Você diz uma coisa publicamente, mas sente outra intimamente e acaba fazendo uma terceira coisa sem qualquer coerência com as duas anteriores -- essa trindade revela o tamanho do problema em que a maioria das pessoas está presa. Já abordei isto neste artigo, em que falei de um professor que me chamou de querido, disse que não havia certo e errado e que tudo estava fluindo da melhor forma, mas que não hesitou ao apagar comentários que postei em seu blog e deu o caso por encerrado.

Em outras palavras, yamas e niyamas -- como tudo no yoga, aliás -- apontam numa única direção. Se ao realizar um yama lançamos acidentalmente todos os demais no esgoto, é fácil perceber que estamos numa espécie de teatrinho moral, não no plano do estudo e da prática séria do yoga (problemas com postulações? preencha o memorando).

Meu professor, ao contrário de todos os outros professores que conheci, realiza yamas e niyamas sem qualquer esforço. Como isso é possível? É extremamente simples: samadhi abrange todos os angas. Aponte para ahimsa e você se tornará vegetariano. Aponte para samadhi e você se tornará um yogin que realiza plenamente ahimsa, satya e todos yamas e niyamas -- sem perder tempo (leia-se «sem gerar samskara») com discussões fuleiras a respeito do que se deve ou não se deve fazer, do que se deve ou não se deve comer. Quando você pára de pensar no que deve ou não deve fazer, você começa a realiza yoga.

Na verdade, svecchachara não é apenas fazer conforme sua própria vontade -- é também fazer com naturalidade e espontaneidade, sem dar espaço para a mente gritar.

***

Algumas pessoas sentem-se muito ofendidas quando uso a expressão «prática séria do yoga». É por coisas assim que me consideram arrogante. Na verdade é um fato curioso ser chamado de arrogante por pessoas que crêem que o principal objetivo do yoga é ser «divertido» e que ficam cobertas de brotoejas quando são lembradas que, sim, há um lado sério no yoga.

É claro que eu me divirto praticando yoga -- digo isso no sentido de que não há nenhum traço de masoquismo nessa ação. Mas, veja bem:
  • eu pratico yoga porque preciso (responsabilidade individual)
  • eu pratico yoga para sair da roda do sofrimento (responsabilidade individual)
  • eu pratico yoga porque o ensino a outras pessoas (responsabilidade social)
  • eu pratico yoga porque prezo a tradição e porque assumi a responsabilidade de perpetuá-la (responsabilidade individual, social e para com algo maior e mais antigo do que eu)
  •  eu pratico yoga para experimentar a transcendência (responsabilidade para com algo infinitamente maior do que eu)
As razões que indiquei nada têm a ver com diversão, com reuniões sociais, com encontros aos finais de semana, com passeios e com práticas esportivas. Nos parênteses, onde se lê responsabilidade pode-se ler também respeito, dá no mesmo. Responsabilidade, como o leitor pode facilmente perceber, está relacionado a responder. Assumir uma responsabilidade nada mais é do que entregar corpo e alma a uma ação cuja realização havia sido assegurada antes com palavras ou com gestos -- isto é, trata-se de comprometer-se a dar uma resposta. Portanto, quando falo que pratico e estudo o yoga seriamente, estou querendo dizer que tenho uma atitude mortalmente séria em relação ao yoga e que assumi uma série de responsabilidades.

Quando uma pessoa tenta me convencer de que fazer posturas de yoga no alto de uma montanha ou depois de pedalar ou pendurado em cordas ou equilibrado numa prancha é algo divertido e que isso é que determina a qualidade da prática, eu só posso pensar que a última coisa que essa pessoa quer é assumir responsabilidades (retornaríamos aqui ao meu artigo anterior). Respeitar e perpetuar uma tradição, abraçá-la e encarná-la, transmiti-la a quem supostamente se dispôs a conhecê-la -- todas estas coisas são assumir responsabilidades. Afinal, qual é a responsabilidade de um professor de yoga?

Novamente, não se trata de transformar o yoga numa rotina de dor e sofrimento -- trata-se apenas de deixar de lado essa atitude frouxa de encarar o yoga como algo relacionado a satisfatório/gostoso/agradável versus insatisfatório/incômodo/desagradável porque, quando isso ocorre, o indivíduo sempre escolhe o primeiro trio e participa das aulas para se sentir bem, vai a retiros para se sentir bem, ajuda os pobres para se sentir bem, envolve-se em cursos de formação para se sentir bem, é gentil-atencioso-educado para se sentir bem, faz posturas de yoga para se sentir bem e estas coisas, em essência, não são diferentes de chupar um sorvete num dia de calor. Trata-se, afinal, de estabelecer desde o início a prática do yoga naquele plano de realidade em que os adjetivos não podem causar problema. Como na lição de Ramana Maharshi, crenças (e, portanto, os adjetivos) são obstáculos.

***

Talvez o leitor ainda tenha dúvidas sobre a relação disso tudo com yoga. Falamos em excesso e o tempo todo de muitas coisas deste mundo. E o yoga é transcendência. Mas a relação está dada pelo fato de que a realização da transcendência implica necessariamente o reconhecimento da imanência. Em outras palavras, ninguém sai do buraco se não vê que está nele. Mas, para deixar as coisas mais claras, a relação entre o yoga e o que foi dito até aqui é a seguinte:

1) Quem se ofende com qualquer coisa está por definição afundado até o pescoço naquele veneno chamado «eu». Querer praticar o yoga nessas condições (há quem o ensine nessas condições) é o mesmo que querer viajar de uma cidade para outra usando um buraco no asfalto como veículo.

2) Quem não suporta ser corrigido está por definição menos interessado em yoga do que em manter tudo nauseabundantemente inalterado. Se fosse alguém ligado a uma tradição que há séculos vem produzindo mestres iluminados e devotados, eu entenderia; mas trata-se de gente que acha mesmo que um deus azul desceu à Terra e ensinou oito milhões e quatrocentos mil asanas, que prega o vegetarianismo radical (leia-se militante) e que «celebra a vida, o amor e a amizade» em aulas de ginástica.

3) Algumas pessoas até admitem que querem ser corrigidas, mas alertam que isso deve ser feito de forma agradável, servil, simpática, cuidadosa, educada, delicada, cavalheiresca e muito, muito, mas muito discreta, de preferência causando a impressão de que elas é que estão esclarecendo as coisas -- talvez queiram ainda que o sabe-tudo se higienize antes de corrigi-las, que faça gargarejo com tintura de aroeira e deixe escorrer algumas lágrimas de remorso por estar em vias de iniciar o ritual pestilento de apontar as falhas alheias. É evidente que essas pessoas desprezam o yoga -- e, aliás, também desprezam o tempo valioso que nos foi dado.

É claro que discursos extensos são o contrário da prática de silêncio, conforme meu professor sempre insistia. E é com base nisso que algumas pessoas a quem eu expunha estas idéias respondiam -- quase sempre de forma amarga, mas fingindo doçura e bom humor: «você precisa praticar mais». Mas a apologia e a sugestão da prática, da experiência e do empirismo partem do pressuposto de que eu não estou fazendo essas coisas -- o que não passa de uma presunção muito chulé, inclusive porque quem diz tais coisas sequer chegou a me perguntar sobre minha prática. Nestas condições, a resposta mais educada que me ocorre é «você não me conhece», o que lamentavelmente jamais é compreendido como a descrição de um fato (e realmente é um fato), mas como uma ameaça. E então há beicinhos, queixas a respeito do tom (porque o tom é tudo) e eis que a paisagem se torna um deserto.

***

Bônus:

1) «Quando sentir-se ofendido dá poder às pessoas, elas ficam ofendidas mais facilmente.»
-- John Stossel.

2)

.

link da imagem

Nenhum comentário: