10 março 2013

Por que abomino «cursos de formação»

por Christian Rocha


Hoje são raras as escolas que não dispõem de um curso de formação de professores. Da forma como os cursos de formação têm sido oferecidos aos alunos, é mais ou menos como se você fosse a uma clínica médica para tratar de uma inflamação na garganta e junto com o tratamento o médico lhe recomendasse matricular-se num curso de medicina.

É claro que isso é um problema por vários motivos:

1) O objetivo do yoga não é formar professores, mas formar yogins e yoginis. Isto é uma condição existencial; aquilo, uma condição profissional e social. Se você não compreende essa diferença, preocupe-se -- de preferência antes de assinar o contrato para iniciar um curso de formação.

2)  Quando você coloca a condição social e profissional antes e acima da condição existencial, é claro que esta sairá prejudicada. E é basicamente por isso que hoje é tão raro um professor que ensine samadhi. Em compensação, há uma infinidade de bons técnicos de posturas corporais, há até bons técnicos de respiração, de relaxamento e de autoajuda. Some isso tudo: não dá meio yogin. (por favor, não reclame e não me xingue, pense no que é ser um yogin) 

3) Um dos pressupostos da avalanche de cursos de formação é a idéia de que qualquer pessoa pode ensinar yoga, bastando, para isso, cumprir as horas e as atividades do curso de formação. É uma afirmação tautológica: o requisito para tornar-se professor de yoga é estar disposto a participar de um curso que forma professores de yoga. Assim fica difícil levar estas coisas a sério.

4) Os programas desses cursos de formação de professores não deixam dúvidas quanto aos seus objetivos: formar técnicos de conscientização corporal. Hoje todos os cursos de formação de professores baseiam-se na idéia de que postura corporal é o mesmo que yoga (e vice-versa). Então, você tem cursos organizados por pessoas até bem intencionadas, mas cujos programas vão pouco além da orientação técnica a respeito dos aspectos anatômicos, fisiológicos e terapêuticos dessas posturas e de como transmitir esse conhecimento para outras pessoas. Só.

5) O resultado da profusão descriteriosa de cursos de formação de professores é o mesmo observado em outras áreas: o aumento da quantidade de profissionais em uma determinada área nem de longe assegura a boa qualidade dos serviços nessa área; geralmente é o contrário que ocorre. Por exemplo, os cursos de tecnologia do MIT são os melhores do mundo; não adianta querer criar uma infinidade de cursos de tecnologia e somá-los para superar a qualidade do MIT. A nuvem de fumaça criada por cursos medíocres ou ruins atrapalha a visibilidade que um curso de altíssimo nível teria em condições normais. Mas é claro que esta comparação só faz sentido se todos os cursos estiverem ensinando a mesma disciplina. No caso do yoga, é evidente que os cursos de formação existentes não ensinam yoga. No máximo prepararam o indivíduo para, mais tarde, aprender yoga. Se não há samadhi, se os conteúdos não ensinados todos à luz do samadhi, não estamos sequer falando de yoga.

***

Peço que os leitores que me compreendem -- a maioria, felizmente -- tenham um pouco de paciência com os parágrafos seguintes. O problema é que quem não me compreende tende a assumir que sou arrogante e presunçoso ao dizer coisas como as que eu disse acima, e encerram a leitura sem se permitir uma reflexão mais minuciosa. É evidente que ninguém se beneficia com isso -- nem eu, nem meus leitores, nem meus eventuais críticos. E é por isso que algumas explicações são necessárias:

Por que isto é importante? 

Bem, se você sabe o que é um curso de formação de professores de yoga, você não se matricula nele por causa da publicidade, da qualidade do material de divulgação ou por causa da famosidade do professor que o organiza. Você se matricula nele porque irá aprender yoga e porque irá aprender como ensinar yoga. Se você não sabe o que é um curso de formação de professores de yoga, bem... por que raios você iria querer tornar-se professor de yoga?

Por que tenho razão?

Se você duvida do que digo aqui -- é claro que você tem esse direito e tem o direito de expressar isso, expondo suas razões --, recomendo o seguinte:
  • Verifique os programas dos cursos de formação de professores de yoga disponíveis atualmente. Observe se há menções a yogaterapia, alinhamento postural, técnicas de relaxamento e vinyasa.
  • Verifique os perfis dos organizadores desses cursos e procure saber quanto tempo essas pessoas passaram ensinando algum método moderno.
  • Verifique o que as escrituras e as principais tradições de yoga definem como yoga e como yogin/yogini. Note o que há nessas escrituras sobre yogaterapia, alinhamento postural, técnicas de relaxamento e vinyasa.
  • Fica mais fácil realizar o item anterior se você puder conversar com um guru. Se você não tem acesso a um guru, pergunte-se por que.
  • Aliás, verifique o que as escrituras e as principais tradições de yoga definem como guru e compare com os professores de yoga de hoje em dia. Se houver dificuldades para saber o que é um guru de yoga, leia as transcrições dos satsangs de Ramana Maharshi e de Nisargadatta Maharaj. Se você tiver dificuldades para saber o que é um professor de yoga hoje em dia, seja grato por isso.
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8 comentários:

Lucas Spada disse...

Outra colocação.....se as escolas oferecem cursos de formação para ensinar yoga e formar um yogin e este curso seja um pré-requisito para que a pessoa possa ensinar nesta escola ou através do respectivo "método de yoga", isto quer dizer que as aulas regulares dessas escolas não são suficientes para tornar uma pessoa um yogin, ou seja, estão ensinando yoga para seus alunos regulares, no mínimo, de forma incompleta, o que torna necessário um "complemento" através de um curso de formação. O correto ou pelo menos mais sensato na minha opinião seria que após um período contínuo de desenvolvimento e em contato com o mestre e/ou professor, este desse um aval para o aluno para que ele possa ensinar, pelo fato de entender que está no caminho correto e que já possui algo de valor a oferecer.

YOGA DO BEM disse...

concordo Lucas!!! O problema hoje é o imediatismo também. As pessoas sentem sede de serem algo, e os cursos de formaçao de professores e nao de yogis ou yoginis se encaixa muito bem nesse quadro. Acredito que um curso desse tipo, deveria mais ser dito como aprofundamento e nao formaçao de professores. Eu mesma fiz 3 cursos d formaçao de professores de yoga, e até hoje nao me sinto confortável em dizer que sou PROFESSORA, nao sou professora, apenas passo oq aprendi absorvi, com sinceridade e humildade. Nao existe pedestal a subir. Acho que temos que pensar nisso. Acredito que ser yogi ou yogini leva uma vida, duas, tres, quatro, enfim, o tempo que for necessario para nos desenvolvermos como seres humanos, e o tempo que for necessario para compreendermos que somos divinamente LUZ. Para mim YOGA é encontro com Deus, ou oq quer voce se chame, é reeencontro com a fé e realinhamento de posturas na VIDA, da vida....

Christian Rocha disse...

É basicamente o que ocorre nas artes marciais tradicionais, onde não há um «curso de formação de instrutores». O que há nessas disciplinas é uma formação contínua, onde não há diferenças importantes entre «praticar a arte», «viver a arte» e «transmitir a arte» -- justamente porque não há diferença entre o indivíduo que pratica e o indivíduo que leciona. Certamente isto está ligado à importância que se dá ao ensino tradicional -- o que em muitos países do Oriente significa transmitir pelo exemplo, em vez de sistematizar algo à parte, com a finalidade exclusiva de ensinar um determinado conteúdo.

Só que com a desvalorização das tradições (decorrente da modernização em vários setores da cultura e da sociedade), criou-se o abismo entre teoria e prática, entre saber e fazer. E isto, claro, foi o começo do fim.

Christian Rocha disse...

Na verdade, um caminho que considero ideal seria abandonar o termo «yoga» na apresentação desses cursos, já que não faz sentido pensar em «aprofundamento» e muito menos em «formação» quando tratamos do estudo sério do yoga. O que faz sentido é praticar o samadhi e tudo que se faz no yoga deveria ter isto como norte. Se há pretensões para com o magistério, que isso seja condicionado à presença e à avaliação de um guru -- e ele sempre será infinitamente maior do que qualquer programa de curso, do que qualquer certificado baseado na obtenção de índices numéricos.

Só que o problema é que até mesmo os gurus têm-se dobrado ante as invenções da modernidade -- ao ponto de vermos «aulas tradicionais» que chamam pranayama de «técnica respiratória» e gurus bem vestidos que admitem o uso de props.

Adriana Gomes disse...

Christian Rocha, sou praticante de yoga fazem uns 5 anos e estou gostando muito do que tenho lido aqui a respeito do assunto, bem pertinente. Na verdade, acabo ficando com mais dúvidas e, assim com interesse em procurar entender com mais clareza o assunto. Agradeço, desde já por algumas aqui abrandadas! Abraço.

Christian Rocha disse...

Eu que agradeço, Adriana. Seja bem-vinda.

nenê disse...

Christian, perfeito seu texto. Há tempos, tenho me entristecido com a indústria em que se transformou o yoga. É como você disse, não se fala mais em samadhi e o yoga tornou-se utilitário: serve para curar de dor nas costas a depressão. Para mim, Pattabi Jois e Iyengar foram os precursores dessa tendência, com seus métodos criaram uma verdadeira fábrica de yoga teachers com certificação internacional. O kit-professor é sempre parecido: uma viagem à Índia, 200h de curso e uma estátua de Nataraja. Péssimo isso. É por isso que vira e mexe surge no Brasil a discussão se para ser professor de yoga deveria ou não ser exigida a firmação em educação física.

Christian Rocha disse...

Obrigado, nenê. Volte sempre.