17 maio 2013

7 coisas que seu professor de yoga nunca vai lhe dizer


 1) Yoga não é tudo

Se sua vida de yoga tem sido um permanente crescendo, você não deve ter percebido que, sim, existe vida antes e depois do yoga. É fácil viciar-se no yoga: sensações gostosas, de sessenta a noventa minutos só para você, a proibição de julgar (e de se julgar), o silêncio e a introspecção, corpo e mente cada vez melhores — é claro que essas coisas viciam tanto quando candy crush e nutella. Atingido este estado de submissão a um sem-número de coisas bacanas que o yoga proporciona, é natural-inevitável-obrigatório viciar-se e pensar que não existe vida após o yoga e que aquilo que existia antes dele, bem, não era exatamente uma vida. Mas era.

2) Asana não é tudo

Na verdade, asana é uma porção infinitamente pequenininha do que o yoga é. É um quase-nada. Já leu os Yoga Sutras? Entendeu? Tem uma cópia à mão? Um PDF, pelo menos? Nos Yoga Sutras há apenas TRÊS versos que falam especificamente dos asanas (II, 46-48). São TRÊS versos de um total de 196 versos. TRÊS versos. TRÊS, entendeu? Quem gosta de séries de asanas, quem gosta de memorizar quantidades imensas de asanas, quem gosta de livros com 100, 200, às vezes 300 ou 400 asanas, provavelmente gosta de números, então: nos Yoga Sutras apenas 1,5% dos versos falam de asanas, o que é o mesmo que dizer que 98,5% dos versos não falam de asanas. Então, caro maníaco por asanas, responda: se asana é o alfa e o ômega do yoga, por que Patañjali lhe deu tão pouca ênfase?

3) O yoga não evolui

Quem diz que o yoga evolui é um tipo muito especial de professor que sente a necessidade de mostrar que o sistema ou método de ginástica ou de auto-ajuda que ele transmite também é yoga. Ou seja, a afirmação sobre a evolução do yoga é uma forma retórica de estabelecer uma conexão entre o yoga tradicional e a disciplina que ele transmite, por mais esdrúxula, exótica ou modernosa que seja. Só que o yoga não evolui. Nos últimos mil e quinhentos anos, quem quer que tenha falado de yoga ou o tenha transmitido seriamente também deixou claro que não existe evolução no yoga, o que existe é a prática do samadhi, porque, como já ensinava Vyasa baseado em Patañjali, yoga é samadhi, nada mais, nada menos.

O que pode evoluir são as técnicas que facilitam a percepção e a compreensão deste fato. Ensinar yoga no séc. XV para um jovem indiano que desde a infância está sendo preparado para assumir sua condição de brâmane decerto exigia um conjunto de técnicas disciplinares um pouco diferente do que é exigido para ensinar um profissional liberal, adulto, brasileiro do séc. XXI, habitante de alguma cidade grande como São Paulo ou Rio de Janeiro. Só que a meta é a mesma. Assim como fazer embaixadinhas não é o mesmo que fazer gol, fazer asanas «difíceis» ou pranayamas com 63 matras não é realizar samadhi.

4) Cursos de formação não servem para nada

Cai-me diante das vistas uma entrevista com uma «professora de yoga» que lamenta o fato da anatomia ser tão pouco ou tão mal ensinada nos cursos de formação. Sério? Cursos de formação de quê? De medicina? De educação física? A maioria dos problemas atuais do yoga reside no fato de que se prioriza o legado de Kuvalayananda em detrimento do legado de Patañjali, Matsyendranath e Gorakshanath. A professora em questão lamenta o fato de se estudar pouco anatomia nos cursos de yoga. Da forma como compreendo, o que é lamentável é o simples fato de se estudar anatomia nestes cursos. Isto — entre outras sonsices, como decorar trechos de escrituras, saber mais sânscrito do que lógica elementar e aprender formas de desenvolver uma aula agradável — é o que torna os cursos de formação tão úteis quanto pão mofado.

5) Suryanamaskar não passa de ginástica

Sobre isto vale a pena ler «Yoga Body: the origins of modern posture practice», de Mark Singleton. Ainda que, como a maioria dos acadêmicos, Singleton se encha de dedos para dizer o óbvio, fica claro que as práticas posturais modernas nada têm a ver com yoga. Se você ainda não acredita em mim, mesmo eu insistindo tanto no tema, provavelmente vai acreditar em Singleton. Entre as práticas modernas que nada têm a ver com yoga, o suryanamaskar é uma das mais conhecidas e praticadas. É uma ginástica muito eficiente que, como toda ginástica eficiente, pode facilitar a realização de alguns asanas. Só.

6) O yoga não foi feito para ajudar você

Se tivesse sido feito para esse fim, yoga seria auto-ajuda ou, pior, seria uma forma do professor de yoga ajudar você, como ocorre em em consultórios médicos e psicológicos e em centros de «aconselhamento espiritual». Meus quatro leitores já devem estar cansados de me ver repetindo esta frase de Nisargadatta Maharaj, mas é necessário repeti-la sempre e sempre: «Não fale em ajudar os demais, a menos que você possa colocá-los além de toda necessidade de ajuda.» Se há algum utilitarismo no yoga, ele está condensado nesta frase.

7) O yoga não é para todos

Muitos professores dizem o contrário. Não o fazem porque têm um compreensão profunda do que vem a ser o yoga desde a Idade Média, mas porque querem ter uma sala cheia de alunos. A eventual diversidade de alunos (jovens, adultos, idosos, atletas, sedentários, budistas, evangélicos etc.), longe de ser um problema, é precisamente o resultado que a maioria dos professores busca: à medida que esses tipos vão aumentando em número, criam-se grupos distintos, dada a necessidade de moldar a prática e direcioná-la para cada grupo. Isto, em vez de provar que o yoga é para todos, prova o contrário, que o yoga não é para todos. Se o yoga realmente fosse para todos, não haveria necessidade de criar grupos separados.

O que poucos percebem é que o yoga é para quem quer aprender, estudar e praticar yoga — óbvio, não? Só que a maioria das pessoas hoje em dia busca o yoga não pelo yoga, mas porque não tem paciência para os livros de auto-ajuda e porque já anda desanimada com a ginástica e com as terapias físicas e psicológicas convencionais. E é exatamente isso que elas encontram quando procuram aulas de yoga: mil formas de auto-ajuda e de terapia alternativa.

3 comentários:

Clarice disse...

Muito lúcido seu texto, Christian. A tendência que vc aponta e vem insistindo em criticar, porém, dificilmente mudará, na minha opinião (posso estar equivocada). A grande maioria das pessoas busca os benefícios da prática das técnicas e não a realização do Yoga em si, acho que isso é fato.

Você acha que isso é ruim? Não sei se temos distanciamento histórico suficiente para poder medir. Por outro lado, seria ingênuo pensar que esse legado da Índia chegaria ao ocidente sem alterações.

De fato, seria de alguma forma alienante absorver como se fossem próprios e sem alterações valores e referências culturais que não o são. A filosofia que, a rigor, é uma construção ocidental (grega) nos ensina a questionar a tradição. Como, havendo nascido nesse caldo, fazer de conta que somos brahmanes de carteirinha, se nossas referências de base são outras? Nosso ingresso à cultura e à linguagem se deram a partir de uma visão de mundo distinta dos brahmanes hindus, não há como negar isso.

Mas essa já é outra discussão. Eu fico sempre na dúvida se essa distorção é boa ou má, acho mais sensato aceitar a realidade: no ocidente Yoga terá sempre uma conotação distinta. Não é demais, porém, questionamentos como o seu, que nos fazem refletir.

Cá entre nós, estranho é ver que na Índia o mesmo tem acontecido, pelo que pude perceber em minha visita. Salvo em ambientes mais eruditos, a confusão sobre o que realmente é Yoga é a mesma!

Namaskar!

Evandro Castilho disse...

Belo texto. Um pouco de vivência reflexiva facilmente nos faz ver como o texto é equilibrado.

Christian Rocha disse...

Muito obrigado, Evandro!