25 agosto 2013

Entrevista com Christian Rocha




Há cerca de três semanas fui entrevistado por um site de yoga. Não sei se a entrevista vai ser publicada, porque, além de muito extensa, não combinamos nada nesse sentido -- já era surpreendente o bastante que alguém tivesse interesse em ouvir o que eu tenho para dizer sobre o yoga -- e porque acabei dizendo algumas coisas que talvez não caiam bem num site de yoga -- o que me leva a crer que a entrevista não será publicada por quem a fez. Palavrões são o de menos. Todo mundo já falou «merda» ou «caralho» como interjeições em situações que convidavam a isso, não? Então. O problema foi ter feito algumas críticas que a maioria das pessoas não compreende ou não aceita -- não aceita porque não compreende ou não compreende porque não aceita. Coisas assim raramente são publicadas, sobretudo num ambiente tão ironicamente recheado de tabus como é o yoga no Ocidente.

Por isso, decidi eu mesmo publicá-la aqui em meu site. Adicionei por conta própria alguns links e imagens que podem ajudar a esclarecer alguns pontos.


A longa entrevista girou em torno das inúmeras vertentes modernas inspiradas no yoga, da questão do ensino de yoga, do mercado de yoga e do perfil de professores e praticantes.

Refestelem-se, divirtam-se, comentem. 


***

Entrevistador — Obrigado por aceitar o convite para esta entrevista, professor.
Christian Rocha — Eu que agradeço.

E — Chamo você de professor mesmo? De Christian?
CR — Me chame como quiser. Só não peça pra ver a foto do meu RG.

E — [risos] Ok, professor. Pode me falar de sua vida, de suas experiências, de sua ligação com o yoga?
CR — Eu sempre achei isso muito desinteressante. Yoga é sobre você colocar as experiências no devido lugar, não é? Você teve as experiências. Repare no tempo verbal. Não é algo que está acontecendo. É algo que aconteceu. Claro que isso gera um peso e você carrega esse peso por escolha própria. E daí surgem aquelas listas chatíssimas de onde o sujeito estudou, quantas horas de curso de formação fez, se esteve na Índia ou não etc. Em pouco tempo o sujeito estará preenchendo ficha na Aliança do Yoga, querendo se integrar e fazer parte da comunidade do yoga, seja lá o que for isso. Eu não sou assim.

E — Entendo, mas como foi sua formação? Há quanto tempo conhece o yoga?
CR — Você me desculpe, mas isso não tem a menor importância. Se eu responder essas perguntas, eu vou estar concordando com a idéia de que isso é importante. Mas não é. O único mestre de yoga que eu conheci me ensinou isso. Se você decide dedicar-se seriamente ao yoga, não pode se desviar disso. Não pode haver uma situação em que é ok apegar-se a banalidades. Ou você está interessado em yoga e leva isso a ferro e fogo ou está interessado no currículo do sujeito e em fazer amizade. Perguntar sobre curriculo é o mesmo que pedir atestado de antecedentes [criminais]. Fora as situações burocráticas, só se faz isso se você estiver desconfiado de que está diante de um criminoso. Se você achasse isso, não teria me convidado pra esta entrevista, não é? [risos]

E — Sim, ok... Mas hoje em dia todos querem saber quem as pessoas são. Ninguém vai a uma escola de yoga sem saber quem é o professor, o que ele ensina, com quem ele estudou...
CR — ...e isso tudo é inútil. Você me procurou justamente porque teve interesse em algumas idéias minhas, em críticas que faço ao yoga atual, na minha forma de entender o yoga, que nem é minha... Se você entendeu algo dos meus artigos, consegue perceber que tem um monte de problema aí fora. Ter acesso a um rol de referências faz alguma diferença? Da forma como entendo isso, esse frenesi em torno de referências é um obstáculo, porque quase sempre leva o sujeito a seguir duas direções distintas: ou ele se apega àquela escola, àquele professor, ou cospe nessas coisas; sai falando bem e comprando a idéia ou sai falando mal e atacando quem comprou a idéia. É irônico e doentio, principalmente quando a gente lembra toda aquele lance de desapego, aceitação etc.

O que eu posso dizer é que eu conheço yoga, conheço os estúdios de yoga, conheço a maioria dos professores famosinhos, conheço os estilos de yoga atuais, sei o que eles são, o que eles representam. Já dei aulas de yoga, já tive uma escola, já tive alunos. É claro que eu não sei tudo. E, ao contrário do que o complexo de inferioridade do brasileiro costuma dizer, eu não sou dono da verdade. Mas tenho alguma condição de dizer o que digo e de fazer o que faço. Nunca fui assediado pelos professores que tive, nunca fui cooptado pelos franqueados do professor De Rose ou de quem quer que seja, não tenho os traumas que a maioria das pessoas atribui a quem decide fazer críticas severas. Mas sempre tem aquele papo demente de invalidar a crítica dos outros com base numa suposição emocional, como aquele lance de achar que todo homofóbico é um gay enrustido. No yoga é igual: quando você faz uma crítica, a maioria das pessoas acha que você é um traumatizado, um reprimido, uma pessoa muito ruim. No yoga todo mundo acha que criticar é uma desumanidade.

Só que eu realmente leio os livros de yoga, mesmo os que não passam de manuais de ginástica, e realmente ouço o que os instrutores e professores dizem. Eu não faço críticas porque sou malvado ou sádico, eu faço críticas porque tenho visto muito lixo sendo vendido como ouro por aí.

Falando mais especificamente da minha experiência pessoal, eu já passei pelos principais estilos de yoga da atualidade, já me pendurei em cordas e panos, já usei cadeiras e cintos e bolsters, já entoei «sat nam!», «swasthya!» e «harih om!» com entusiasmo e devoção, não por muito tempo, felizmente... [risos] Já fiz essas merdas todas que aparecem nas revistas, já fiz cursos de formação, participei de retiros, workshops, o caralho a quatro.

E — Nada disso o satisfez?
CR — O ponto não é satisfação ou insatisfação. O ponto é que nada disso era o que dizia ser. Cada um desses instrutores, cada uma dessas disciplinas se coloca como a última coca-cola do deserto, mesmo que usem sempre aquele tom adocicado e humilde que só engana idiotas. Existe um discurso e uma atmosfera de compaixão, de bondade, de transcendência e espiritualidade, mas no fundo todos, todos sem exceção, só querem alunos e discípulos, ou melhor, querem dinheiro de mensalidades e — aspas — doações espontâneas com valor sugerido. Dá pra entender, né? O aluguel de um bom imóvel pra montar uma escola numa cidade como São Paulo passa fácil dos três paus [R$ 3 mil reais]. Somando isso às inúmeras despesas habituais, como água, luz, internet, é fácil entender onde estamos pisando e do que estamos falando.

E — Não é de yoga que estamos falando?
CR — Eu e você, acho que sim. Nós nos encontramos com esse propósito, não foi? Mas essas pessoas não têm interesse em yoga. Talvez os alunos dessas pessoas tenham esse interesse, porque não conseguem imaginar a complexidade da situação, são conduzidos por revistas bobocas como Yoga Journal, Vida Simples, Bons Fluidos e até Boa Forma e assim acabam acreditando que o yoga realmente pode ser uma coisa boa.

E — Mas o yoga não é algo bom?
CR — Claro que sim, deixa eu explicar isso melhor.

Um tempo atrás eu vi aquele programa Pequenas Empresas Grandes Negócios. O tema era bem-estar. Daí eles fizeram a matéria com um professor conhecido, o Sandro Bosco, que tem uma escola do método Iyengar num bairro bom de São Paulo [a versão escrita da matéria pode ser vista aqui]. A escola dele é bem organizada, tudo limpinho e agradável, parece uma loja da Armani. Quem vai lá tomar aulas se sente muito bem. Pergunto: tem yoga ali? Se você refizer a genealogia desse professor, do método Iyengar, se você observar como é a dinâmica nessa escola, vai perceber que a resposta é não. O próprio método Iyengar nasceu como algo superficial. O próprio Iyengar diz num livro dele que pros ocidentais basta praticar asana e pranayama. Porra, se somar essas duas coisas, não dá 3% do que o yoga é!... O fato de terem colocado um conteúdo desses num programa sobre empresas do setor de bem-estar já dá uma noção de como anda o yoga no Brasil. E isso não é uma exceção, é uma regra, é um modelo.

Eu passei por inúmeras escolas, conheci diversos professores, há alguns anos venho acompanhando essa cultura de bem-estar e qualidade de vida. Eu só vi yoga uma vez, em uma pessoa que estava se lixando pra essa cultura e que, provavelmente por isso, era uma espécie de punk do yoga, alguém marginalizado e hostilizado por gente que tinha como principal objetivo na vida ser capa de revista de bem-estar ou tema de um programa de TV.

Por isso, quando você pergunta se o yoga é bom, primeiro precisa saber a quê você está se referindo.

Se tudo que você sabe sobre yoga veio da Yoga Journal ou de algum estúdio paulistano, fudeu, já era, você não sabe nada sobre yoga. Você pode até se achar um pouco mais estudado e consciente e esperto porque ficou dez dias ouvindo ladainhas chatíssimas em algum retiro de Vipassana, porque participou de alguma «sit down comedy» com o Marco Schultz, porque fez curso de formação com ele ou com o Pedro Kupfer ou com qualquer outro professor do topo da lista de resultados do Google quando pesquisou «curso de formação de yoga», porque leu e cumpriu todo o programa do «Light on Yoga» ou porque tem «O Coração do Yoga» como livro de cabeceira ou porque usa turbante branco ou roupa cor de laranja ou porque tem certificação XYZ de algum instituto indiano que só forma estrangeiros ou porque recebeu a diksha de alguém que não fala português e que só vem uma vez por ano ao Brasil. [pausa] É tudo a mesma merda, tudo a mesma merda... tudo faz parte da mesma lógica que está impressa nas páginas das revistas. Essa lógica é usada pra vender cursos, livros, tapetes, retiros, roupas de yoga, festas, pacotes turísticos. Professores de yoga também querem ganhar bem.

E — O que é yoga?
CR — Essa pergunta é uma pegadinha, ok? Acontece sempre que eu começo a quebrar alguns ídolos de barro. Eu digo que o que existe hoje é falso; daí logo aparece alguém perguntando onde está o verdadeiro yoga ou o que é o verdadeiro yoga. Isso é uma bobagem.

Num primeiro momento, ok, perguntar sobre o verdadeiro yoga é a atitude natural de qualquer pessoa com interesse no yoga. O problema é que ninguém pergunta isso com sinceridade, mas como uma reação às críticas. É tipo aquele bate-boca que havia antigamente sobre Beatles e Rolling Stones [gesticulo com as mãos, como se fossem fantoches, imitando vozes de desenho animado]:
«Eu acho Beatles uma merda!»
«Ah, é, sabichão? O que você acha bom então?»
«Rolling Stones. Sempre foram melhores que os Beatles.»
«Ah, não força! Não dá pra comparar uma banda de drogados com os Beatles!»
E vira aquele mimimi do tipo «o meu é melhor que o seu».

O que eu quero dizer é que quando alguém pergunta «o que é yoga?», isso não é uma pergunta, mas um contra-ataque. A pessoa pergunta como forma de virar o jogo, porque não agüenta ver seu professor ou seu estilo de yoga levando surra. Então, se eu digo o que é o yoga verdadeiro, o perguntador vai se sentir mais à vontade pra fazer críticas ou pra fazer «pfffft» ou sair cagando pra qualquer outra coisa que eu disser, cantando vitória. Ele vai sair achando que a definição que eu dei era uma merda e daí voltamos ao ponto inicial, como se dois mercadinhos estivessem fazendo promoções cada vez melhores pra atrair os moradores do bairro. Mesmo que o cara entenda a definição que eu der e realmente goste dela, o que eu ganho com isso? Não estou vendendo curso, porra! Não estou procurando amizades no yoga, não quero me juntar à sanga. Não estou no yoga a passeio ou pra vender cursos. Só quero que os falsários parem de falar de yoga. É uma burrice do caralho achar que tudo que eu quero é vender meus livros, meu curso ou minhas aulas de ginástica indiana, porque eu não tenho nada disso pra vender. Nem meu site me rende dinheiro. Até hoje não sei como usar aquela porcaria do AdSense.

E — Mas as pessoas se sentem ofendidas com as críticas que você faz, não? Tipo isso de chamar essas pessoas de falsários. Isso é meio forte...
CR — Como diz aquele ditado, as pessoas se sentem ofendidas com qualquer besteira porque hoje em dia é isso que dá a elas alguma sensação de poder. Coitadismo, saca? Ser coitado autoriza. Ser a vítima autoriza. É melhor e mais fácil ser vítima do que discutir as coisas como adulto.

De verdade, eu procuro ser o mais justo possível e usar as palavras realmente adequadas. Saca definição de dicionário? Falsário é quem falsifica coisas, certo? Você estuda os textos clássicos e lá diz que yoga é samadhi. Daí vem um sujeito e diz que yoga se faz com cadeiras especialmente fabricadas na Alemanha ou que asana visa os órgãos vitais. Vou chamar esse sujeito de quê? De professor? De mestre? Eu acho até que pego muito leve. Enquanto tive alguma vida pública como praticante e instrutor de yoga, mantive meu bom-tom. Eu nunca quis ser aquele sujeito intragável que vai jantar na casa dos outros e sobe na mesa pra reclamar que a comida está fria. Mas também não tenho a obrigação de chamar o cozinheiro no canto e ensinar o óbvio, que a comida precisam estar quente e tal. Eu pego minha mochila e vou embora.

O problema, no caso do yoga, não é a existência de um profissional ou líder ruim. O problema é a existência de uma atmosfera ruim, e uma atmosfera ruim só surge quando a maioria está fazendo merda. Se fosse só um ou dois fazendo merda, eu não me daria o trabalho de criticar. Mas hoje quase todo mundo mente, vende lixo, ignora a tradição e espera ser paga por isso, se orgulha disso e quer ser respeitada por isso. Não dá.

E — Por falar nisso, tenho acompanhado seu site e sua página no Facebook. No Facebook, aliás, tem uma página de humor, o Yogi Satyavan, ela também é sua, não? Já vi textos seus naquela página e já vi alguns memes do Yogi Satyavan na página do Templo do Yoga.
CR — Bem, sim, que se dane. [risos]

E — Hm?
CR — É que eu criei aquela página de humor como uma brincadeira. Decerto algumas pessoas acham aquilo de mau gosto. Já fui expulso de alguns grupos no Facebook por repassar piadas do Yogi Satyavan. Então é algo meio maldito... Foi por isso que eu decidi fazer essa página de forma meio anônima, inclusive porque as pessoas não sabem distinguir um conteúdo de quem o fez. Se você faz uma crítica e as pessoas não gostam, não é a crítica que é ruim, é você que é um filho da puta. Claro que ninguém diz isso, mas tratam você como se você fosse. É você que não está meditando o suficiente e que está quebrando o princípio de ahimsa [não-violência]. Essa coisa me embrulha o estômago... você faz uma crítica menos polida e as pessoas já tomam aquilo como ofensa pessoal ou como heresia, «ai, que falta de ahimsa!» [imito voz de adolescente mimada] Enfia o ahimsa no fiofó, pô. [risos] Esse pessoal acha que yamas são... regras morais... Ai, meu saco! É esse o tipo de gente que está por aí ensinando yoga. Gente que acha o fim do mundo fazer uma piada com o Pattabhi Jois, mas que acha ok não saber o que é samadhi e que jamais praticou samadhi, gente que gasta os tubos num workshop de anatomia, mas que não medita porque não acha tão importante ou porque — aspas — medita no asana — essa é ótima... medita no asana... É esse o tipo de gente que vem me dizer o que fazer, como me comportar.

É por isso que, quando você entra num lugar contaminado, precisa usar uma máscara. O Yogi Satyavan foi uma espécie de máscara até agora. Mas daí você fez essa pergunta à queima-roupa e estragou tudo. [risos] Todo o yoga no Brasil e em boa parte do Ocidente está lotado de lixo: miséria material, miséria moral, burrice pura e simples, desprezo por coisas superiores. Eu aposto que vai ter gente que vai ler esta entevista e vai ficar toda cheia de brotoejas só porque eu disse «merda», gente que acha muito transcendental fazer carinha de meditação enquanto se pendura em cintos importados que custam 300 paus. É difícil fazer piadas num ambiente desses, mas eu decidi tentar.

E — Mas fazer piada ajuda a melhorar a situação?
CR — Como eu disse, eu criei aquela página como uma brincadeira, mas claro que tem um lado sério. Fazer piada não resolve nada, mas se você não for capaz de rir de coisas idiotas e ruins, fica muito mais difícil. O exercício do humor, do sarcasmo, da irreverência, essas coisas são necessárias pra estabelecer uma hierarquia com aquilo que se pretende estudar. Se a sua única atitude é de reverência, uma figura como Hermógenes vai ser sempre o vovozinho bondoso e semideus que as pessoas dizem que ele é, e você será obrigado a engolir tudo, inclusive a visão yogaterapêutica que ele ensina nos livros. Se você leva a expressão «a ciência do yoga» totalmente a sério, não vai conseguir identificar o monte de falhas de um curso como o da FMU e nem vai perceber a contradição que é um — aspas — curso de pós-graduação em yoga.

Uns meses atrás chegou no meu email um flyer divulgando um curso ou workshop chamado «A Fisiologia da Meditação» ou algo assim. Pô, sério mesmo? Alguém que entende o que é meditação realmente se preocupa com o fato de que os neurônios podem ficar assim ou assado quando você medita? Aquele flyer era uma piada pronta.

Seriedade é muito importante. Eu levo a sério minha tarefa de fazer piada com qualquer coisa do yoga, sobretudo as coisas mais recentes, que são as mais ridículas. Elas praticamente pedem pra virar tema de piada. Você já deve ter visto uma aula de Acro Yoga. A primeira vez que eu vi aquilo eu pensei: «ele não está falando sério...» Estava. Você já viu as aulas do método Iyengar, não? É um obsessão doentia com alinhamento do corpo e principalmente com acessórios. Eu comecei a ficar com dó dessas coisas, porque ficou fácil demais fazer piada daquilo, começou a perder a graça de tão óbvio que a coisa ficou.

É claro que eu respeito as pessoas. Eu não respeito o que elas fazem no yoga. Devem ser ótimos pais, mães, devem ser pessoas bem-intencionadas, que colocam o lixo pra fora, dão seta ao dobrar uma esquina, não peidam no elevador, não deixam o pote de margarina aberto na mesa, aquelas coisas. Mas não deveriam estar ensinando yoga. Não deveriam nem estar tocando no assunto. Mas fazem isso tudo e muito mais. Formam professores, que formarão outros professores, que formarão outros professores e todos juntos vão promover novos workshops de fisiologia da meditação ou de Yoga Dance ou de Acro Yoga ou de yoga pra grávidas. É mais ou menos como aquele filme, Gremlins, os monstrinhos crescem e se espalham em escala geométrica e fodem tudo. É tudo uma enorme, uma grande merda.

E — Mas essas coisas não têm um lado bom? Algumas pessoas realmente têm suas vidas transformadas para melhor com essas modalidades novas, não?
CR — Do que estamos falando? De yoga? Modalidades de que?

E — Não são modalidades de yoga?
CR — Pô, acorda. Óbvio que não. A própria noção de modalidade ou estilo é incompatível com o que o yoga propõe.

E — Mas o que o yoga propõe não é transformar a vida para melhor? Ninguém faz yoga para piorar... E essas coisas melhoram a vida das pessoas. Esse papo de «é yoga», «não é yoga» não é perda de tempo? Enquanto você discute isso tem gente melhorando a saúde, curando doenças...
CR — Deixe eu explicar. Eu sei que hoje em dia a maioria das pessoas busca apenas resultados e quase tudo gira em torno de melhorar a performance física, melhorar a aparência física e sentir-se bem. Hoje você tem uma lista de prioridades no yoga que vai desde a perda de peso até o aumento da auto-estima, incluindo outras coisas boas como ficar flexível e forte, combater a depressão etc. Tudo isso é ótimo, excelente mesmo, mas nada disso é yoga. Em algum momento essas coisas aparecem como efeitos do yoga. Mas não faz sentido dizer que yoga para grávidas é yoga. Pára pra pensar e monta as frases da forma correta e completa. Ninguém faz isso porque ninguém sabe do que está falando. Se você fizer isso vai chegar a algo como: «técnicas parecidas com as do hathayoga para melhorar a condição física e emocional das mulheres durante a gravidez e nos meses que sucedem o parto». É uma questão de usar os nomes certos. É uma questão de não ser enganado. Mas é claro que é mais fácil dizer somente «yoga para grávidas» e guardar as explicações na gaveta, caso alguém resolva encher seu saco com perguntas.

Assim como tem gente que procura yoga só pra perder peso e combater o stress, tem gente que procura yoga porque realmente busca uma compreensão maior da realidade, pra se libertar do sofrimento. Existe o sistema de técnicas de origem indiana que ajuda a combater o stress e perder peso e existe o sistema de técnicas de origem indiana que liberta do sofrimento. O primeiro dá origem a pessoas mais saudáveis e calmas. O segundo também pode dar origem a pessoas mais saudáveis e calmas, mas não tem isso como objetivo, o objetivo é a realização espiritual. Como você diferencia esses dois sistemas se você já começou chamando os dois de yoga?

E — Mas essa diferenciação é tão importante assim?
CR — Vou dar um exmplo. Eu tenho uma quitanda que se chama Açougue do Christian. Você entra lá e pede 1 kg de maçãs. Eu lhe dou 1 kg de alcatra e colo uma etiqueta onde se lê «1 kg de maçã». Você reclama, eu admito que alcatra e maçã são coisas diferentes, mas eu digo que 1 kg de maçãs e 1 kg de alcatra são quase a mesma coisa, já que alimentam, são nutritivos etc. É uma maluquice total. Se você aceita o que eu fiz, em pouco tempo vai estar achando mesmo que maçã é alcatra e alcatra é maçã. E se alguém disser o contrário você vai responder: «mas essa é a SUA verdade...» O yoga anda assim hoje em dia. E é basicamente por isso que uma das coisas mais idiotas que existem se tornou tão comum e aceitável: hoje, quando eu digo que ensino yoga, a pessoa me pergunta qual estilo eu ensino.

É uma situação meio dramática também, porque é óbvio que é impossível desenvolver um trabalho sério num ambiente biruta desse tipo. Ficou impossível até conversar sobre o assunto. Acho que você já deve ter visto algum texto meu em que eu falo disso, da impossibilidade de discutir algo sobre yoga. O prof. De Rose resolveu essa questão jogando a toalha; hoje ele ensina um sistema próprio e raramente cita o nome do yoga [link]. Um tempo atrás o prof. André De Rose disse que também pretendia estabelecer seu sistema próprio, mas com inspiração mais tradicional [link]. Não sei como ficou isso, mas depois disso já o vi promover workshops de Acro Yoga em sua escola. Outro professor, o Marco Schultz, parece ter criado uma redoma em torno de si ao batizar seu trabalho de «Simplesmente Yoga», que é como aquelas plaquinhas de hotel, «não perturbe».

Na minha opinião, nada disso resolve o problema, essas propostas escorregam através do problema e até o agravam, já que são formas de desenvolver e propagar uma visão pessoal do yoga. Visão pessoal do yoga é uma óbvia contradição em termos. O chorume do yoga moderno anda gigantesco justamente porque há cerca de 100 anos só existe visão pessoal do yoga. E, apesar disso, o que vemos hoje é o crescimento dessa tendência de personalização do yoga, quase um yoga à la carte. Quando você acha que vem um turning point, aí é que a coisa fica feia.

Talvez agora seja útil eu responder sua pergunta sobre o que é yoga.

E — Por favor.
CR — Veja bem, não é o que eu acho. É o que é, é o que sempre foi ensinado até que a Modernidade chegou chutando portas, com o culto ao corpo, à saúde, com modinhas esotéricas. Qualquer uma das definições clássicas vai bem aqui e são elas que eu uso. Seja a original de Patañjali, de Patañjali apud Vyasa, dos Upanishads, dos nathas nos hathayoga shastras. Yoga é samadhi, é moksha, é unmani, é saber quem você é. Só isso. Não precisa de ginástica, não precisa plantar bananeira, não precisa extrair os intestinos [risos], não precisa cantar mantra, não precisa fazer ritual pra Ganesha, não precisa de nenhum salamaleque. Basta praticar o samadhi, buscar o samadhi, entender que o samadhi é o yoga e que yoga é o samadhi, que o samadhi precisa estar em todas as técnicas. Lembrar, lembrar, lembrar, observar, observar, observar. Se você entende essa simplicidade do yoga, logo percebe que não existe espaço para uma visão pessoal do yoga.

Um dos textos que eu mais gostei de ter escrito foi um sobre religião [link]. Lá eu tentei explicar algo que as pessoas raramente entendem: quando você pergunta, por exemplo, se yoga é religião, você só vai conseguir responder a pergunta se você souber o que é yoga e o que é religião. Depois disso é que você consegue juntar os dois elementos numa pergunta e esclarecer o assunto

O que falta às pessoas é isso, esse exame dos objetos. A pessoa acha que sabe o que é yoga porque carrega na ponta da língua uma definição bem escrita, mas ela raramente é capaz de remontar à origem daquela definição. Mesmo que ela saiba situar a definição... tipo, ela cita a definição clássica, de Patañjali... ela raramente sabe encaixar aquela definição naquilo que ela faz. E desse jeito aquela definição vira um slogan. E é com base em slogans que as pessoas discutem o yoga hoje em dia, quando discutem.

Repare que nada disso tem a ver com estar ou não estar grávida, com se pendurar ou não se pendurar em cordas. Na verdade, tanto faz. Como você sabe, houve mestres iluminados que comiam carne, que fumavam, que xingavam ou que falavam alto, que tratavam pessoas com uma indiferença notável...

E — Nisargadatta Maharaj, Ramana Maharshi...
CR — Esses são só os exemplos mais conhecidos.

E — Aliás, na sua opinião, quem são os verdadeiros yogis? Você considera Nisargadatta e Ramana mestres genuínos?
CR — Sim.

E — Algum mestre vivo?
CR — Conheci alguns nathas fodões. Poucos. Meu professor é um deles e foi nele que vi a lição de Vyasa pela primeira vez. Ele não falou, ele mostrou. Antes dele, samadhi era fingimento, era retórica, era conversa pra boi dormir, era cheiração de incenso, era pose pra foto. Depois que você aprende a identificar essas coisas, sente vontade de sair correndo quando alguém aparece dizendo que yoga é união ou amor, porque sabe está diante de um ignorante.

E — Não existe nenhum verdadeiro yogi nos sistemas modernos?
CR — Olha, eu conheço muita gente nos sistemas modernos, mas nenhum yogi. Alguns são ótimos psicólogos, ótimos educadores físicos, ótimos fisioterapeutas, ótimos coaches. Conheci alguns que eram excelentes scholars, conhecem toda a filosofia do yoga, têm uma cultura que eu jamais vou ter. Mas não são yogis. Hoje, o tipo de realização que teoricamente se busca no yoga é mais fácil encontrar no zen e nas artes marciais do que no próprio yoga.

Aprender um sistema moderno e obter a autorização pra ensinar essas coisas custa muito dinheiro. Por isso, os instrutores desses sistemas estão mais interessados em dinheiro do que em samadhi. Eu até entendo; ninguém gasta quatro, cinco mil reais num curso de qualquer coisa e abre um espaço que lhe custa outros três, quatro mil reais por mês sem esperar um retorno financeiro. O que não entendo é a facilidade com que uma coisa é maquiada com a outra. E as pessoas aceitam isso. Você vê o sujeito vendendo aulas, tapetes, cursos, recebe aulas que precisam durar exatos 60 ou 90 minutos e acha que aquilo tudo é a tradição do yoga, só porque o professor vive estudando os livros do Feuerstein e cita trechos dos Sutras de memória. Como diz o Caetano naquele vídeo antigo: como você é burro, cara. [link] Isso não é tradição, é comércio. E onde tem comércio não tem yoga.

E — Ninguém se salva mesmo?
CR — Eu não conheço todo mundo, talvez haja alguém escondido em algum lugar que realmente entenda o significado e o valor do yoga. Quem quiser pode imitar um escorpião. Eu não tenho nada com isso. O problema é tornar-se um falsário, tentar vender a idéia de que o yoga está condensado numa pose em que o corpo imita um escorpião ou no bem-estar na gravidez obtido com técnicas copiadas do hathayoga. E a realidade atual do yoga é feita de pessoas tentando vender a idéia de que encaixar o tornozelo na nuca é algo muito transcendental. Eu não manjo de Direito, mas acho que essas coisas seriam classificadas como estelionato ou, no mínimo, como falsidade ideológica. Imitar um escorpião, plantar bananeira numa prancha e fazer ondinhas com a barriga sem chamar essas coisas de yoga seria um bom recomeço pra maioria dos assim chamados instrutores de yoga.

E — As suas páginas na Internet têm algum outro objetivo além de criticar os sistemas modernos? Eu já percebi, em comentários aos seus textos, que algumas pessoas cobram de você uma visão mais positiva do yoga.
CR — Aí que está. Eu sempre tive essa visão positiva do yoga. Se você não tem isso, simplesmente não consegue ensinar yoga, não consegue fazer nada, não consegue nem identificar lixo como lixo e ouro como ouro. Você precisa conhecer o ouro pra poder saber o que é lixo quando alguém lhe mostrar lixo.

Um professor é alguém que tem total clareza sobre essa visão positiva e se dispõe a transmiti-la a outras pessoas. Só que essa visão positiva não é pra quem entra na minha casa e quer comer de boca aberta, com os pés na mesa. Essa visão postiva é só pros meus alunos. Eu não compartilho essa visão positiva com quem comenta meus textos simplesmente porque essas pessoas não têm interesse no que eu tenho a dizer sobre isso. Elas têm interesse em confirmar aquilo que já sabem. Eu falei disso antes, sobre a definição de yoga. Só que aí vem a pessoa cobrar uma visão positiva do yoga... e quando você vê, é uma pessoa que acredita que yoga é liberdade ou que é auto-expressão ou outras merdas new age. Daí você dá uma espiadinha nas fotos que a pessoa publica na internet e percebe que não está conversando com um adulto, mas com alguém que está brincando de escolinha de yoga, de se pendurar em cordas, e que tem orgulho de ser uma «metamorfose ambulante» e que cita trechos daquela música do Gonzaguinha. E é essa pessoa que cobra uma visão positiva de mim. Uma visão positiva certamente não inclui pessoas que acham que ensinar yoga é tipo um laboratório de circo ou uma reunião da Chama Violeta. É importante criticar essas coisas e rir delas nos momentos adequados.

E — Foi daí que veio a idéia de fazer piadas de yoga? Como surgiu isso?
CR — Na verdade o Yogi Satyavan começou numa página do Formspring, aquele site de perguntas e respostas. O título original da página era Pergunte ao Yogi, porque a idéia era abrir um espaço pra perguntas sobre o yoga. A página não vingou, ela ainda existe mas anda em banho-maria, deve ter lá meia dúzia de perguntas apenas. Até hoje não sei bem como divulgar essas coisas, mas aquela página me deu a idéia de fazer algo parecido no Facebook. Como lá no Facebook há mais recursos pra imagens, vídeos e também pra interação com outras pessoas, a coisa funcionou melhor. São só 100 participantes, mas eu acho isso um número razoável, principalmente se a gente lembrar que o objetivo principal da página é maltratar o yoga moderno e que hoje quase todos os praticantes estão ligados a algum sistema moderno.

E — Maltratar? [risos]
CR — Claro. [risos] Quem tenta me vender um pacote turístico pra Índia com o argumento de que isso vai ser importante pra minha vida no yoga merece o quê? Nem em Hollywood as coisas funcionam assim; aquele filme com a Julia Roberts no máximo é uma comédia ruim.

E — Como você cria os memes e piadas?
CR — Algumas são sugestões de pessoas que acompanham a página. Outras são piadas prontas, e aí eu só acrescento um comentário breve. You know what I mean. Há vídeos americanos absolutamente ridículos, que nem precisam de legenda [um exemplo, aqui]. Outros memes dão um pouco mais de trabalho, exigem alguma reflexão.

E — Eu noto que alguns memes, algumas sacadas são muito sutis, ou exigem a compreensão de camadas de informação que não são acessíveis a todas as pessoas, às vezes nem àquelas que são alvo desses memes.
CR — Sim. Com freqüência acontece de eu fazer uma piada sobre os sistemas modernos de yoga e aparece alguém curtindo o meme logo em seguida. Daí vou ver o perfil da pessoa e descubro que a pessoa se enquadra totalmente no meme que eu acabei de publicar. Tipo, a piada é sobre ela... É como se a vítima levantasse o braço confirmando presença e subscrevendo a tese contida no meme. Por isso fica uma coisa meio esquizofrênica, meio doentia, como se a pessoa risse do meme e curtisse o meme não porque entende aquilo em todas as suas camadas, mas porque só entendeu a camada mais superficial e porque assim ela consegue aliviar o nervosismo de viver num oceano de mentira e ignorância.

E — Isso deve ser um pouco frustrante. Porque, mesmo que o objetivo seja fazer piada, existe um fundo crítico que permeia toda a página. Por assim dizer, fazer rir tem um lado sério, é aquele lance de modificar a hierarquia, desfazer algumas unanimidades, etc. como você disse. Existe uma missão nisso tudo, não?
CR — Menos, né. Daqui a pouco você vai sugerir que eu crie uma nova linhagem dentro do yoga a partir dos memes do Yogi Satyavan. Claro que tem aquele lance da hierarquia, como eu falei antes. É uma merda que falsários sejam vistos como grandes yogis e que grandes yogis sejam marginalizados, ignorados ou até hostilizados pelos falsários e pelos alunos desses falsários, como já vi por aí. Se cada piada minha ajudar a mudar isso, ótimo. Mas a função principal da piada é fazer gozação, causar risada.

É difícil ser totalmente compreendido. Estou eu aqui explicando o sentido de algumas coisas que talvez nem devessem ser explicadas, não é mesmo? Se a gente lembrar que nos EUA a cultura do yoga é muito mais diversificada e lá as pessoas são menos burrinhas e mesmo assim as críticas são raras e discretas... se a gente lembrar disso dá pra imaginar que fazer piada com o yoga no Brasil é uma tarefa de merda.

Mas também não dá pra ficar explicando piada. Os restaurantes mantêm aquelas placas de «visite a nossa cozinha» porque sabem que a última coisa que os clientes querem é saber como foi feito aquilo que eles puseram na boca e jogaram no estômago. O mesmo acontece com piada: mesmo que você não tenha entendido, explicar a piada transforma a ignorância em mal-estar, principalmente quando você descobre que você era o ingrediente principal da piada, que a piada era um espelho.

Além disso, eu uso a página do Yogi Satyavan pra exercitar minha capacidade de ver o ridículo do yoga atual. Se alguém entende o meme, curte, ri comigo, compartilha, ótimo. Se nada acontece, paciência. Por enquanto basta compartilhar isso com outras pessoas.

E — Você tem algum meme favorito?
CR — Eu senti uma satisfação especial quando elaborei aquela série O Fabuloso Mundo do Yoga Moderno. A idéia estava resumida na frase que uso pra todos os memes dessa série: «Se qualquer coisa pode ser associada ao yoga, então qualquer coisa pode ser associada a qualquer coisa.»


E — Aquela série é muito boa.
YS — Eu também acho. No primeiro meme que fiz pra essa série, sobre aquela ginástica que é o Ashtanga Vinyasa Yoga, logo apareceu um rapaz em defesa do método. Ele começou a escrever muito, muito, me acusou de estar faltando com o respeito etc. Vai ser mal-humorado assim lá em Mysore... Imagina a seguinte situação: alguém chega em você e diz, em tom óbvio de piada, que a ginástica que você faz parece um frango doente dançando. Em resposta você explica a origem histórica daquela ginástica, fala que frangos doentes não dançam e mesmo quando tentam dançar fazem movimentos interessantes... e que existe todo um conjunto de fatores físicos, anatômicos, galináceos, enfim, que determinam os movimentos do frango... Coisa de louco. Eu só estava fazendo gozação do método dele porque aquilo não é sério, não é pra ser levado a sério, não foi criado pra ser levado a sério e não deveria ser levado a sério, porque não se trata de yoga. Isso é um fato: estude a biografia de Pattabhi Jois, a história do estilo que ele criou. O sujeito lá perdeu a chance de ver através do ídolo de barro que ele vive carregando. A risada serve pra isso, pra ver através. Mas eu uso o meme justamente com o objetivo de me dispensar de maiores explicações. Eu deixo as explicações pros meus artigos, se for o caso. Não tem coisa mais chata e inútil do que ficar discutindo meme. Eu já tentei discutir seriamente coisas que não são sérias. É pior do que explicar piada. É pior do que bater o dedinho do pé num móvel.

E — Como é sua relação com o yoga? Você disse que já deu aulas, mas que não dá mais...
CR — Eu encerrei minha escola em Junho deste ano. Eu gostava de dar aulas, mas isso deixou de ser uma prioridade pra mim por várias razões pessoais. Talvez eu volte a dar aulas, talvez não. O problema de dar aulas é que, se você não é naturalmente rico, cedo ou tarde você vai querer ganhar dinheiro com aquilo. Não importa se pouco ou muito. Em algum momento você vai querer ser pago pra ensinar yoga. Afinal, é o tempo que você dedica à coisa, despesas básicas como transporte, alimentação, sola de sapato, roupa. Só que aí é que a coisa vira uma merda, porque ao mesmo tempo que você está ensinando o yoga pelo yoga, você também está ensinando pelo dinheiro. Isso não é ruim só pros eventuais instrutores e professores, mas também pros alunos, que passam a achar que a relação entre professor e aluno é uma relação comercial.

E — Mas é normal querer ser pago por um trabalho realizado, não?
CR — Certamente, mas no yoga é fundamental estabelecer uma relação muito cristalina com o trabalho e o dinheiro. Quando isso não existe, é fácil começar a mentir pra si mesmo.

E — Como assim?
CR — Por exemplo: um tempo atrás eu conversei com uma moça que estava promovendo um curso de Yoga Dance. Eu perguntei qual era a proposta, queria saber como era a prática do samadhi no Yoga Dance. Era uma pergunta simples que pedia uma resposta simples. A moça fez uma confusão gigantesca e não respondeu a pergunta. Disse algo como: o Yoga Dance ajuda a pessoa a encontrar sua própria natureza, sua voz interior. Ok, mas e o samadhi? Existe a cessação dos movimentos do corpo? A cessação dos movimentos da mente? Claro que não tem, já que o lance é soltar o corpo, é — aspas — auto-expressão. Deve ser gostosinho, mas não tem yoga aí. Só que aí, de repente, o que era pra ser apenas gostosinho vira uma tradição milenar por causa de uma retórica que faria o Osho parecer um oceano de sinceridade. Entende?

O que eu estou dizendo é que a única coisa que sustenta a palavra yoga nos sistemas modernos é um discurso muito imbecil, muito parecido com aqueles dos artistas de vanguarda: com uma boa lábia, uma tela branca pendurada na parede de uma galeria de arte com uns respingos de tinta vermelha vira uma obra chamada «Condição humana IV» ou «Liberdade em sol maior» e pode ser vendida por 20 mil reais. Isso é mentir pros outros e é mentir pra si mesmo. E essa mentira toda acontece porque você precisa de alunos, precisa ter um salário, precisa ter um retorno para o investimento que fez num curso de 200, 500 horas, porque gastou os tubos pra estudar nos EUA com a Shiva Rea ou porque lhe arrancaram o couro pra conceder o certificado das três primeiras séries do Ashtanga Vinyasa Yoga. É hora da colheita e as pessoas vão ter que entender isso.

Outro exemplo é daquele rapaz, o Marco Schultz, que ministra cursos e satsangs. Ele ensina um negócio que ele chama de Yoga de Jesus. Nenhum cristão de verdade subscreve uma coisa dessas. Alguém que usa frases cheias de reticências e expressões como «sabe-se lá» e «eu acho»... Pô, sério? «Sei lá»?!? Ele acha que basta ser — aspas — do bem pra conseguir educar pessoas? Prefiro embarcar num ônibus conduzido por um cego.

Daí acontece uma coisa engraçada. Um professor desse tipo nunca tem certeza do que diz — basta ser do bem e, afinal, sei lá — então ele vai preferir não correr riscos e falar só de coisas universalmente aceitas e benquistas. Quem pode ser contra Krishna? Contra o — aspas — Yoga de Jesus? Quer algo mais do bem do que o yoga? E ainda por cima de Jesus? Isso é o que se chama de não assumir responsabilidades e eu quero distância de professores assim. Mas, ok, é necessário vender DVDs e cursos e sempre vai ter gente que acha que tocar harmonium é uma coisa muito especial e indiana, que só yogis genuínos conseguem fazer.

Tem uma porrada de exemplos assim. Na verdade, no yoga brasileiro, as pessoas só fazem isso: querem vender aulas, cursos e objetos, e fazem qualquer coisa pra colocar isso numa embalagem séria e tradicional. A criatividade é o limite, já a ingenuidade e a burrice dos consumidores é infinita.

E — Atualmente, seu trabalho no yoga resume-se à crítica?
CR — Eu tenho o yoga pra mim. Ainda estudo e pratico o yoga e ainda recebo orientações de meu professor. Essas coisas me bastam. Se acontecer de eu voltar a dar aulas, bom. Se tudo continuar como está, bom também.

E — É bem conveniente fazer críticas sem expor-se como professor, não? Digo, você nunca diz exatamente o que você pensa do yoga, a sua visão pessoal, como você ensina...
CR — Pelo jeito você esqueceu do que eu disse sobre visão pessoal do yoga.

Entenda uma coisa. Pra eu estar certo nas críticas que faço eu não preciso submeter a minha visão pessoal do yoga ao exame alheio. Eu não estou defendendo um sistema porque isso não é mais minha responsabilidade. Eu tinha essa responsabilidade com os meus alunos. Mesmo que eu volte a dar aulas, essa responsabilidade vai continuar limitada aos meus alunos e à tradição que eu decidi transmitir. Hoje, como não dou mais aulas, basta que eu me aprove e que meu professor me aprove.

Quem não quiser ser criticado, não desenvolva um trabalho público, não fale merda em público. Não tenha um blog, não divulgue seu — aspas — trabalho. Guarde sua visão pessoal do yoga pra si. Dê aulas na sala da própria casa, só pros parentes. Ou seja adulto e agüente críticas, oras bolas.

Não tem nada mais idiota do que esse papo de visão pessoal do yoga. É o que dizem por aí... a minha verdade... a sua verdade... e em seguida as duas coisas são colocadas na balança, pra ver quem tem mais peso etc. Pra quê? É um torneio? Em pouco tempo um monte de gente vai estar achando que yoga hormonal e hathayoga fazem parte da mesma categoria de objetos, só porque eles podem ser colocados em lados opostos da balança. O fato de você colocar um monte de merda de um lado e um pedaço de bolo do outro e eles terem o mesmo peso não significa que você deva comer o monte de merda. Um dos maiores problemas é justamente a crença de que tudo é yoga só por ter o nome de yoga.

E — O que eu quero dizer... o que você propõe? Quando perguntei do seu trabalho, eu me referia à sua missão no yoga. Mesmo que você não dê mais aulas, você deve ter um propósito. Você tem um site, tem algumas páginas no Facebook... você pretende algo...
CR — Ah, sim. Claro que pretendo algo com o yoga. Como eu disse, pra mim basta continuar estudando e praticando yoga e sendo orientado e aprovado por meu professor. O yoga poderia ficar só nisso pra mim. Mas eu gostaria de continuar compartilhando o que eu sei e o que eu vejo, apenas porque acho que isso pode ser útil pra outras pessoas. É por isso que levo um pouco a sério a tarefa de escrever artigos e bolar piadas.

Eu acho que falar mal e fazer piada do yoga moderno é algo importante, já expliquei isso. Quem propaga o yoga moderno merece ser criticado. Se as pessoas não conseguem entender piada e aceitar crítica, é porque não conseguem entender nada que não possa ser incluído na receitinha de bolo que elas chamam de yoga e porque não conseguem aceitar nada que não lhes dê aquela sensação gostosinha do shavasana ou daquele pisca-pisca anal que elas chamam de ashvini mudra. Não são adultos. É muito difícil fazer algo sério num ambiente desses. Seria mais fácil sair distribuindo pescotapas. Essa linguagem qualquer criança entende.

E — Pescotapas? [risos]
CR — Exato. Numa das poucas vezes em que eu estive dopado o suficiente pra participar de um satsang de uma dessas figuras da atualidade, a vontade que eu tive foi de subir no palco e lhe dar um pescotapa, ou de enfiar um fura-bolo babado na orelha dele. Algo do tipo: «cara, acorda, do que você está falando?» Na hora eu pensei: «meu, isso não é sério...» Era um papo viajandão, tipo surfista de filme, que não dizia nada com nada, e as pessoas saíram de lá mais entorpecidas do que antes, achando que viveram uma experiência iluminada, só porque um sujeito ficou falando coisas «do bem», com sorriso miguxo, porque no fim do satsang todo mundo se abraçou e teve gente que até chorou de emoção.


E — Se não me engano, aquele meme do Keyboard Cat na página do Yogi Satyavan falava disso, não?
CR — Sim. Se a gente pensar bem, boa parte do yoga no Brasil, no Ocidente, é como aquele lance da arte de vanguarda.

É como se as pessoas tivessem sido lobotomizadas e estivessem perdidas à espera de alguém que lhes dê uma direção. Elas praticamente pedem pra ser enganadas. Então, se você puser um gato tocando teclado e inventar uma dublagem pra fazê-lo falar coisas sem pé nem cabeça como «tão mais isso tudo pode ser, sabe-se lá», é bem provável que a coisa cole e que o gato se torne um guru. Você viu o filme Kumaré, não? [trailler aqui]

E — Vi sim, eu ia justamente lhe perguntar desse filme quando você disse que as pessoas pedem pra ser enganadas. [a resposta a seguir tem um spoiler do filme]
CR — É um bom exemplo de como as coisas andam funcionando no Ocidente. No Brasil não é diferente. A maioria das pessoas realmente está à espera de alguém que lhes mande montar um altar com fotos aleatórias e que lhes desenhe um pênis na testa. Uns anos atrás encontrei uma pessoa, praticante antiga de diversos métodos modernos, que dizia que o objetivo dela era o yoga hormonal. Cara, que porra é essa?

E — Isso dá um meme. [risos]
CR — Claro que sim, porque é uma situação tragicômica. É como se a pessoa dissesse «meu objetivo no yoga é ser enganada». Um tempo depois descobri que ela havia deixado o yoga. Foi cuidar da vida e parou com aquela besteira toda. Bom pra ela. Mas, voltando ao filme, o que aquele cara fez foi algo sensacional. Você vai publicar um resumo pros seus leitores ou quer que eu faça isso aqui?

E — Prossiga. [mais spoilers a seguir]
CR — Bem. Kumaré é um filme-documentário sobre um falso guru. Um americano com ascendência indiana decide se tornar um guru de mentirinha, organiza um sistema, deixa a barba crescer, ensaia um sotaque convincente, ensaia trejeitos, elabora uma doutrina, com rituais, com roupas adequadas, com ajudantes que servem como secretárias e divulgadoras dele. E assim ele vai conquistando adeptos, que não desconfiam que ele é uma fraude. Os depoimentos dos alunos são comoventes. Alguns parecem realmente transformados pelos ensinamentos de Kumaré. Mas aquilo tudo é falso. Não vou contar o resto senão perde a graça. O filme é um excelente retrato do que o yoga é hoje em dia: 99% enganação, sem qualquer tipo de ascendência anterior a Krishnamacharya.

E — Kumaré serviu de inspiração para o Yogi Satyavan?
CR — Mais ou menos. A idéia de criticar essa ingenuidade do Ocidente com coisas orientais é parecida. Mas Kumaré se coloca como um guru de verdade e a obra em questão é um documentário. Yogi Satyavan é um personagem mais simples, sem grandes pretensões. A obra dele são piadas, memes. Não espero que as pessoas o levem a sério, mesmo quando surge um ashtangi querendo discutir a tradição do yoga com ele.

E — Bom, estamos terminando a entrevista. Fique à vontade para falar o que quiser, professor. Alguma mensagem especial para os nossos alunos e leitores? Alguma recomendação?
CR — Primeiramente, convido todos a acompanhar meu site, curtir minhas páginas no Facebook [link 1 e link 2] e publicar suas perguntas no Formspring do Yogi Satyavan.

Em segundo lugar, não leve o yoga muito a sério. O yoga não foi feito pra isso. Saiba rir do que você faz. Reverência é algo que se oferece ao guru em circunstâncias muito especiais, e no yoga moderno não existem gurus. São todos fakes. Quem não é fake está fora do circuito. Não aparece em revistas. Não dá a mínima pra essas coisas. Quer apenas e sinceramente transmitir o yoga. Aceita discutir e ouve críticas com interesse e sinceridade, não como se fossem ofensas pessoais. Não perde tempo querendo vender mais uma merda de um método que foi criado na California, nos anos 90, ou coisa pior. Seja sério no estudo, na prática, na dedicação ao samadhi, não na tarefa ingrata e burrinha de ficar carregando uma franquia nas costas.

Em terceiro lugar, se você escolheu trabalhar com yoga, azar o seu. Ninguém tem a obrigação de respeitar isso. O mundo de hoje precisa mais de padeiros, carpinteiros e costureiras do que de empresários do yoga. É claro que é seu direito trabalhar com o que você quiser, mas, como eu disse antes, onde há comércio não há yoga. Uma empresa de yoga é uma contradição em termos. Mesmo que ela se chame escola, instituto, estúdio e tenha uma aura de filantropia e desapego, ela continua sendo uma empresa e o dono vai querer que ela dê lucro. E isso nada tem a ver com samadhi.

Só isso.

E — Ok, professor. Muito obrigado pela entrevista. Foi um prazer conversar com você.
CR — Eu que agradeço o interesse e a oportunidade. O prazer foi meu.



9 comentários:

mario disse...

longo e bom texto.
tipo um grande desabafo .
resumiu a yoga a encontrar um verdadeiro guru.
-bom.
deveriam publicar a entrevista, mas certamente cortariam parte e isto não seria adequado.
vá em frente e seja um yogue verdadeiro.
claro que ri da entrevista,
concordo com a metade .
e a verdade nunca esteve escondida.
se realmente despertou ,pode acordar os outros...

Michel Rodrigues da Silva disse...

hahahahahaha
Muito bom, parabéns.

Christian, você já viu este blog budista?
http://chakubuku-aryasattva.blogspot.com.br/

É de um monge da tradição tendai. Ele desce o cacete em praticamente tudo que modernamente chamam de "budismo". É um esforço similar ao seu.

Christian Rocha disse...

Obrigado pelo comentário e pelos cumprimentos, Michel.

Não conhecia esse blog. Dei uma olhada, achei muito bom. De fato, tenho notado também vários desvios 'modernos' no Budismo. Talvez um dia o Ocidente compreenda o Oriente, em vez de o consumir apenas. Obrigado pela dica.

Emanuel Canton Caetano da Silva disse...

Olá Christian
Muita seriedade e compromisso nos posicionamentos.
As contradições são inevitáveis na atividade humana.
A escola que não ensina, o governo que não governa, o hospital que não atende ...
Eu não possuo conhecimento para falar do mundo do yoga mas me parece muito difícil trazer - uma cultura milenar e totalmente diferente - para os padrões ocidentais, principalmente nos dias de hoje onde a urbanização e a alienação consumista desvinculam cada vez mais as pessoas de sua essência.
Parabéns pelo seu compromisso com o que faz.

Emanuel Canton Caetano da Silva disse...

Christian
Uns podem te chamar de cri-cri mas eu entendo seu compromisso de fazer bem feito o que se propõe.
Sem a grana não dá pra fazer nada. Não dá para fazer como antigamente levar uns ovos da minha galinha de presente para o professor pois ele precisa morar, etc..
Não estou credenciado para falar sobre o yoga, embora não conheça melhor alternativa disponível para a conecção com o nosso ser neste seculo 21 tão alienante.
As contradições existem em qualquer atividade humana. A escola que não ensina, o governo que não governa, a igreja que explora, o hospital que não atende, .No mundo globalizados onde as grandes corporações monopolistas governam os homens e governantes desses homens com o objetivo de maximização de lucros, a contradição se acentua no aprofundamento do processo de urbanização global e na alienação consumista decorrente.
Trazer à tona uma cultura milenar como o yoga, desenvolvida num ambiente histórico e geográfico totalmente distinto do observado atualmente no ocidente, naturalmente gerará contradições.
Lendo a entrevista me lembro do João Batista clamando no deserto, do Ghandi e agora do Mandela. Eles conseguiram, sao essas pessoas que importam para o florescimento do bem....
Parabens e não desista

Espaço pratiqueyoga disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Gabriel Almeida disse...

Li novamente essa entrevista e olha, é difícil MESMO encontrar tanta coerência no "mundinho do yoga". Sensacional.

Danielly Lemos disse...

Impressionante tudo que escreveu.
Nunca ví ninguém e nem lí nada tão contindente falando sobre yoga.
Voltei aquele momento "só sei, que nada sei!"
Retomar todas as escrituras com esse olhar. Remontar tudo que foi aprendido, ensinado e compartilhado por décadas não será uma tarefa fácil sem um norte real.
Estou em profunda reflexão, mas enquanto não compreendo o que é o caminho de toda desconstrução preciso seguir o que acredito pra mim.
Estou sinceramente pensativa, mas sem o que fazer diante de todo investimento (de tempo, dinheiro e crença) que já fiz.
O que vejo e o que são tudo que participo de acordo com o que lí aqui e não descordo são pura ilusão. Me pergunto o que não é ilusão? Onde está a verdade? Quem de verdade irá ensinar?
Onde estão as referências? Vou pelo caminho que o meu eu se sente bem? Onde está o meu eu, se sou parte das referências, das mutações e de tudo vivido?
Nada é real
Confusa e grata por esses minutos de reflexão.

Christian Rocha disse...

Danielly,

não sei se você apenas «pensou alto» ou se fez perguntas objetivas -- suporei isto em vez de aquilo.

Suas perguntas são parecidas com as que me fiz quando comecei a perceber o lodaçal que é o yoga moderno -- que, como você deve ter percebido, eu sequer considero ser yoga.

Mas o primeiro passo é esse mesmo: perceber que «desse mato não sai cachorro»; saber que, num oceano de dezenas, centenas de «studios» não há uma única alma capaz de lhe dar respostas objetivas e concretas. Tudo hoje se resume a «eu acho que», «essa é a *minha* compreensão do yoga», «essa é a minha verdade» e subjetivismos similares. Em outras palavras, pessoas que hoje estão no topo da pirâmide do yoga estão no máximo ensinando não uma tradição, mas a impressão que elas têm do que essa tradição é ou deve ser.

E se realmente ninguém pode ajudá-la, quem pode ajudá-la?

De minha parte, posso dizer que confio mais em textos antiqüíssimos, como os Upanishads e os Hathayoga shastras, do que no que qualquer instrutor de sistemas modernos possa querer transmitir. Não que você não possa se beneficiar em alguma medida com esses sistemas, mas, como repito com freqüência, é necessário estudar esses sistemas tendo em vista as bases lançadas pelos antigos, não o contrário.

Se, por exemplo, você se dedica ao método Iyengar ignorando que «yoga é samadhi», logo irá achar que a perfeição postural proporcionada por esse sistema de fisioterapia indiana é o máximo que o yoga pode oferecer. Se, em vez disso, você começa sabendo que «yoga é samadhi» e então decide se dedicar à educação postural com o método Iyengar, conseguirá situar a prática postural dentro de um quadro maior e perceberá que esse tipo de prática constitui uma parcela infinitamente pequena de uma espécie de pré-yoga.

E por aí vai.

Boa sorte em sua busca. Querendo, retorne aqui ou em meu email.