16 dezembro 2014

A parte e o todo



Imagine um carro. Ele é composto de diversas partes -- pneus, motor, volante, assentos, lataria, chassi etc. Se você for a uma concessionária para comprar um carro e o vendedor lhe entregar apenas as chaves e um volante e disser "aqui está seu carro", você certamente vai achar estranho. Se ele disser ainda que "todo carro tem volante, logo um volante também é um carro", você vai achar ainda mais estranho.

Suponhamos que este vendedor, depois que você demonstrou que o que ele disse é absurdo, encontre o carro que você deseja. Mas há um detalhe: o carro não tem volante. Você compraria o carro? Ajudaria se o vendedor abrisse o porta-malas e colocasse nele o volante que ele tentou lhe vender no início dessa história? O carro estaria completo, não?

A história acima é semelhante ao que se faz com o yoga hoje em dia.

Como um carro ou um ser vivo, o yoga é composto de diversas partes. Retirar uma dessas partes significa inviabilizar o todo e cada uma das partes, inclusive a parte retirada. O fato de cada parte ter uma utilidade ao ser tomada isoladamente não significa que esta utilidade seja idêntica à utilidade que a parte tem quando está devidamente integrada ao todo -- tampouco corresponde à utilidade que o todo possui.

Um exemplo clássico e recorrente é o dos asanas. Inseridos num conjunto que começa com yamas e niyamas e estendem-se até samadhi, incluindo práticas de purificação e estabilização do corpo, os asanas têm um significado e uma função. Retirados deste contexto, eles perdem seu significado e sua função originais.

Muitas pessoas argumentam que, ainda no caso dos asanas, os benefícios são palpáveis, reais e numerosos. Não discuto isso, porque já os experimentei. Mas girar um volante solto no ar e fazer "vrum vrum", por mais divertido e prazeroso que seja, não é o mesmo que dirigir um carro. O risco a que o praticante se expõe ao colocar todas suas energias numa única prática isolada e deslocada de um conjunto maior -- como no caso dos asanas -- é o de tomar a parte como o todo e, claro, nunca experimentar o todo, tampouco vislumbrar que o todo existe.

Mesmo que a experiência do todo não seja acessível a todas as pessoas, faz muita diferença ter uma experiência quando se tem em mente que ela se insere num conjunto de experiências específicas, com propósitos específicos. Em outras palavras, mesmo que você se dedique apenas à prática de asanas, faz muita diferença saber como e por que eles estão inseridos no conjunto chamado yoga. No mínimo, você não comprará um volante achando que comprou um carro, tampouco achará que basta manter o volante no porta-malas para que um carro possa ser usado como tal.

***

Assim como o yoga é composto de partes e estas partes se integram para formar um todo (o próprio yoga), o praticante também é composto de "partes" e é adequado quando todas essas "partes" são usadas de forma integrada na prática e no estudo do yoga.

Uso aspas aqui por uma razão simples: no caso do indivíduo praticante de yoga não existem "partes", existe apenas o todo. Simplesmente não se pode excluir a mente quando se praticam asanas, assim como não se pode excluir o corpo quando se estudam os shastras ou se recebem ensinamentos de um guru num satsang.

O ser humano é uno. Logo, o yoga também deve ser.

Um comentário:

Quil disse...

Brilhante!
Sempre divertido!

Chegará a todos, um dia, o entendimento que inspira suas palavras, certamente, eu tenho fé. Por isso é tão bom que você esteja trabalhando com dedicação neste intuito.