12 dezembro 2014

Afinal, qual o problema com o «yoga moderno»?


Antes de responder a pergunta, chamo de «yoga moderno» a maioria dos métodos de Hatha Yoga criados nas últimas cinco décadas. As exceções são aquelas que admitem a existência do Hatha Vidya, dispensam criações e recriações e que demonstram interesse sincero em trazer à tona aquilo que foi feito pelos antigos nathas (os fundadores do Hatha Yoga) e que continua sendo feito pelos nathas atuais. De tão excepcionais que são, estas formas mais tradicionais é que são consideradas exóticas e extravagantes hoje em dia. Mas deixemos a tradição para outro texto e prossigamos.

A maioria dos métodos de Hatha Yoga da atualidade descende de Krishnamacharya ou foi influenciada por ele e por seus discípulos diretos, como B. K.S. Iyengar (do método homônimo) e Pattabhi Jois (do Ashtanga Vinyasa Yoga). Estes professores foram os principais impulsionadores da idéia de que prática de yoga é, basicamente, prática de asana. Iyengar afirma com todas as letras que asanas e pranayamas bastam; Ashtanga Vinyasa Yoga, de ashtanga só tem o nome.

Em paralelo, e apoiados nessa idéia, há ainda os yogaterapeutas e, no limite extremo entre yoga e bhoga (termo que a grosso modo significa «anti-yoga»), os métodos criados nos Estados Unidos (graças à influência entorpecente do mercado).

Para colocar de forma breve, o problema do «yoga moderno» é apenas um: a busca por resultados. É evidente que todo praticante busca um resultado, mas no yoga ele é apenas um: moksha, a libertação. Portanto, o plural não serve.

Para compreender melhor isso, tomemos como base a divisão clássica da sadhana de Patañjali: bahirangas (práticas externas) e antarangas (práticas internas). Os bahirangas têm como objetivo a construção de uma base física, mental e energética para os antarangas. Em outras palavras, pratica-se asana para conseguir praticar samyama. Esta afirmação implica a sugestão de que uma coisa vem após a outra; alguns leitores poderão querer entender que uma coisa causa a outra. Estejam à vontade. Por hora o que importa é compreender que
i) o propósito dos bahirangas não é atingir a perfeição nestas técnicas e
ii) há técnicas importantes depois dos bahirangas.

O advento dos métodos modernos mudou isso. O objetivo das práticas externas passou a ser a perfeição técnica. Surgiram discussões sobre o número ideal de respirações em cada postura e outras coisas piores que não merecem ser citadas aqui. Todas estas coisas coincidem na busca por resultados, não apenas para as outras pessoas (como quando se demonstram alguns asanas diante de pessoas que ficarão embasbacadas com a habilidade corpórea do praticante), mas resultados para si mesmas (isto é, o próprio praticante fica embasbacado com a conquista de uma determinada técnica).

A rigor, não há nenhum problema nisso. Se o yoga é um caminho individual e tudo que o praticante busca é continuar praticando, o que ele faz no isolamento de sua prática não é da minha conta. O problema surge quando o praticante se coloca na senda do yoga em busca daquilo que ao longo dos séculos (e até hoje) se diz que é yoga. Até mesmo os criadores dos métodos modernos concordam que o objetivo do yoga é um só; a maioria concorda com Patañjali e com sua ordenação em oito (asht) partes (anga); a maioria, mesmo os mais fissurados no desenvolvimento físico, admite que o objetivo não é o corpo. No entanto, o resultado usual, a experiência mais significativa, o «produto» oferecido e o tipo de gente que floresce dessas práticas estão mais próximos das aulas de ginástica localizada do que das práticas espirituais. Não pretendo estabelecer qualquer juízo sobre o que é «espiritual». A mim, por enquanto, basta que o leitor não tenha dúvidas de que estou falando de duas coisas diferentes e de que elas realmente são diferentes -- aulas de ginástica e práticas espirituais.

Se o objetivo do yoga é um só, é realmente possível que tantos métodos diferentes -- que continuam sendo diferentes às vezes desde a raiz mesmo quando todos coincidem no uso do nome «yoga» e em sua condição de «método moderno» -- consigam produzir esse mesmo e único resultado?

Um comentário:

Lea Terra disse...

Christian. Enfim uma abordagem corajosa d descaminhos a q o Yoga foi arremessado...dpois d 23 anos cansei d sugerir q Yoga Não é. ..Adoto a Meditação e os YS d Patanjali. Te conhecendo posso ratificar jto aos sadhakas...grata mesmo! om shanti