05 dezembro 2014

Perguntas e respostas



Para que serve o yoga, afinal?
Vyasa, nos comentários à obra de Patanjali, dizia: «yoga é samadhi». Esta é a lição definitiva. Quando isso sai da boca de alguém que ensina vinyasa, você desanima e vai embora. Em um guru verdadeiro a frase de Vyasa é uma realização, uma mensagem viva, não um slogan.

Mas melhora nossa vida? Como? Por que?
Conseqüências «práticas» do samadhi: autoconhecimento, consciência da imortalidade. A utilidade destas duas coisas é bastante clara, mas há outros meios de obtê-las, o yoga é um deles.

É possivel atraves do samadhi entrar em contatos com seres extraterrestres e outras dimensões? Reencarnação existe de fato?
Estas perguntas não fazem sentido no yoga.

Mas e viver de luz? E o contato com mestres ascensionados que ajudam a terra? Isso é possível?
Sei lá.

Uma vez ouvi de um professor: «viver uma vida de yoga é escolher o caminho da não-violência, de ahimsa, de não ferir ninguém, nem por palavras nem por ações». Está correto?
Ahimsa é o primeiro estágio do primeiro estágio (yamas, preceitos morais) do yoga. Definir «uma vida de yoga» como «respeitar ahimsa» é como dizer que viver como adulto é saber trocar as próprias fraldas.

Mas dizer que um verdadeiro yogi procura não ferir os outros em palavras ou pensamentos está correto?
Um estudante de yoga pode procurar não ferir os outros, pois esta disciplina de não-violência pode ajudá-lo a evitar problemas no caminho do yoga. Um yogi não se preocupa com essas coisas.

Então aqueles sete angas que precedem o samadhi podem ajudar a não ter problemas também; para ser um yogi não precisa necessariamente disso então, basta ir direto a prática de meditação para quem sabe um dia alcançar este estado de yoga (samadhi). É isso?
Depende muito do que você quer dizer com «ir direto para a prática de meditação». Se você se refere a sentar-se e ficar em silêncio e observação e auto-observação, você vai notar que shatkarmas, asana, pranayama são uma ajuda enorme.

A questão é que o que transcende necessariamente inclui. Se para iluminar-se você precisa «deixar o corpo de lado» ou ignorar qualquer disciplina corporal, isto não é iluminação, é experiência esotérica. No samadhi o indivíduo inteiro se ilumina, desde os níveis mais brutos e básicos (corpo, instintos) até os níveis mais sutis e superiores.

Como é a experiência do samadhi? O que se sente, se vê ou se escuta?
Há inúmeros relatos sobre a experiência do samadhi, todos obviamente incompletos porque as palavras são limitadas. Não é possível descrever com palavras algo que transcende as palavras.

Se o iluminado vive permanentemente nesse estado ele nem entra em contato mais com humanos? Há vídeos em que o samadhi parece uma espécie de transe.
A iluminação se expressa para os não-iluminados de diversas formas.

Se o iluminado estiver sempre em samadhi ele não precisa nem comer? Pode ser?
Isso eu não sei.

Yogis podem ter poderes de telepatia etc.?

Olha, a tradição do yoga não é a Fundação Xavier.

Nathayogis podem ter esposa?
Sim, nathayogis podem ter esposa e família.

Qual seu emprego? Você toma bebidas alcolicas e/ou fuma algo? Para os yogis estas coisas são proibidas?
Não falo da minha vida pessoal. Aliás, evito falar de 'work in progress'.

Álcool, tabaco e outras drogas não são proibidas para um yogi. Aliás, nada é proibido para um yogi, já que o yoga não tem relação com regras sociais. Isto não significa que ele possa usar, queira sempre usar ou efetivamente use essas substância. Significa apenas que a consciência do yogi estabelece uma relação muito diferente do que normalmente se vê em pessoas comuns que consomem essas coisas. O yogi é livre.

Qual o objetivo na vida de um yogi? Procurar discipulos? Dar aulas?
O yogi verdadeiro não tem objetivo na vida. A libertação implica a compreensão (supra-racional) de que a vida não tem começo e não tem fim. Logo, não faz sentido estabelecer um objetivo. Humanamente falando, o yogi permite que o fluxo natural dos acontecimentos o conduza -- como Nisargadatta, que ensinava porque pessoas tinham interesse no que ele transmitia, vendia cigarros e roupas de bebê por causa de necessidades simples etc. Há yogis comerciantes, empresários, professores, advogados etc. Novamente, a realização no yoga não implica nem exige realizações específicas no plano social, implica apenas a plena liberdade de não depender dessas realizações para encontrar sentido nesta vida.

Penso agora que o yoga é para poucos escolhidos, ou melhor, para quem já nasce no meio, para indianos mesmo. O que levaria um ocidental a tornar-se um yogi? Libertar-se dos sofrimentos mundanos?
E isso não é razão suficiente?

Se você notar que o sofrimento é parte da condição humana e nada tem a ver com nascer no ocidente ou no oriente, você compreenderá que a busca pelo fim do sofrimento (através da disciplina do yoga, por exemplo) é uma aspiração humana básica.

O problema é que desde que o yoga veio da Índia ele tem sido compreendido à luz dos inúmeros adornos e trejeitos indianos que tanto interessam aos ocidentais, sobretudo aqueles que foram fisgados pelos dogmas da New Age. Ainda que seja interessante estudar uma cultura exótica, não é o exotismo que levará ao fim do sofrimento.

Se eu quiser experimentar esta libertação alcançada através do yoga, o primeiro passo é encontrar um guru que me aceite como aluno?
Sim.

Se isso não for possível -- no Brasil, que eu saiba não há guruyogis, embora haja gurus de outras tradições indianas --, o jeito é dedicar-se intensamente à disciplina da meditação, começando pelo fato de que esse termo (meditação) já implica uma grande dose de confusão.

Meu professor dizia: "silencie e crie calos na bunda" (referindo-se à necessidade de se dedicar ao samyama caso se queira compreender algo no yoga).

Como você começou no yoga?
Comecei no yoga como a maioria das pessoas começa: procurando auto-desenvolvimento físico e mental. Eu já era professor de aikido e estava procurando algo que eu pudesse praticar sem precisar de um lugar específico (artes marciais em geral exigem um salão com tatame) e sem precisar de um parceiro de treinos.

Estranho que havia a página do seu professor com vários videos e agora não tem mais; talvez tenha se arrependido de algo ou recebeu ordens superiores. Já vi que o yoga sempre tem um pouco de mistério...
Eu nunca questionei as ações do meu professor simplesmente porque essas coisas não são da minha conta. Sua única responsabilidade, como guruyogi, é orientar-me para a prática do samadhi. Eu, como discípulo, devo-lhe fidelidade e respeito integrais.

A resposta para a pergunta «quem sou eu?» é consciência?
A resposta no final é: tanto faz. Como adverti naquele artigo que recomendei a você, se você transformar a resposta em uma palavra, logo você estará transformando a palavra em coisa e a coisa se tornará um peso inútil. Palavras expressam apenas o que pode ser expresso em palavras.

Você acredita em reencarnação?
A melhor resposta à questão do pós-vida já havia sido dada por Confúcio. Trecho dos Analectos:

Ji Lu perguntou sobre o culto dos mortos. Disse-lhe o Mestre: -- Quem não sabe servir os vivos, como há de saber servir os mortos? -- E que me dizeis sobre a morte? Respondeu Confúcio: -- Se não sabeis o que é a vida, como haveis de saber o que é a morte?

4 comentários:

editor disse...

quem está respondendo a essas perguntas?

Christian Rocha disse...

http://www.templodoyoga.org/p/templo-do-yoga.html
«– Os escritos que porventura não tenham indicação do autor são originalmente de minha autoria -- Christian Rocha / Templo do Yoga.»

Quil disse...

Ai palavras, ai palavras… naturalmente insuficientes e geradoras de mal-entendidos… mas sempre tão suficientes em tuas falas.

Eu curto muito as partes em que rolo de rir deliciosamente!

A mim toca perguntar: quem é o “editor 6”?

Christian Rocha disse...

Obrigado, Quil. ;-)