21 maio 2016

Guia Prático e Definitivo para Entendimento e Exercício de Satya

 

Satya é uma palavra do sânscrito que significa verdade. Na tradição do yoga, satya é um dos yamas definidos por Patañjali; na ordem proposta pelo mestre em sua consagrada obra Yoga Sutras, trata-se do segundo yama. Os yamas são usualmente entendidos como regras para convivência com outras pessoas -- o que modernamente pode-se chamar de princípios morais.

Por ser um yama, isto é, por ser uma regra de convivência, satya com freqüência é entendido como «não mentir». Este entendimento é correto mas superficial, porque há situações do convívio social em que a mentira é necessária. Um exemplo extremo e recorrente quando se discute a moral social é aquele que aparece no início do filme «Bastardos Inglórios»: o oficial alemão bate à porta de um fazendeiro francês no período da ocupação nazista e lhe pergunta se ele está escondendo judeus em sua propriedade, o que ele de fato havia feito -- dizer a verdade significaria condenar aquelas pessoas à morte.

Porém, como qualquer coisa que se faça no yoga, satya deve ser compreendido à luz do samadhi, não à luz das regras sociais. Dito de outro modo: satya deve ser entendido e trazido ao dia-a-dia como uma parte do conjunto de práticas e condutas que conduzem à libertação. Isto amplia enormemente a compreensão que se pode ter de satya e, claro, amplia também as possibilidades práticas deste yama.

Um exercício que eu propunha com freqüência a meus alunos era repetir para si mesmo algumas perguntas decisivas (o leitor também se beneficiará se der uma olhada neste artigo).

A primeira e mais simples destas perguntas é: o que eu estou buscando? As respostas mais comuns são reflexos dos rodopios mentais que as pessoas carregam quando saem em busca de orientação para a prática do yoga. Muitas dizem que estão buscando saúde; outras dizem que estão buscando calma; outras querem fortalecer o corpo e torná-lo mais flexível.

É claro que estas declarações são válidas não como respostas diretas à pergunta inicial, mas como subterfúgios através dos quais as pessoas a evitam. Saúde, calma, fortalecimento corporal não são fins em si mesmos; tem-se saúde para algo, para que se possa, por exemplo, viver uma vida melhor. A primeira pergunta trata justamente desse melhor: o que todos nós buscamos através do yoga é melhorar em todos os aspectos, mas melhorar para quê?

Meu professor com freqüência fazia essa pergunta para mim: o que você está buscando? Ou: o que você realmente quer? Eu com freqüência não sabia o que responder. Terminei muitas aulas com essa pergunta na cabeça. Muitas vezes a idéia do samadhi vinha à mente e, embora isso ainda fosse apenas uma idéia nebulosa numa mente turbulenta, era também um lampejo que ajudava no difícil processo de aprimoramento da percepção da realidade.

Outras perguntas decisivas na verdade são simples desdobramentos dessa primeira pergunta, assim como algumas recomendações, que são mais práticas do que parecem:

1) Não minta para si mesmo. Nunca. Isto não significa apenas «reconhecer e respeitar os próprios limites ao realizar um asana» -- como dizem os artigos bobos em revistas de ginástica que tratam de «satya na prática» e que usam expressões esquizofrênicas como «viver a sua verdade» --, mas principalmente saber diferenciar o papel que você precisa cumprir num determinado momento da pessoa que você realmente é. Por exemplo, seu chefe não está interessado se você é um amante de poesia francesa do séc. XIX; sua sensibilidade para poesia não o fará mudar de idéia sobre o relatório que você deve entregar até 17:00. No entanto, o fato de às vezes precisar cumprir papéis não significa que você precise cumpri-los para você mesmo. Mesmo que você ainda não saiba se você só é você quando se encontra despido de todos esses papéis ou quando experimenta a soma de todos eles (supondo que isso seja possível e desejável), o mais importante é vivenciar situações em que esses papéis são deixados de lado -- samyama é exatamente isso.

2) Reconheça que a verdade existe. Admitir que existe uma resposta para aquela primeira pergunta implica admitir que a verdade existe. E se a verdade realmente existe, ela não pode ser cristalizada num verbete ou num bibelô, embora possa ser vislumbrada a partir destas coisas (porque um verbete diz algo a respeito da verdade) e possa ser encarnada numa pessoa (um ente que teve uma origem e que tem uma história). Só se pode perceber todos os movimentos e turbulências a partir de uma base estável. Dizer que esta base estável é satya é caminhar em círculos: como se dá a existência de satya? Talvez você descubra que esta base estável é você.

3) Abandone, de uma vez por todas, expressões como «minha verdade», «sua verdade» etc. Entenda que a verdade não é algo que se possa possuir e busque a verdade que subjaz em cada uma das «verdades» dissonantes. Num nível intelectual, isto pode ser representado pelo processo dialético, que consiste no confronto de idéias dissonantes até que alguma síntese possa florescer. Isto é o que qualquer pessoa mentalmente saudável faz quando precisa tomar uma decisão ou avaliar uma situação: a metáfora da balança na qual colocamos prós e contras relacionados a uma determinada ação que precisa ser realizada nada mais é do que o bom e velho confronto dialético de teses e antíteses.

4) A meditação, em sua versão ocidental, é mais importante do que parece. Nas tradições espirituais e filosóficas do ocidente, meditar é o que muitos chamam de «ficar remoendo pensamentos». É uma expressão triste, que revela o desprezo que as pessoas desenvolveram nas últimas décadas a partir da contaminação com modas da Nova Era baseadas em interpretações porcas das tradições orientais. Na verdade, as modalidades ocidentais de meditação consistem em percorrer o caminho que leva à origem das próprias idéias, que é o primeiro passo para distinguir você de seus pensamentos. O exame de consciência, tal como aparece na tradição católica e que resiste bravamente como um dos poucos elementos de autoconsciência em sociedades decadentes, nada mais é do que uma forma de meditação. Na origem de todos os problemas emocionais e sociais é fácil entrever a ausência do exame de consciência e, portanto, das formas ocidentais de meditação.

5) Aliás, o exame de consciência do cristianismo católico tem muitas semelhanças com svadhyaya, o auto-estudo, quarto niyama do sistema de Patañjali, e, de forma menos específica, com atma-vichara, conforme ensinado por outro mestre, Ramana Maharshi.

Com efeito, a pergunta decisiva não é apenas sobre seus propósitos, mas sobre você mesmo, sobre quem você é. A verdade existe e ela começa no testemunho pessoal e individual sobre a própria existência.


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