19 setembro 2016

Mais 7 coisas que seu professor de yoga nunca vai lhe dizer


1) Eu não sei o que é um guruyogi.


Se você perguntar ao seu professor sobre a definição de guru, ele lhe oferecerá explicações impecáveis que começarão com a etimologia do termo («aquele que remove a escuridão» etc.) e se estenderão até os exemplos de grandes gurus ao longo da história. Mas se você perguntar ao seu professor se ele mesmo é um guruyogi ou se foi orientado por um, não se surpreenda com a embromação que se seguirá -- cujo propósito é esconder o fato de que ele ignora o que realmente é um guruyogi.

A regra no Ocidente e sobretudo no Brasil é acreditar que guruyogis são seres mitológicos que aparecem nos versos das escrituras. Guruyogis vivos? «Não existe isso». Mas o yoga não é uma tradição? E uma tradição não depende da existência de pessoas formalmente iniciadas nessa tradição para que ela própria possa continuar existindo?

O yoga no Ocidente e em especial no Brasil é liderado e conduzido por uma legião de órfãos, gente que jamais teve acesso a um guruyogi, a não ser para fins turísticos, em «viagens de yoga» a Rishikesh. Para essas pessoas, um guruyogi verdadeiro é uma espécie de mistura de professor Xavier e tinta azul.

2) Eu não sei o que é samadhi.

Aqui as coisas ficam mais engraçadas.

Se você perguntar ao seu professor o que é samadhi, ele lhe dirá que o samadhi é a realização máxima do yoga. Poderá, ainda, traçar paralelos entre o samadhi e o que no Budismo se chama de nirvana ou iluminação.

O que ele não dirá é que o samadhi é uma prática, não uma realização. A comparação com o nirvana pode ser válida para fins didáticos, já que a noção de nirvana é bastante conhecida no Ocidente a partir da cultura da Nova Era. Mas os fins didáticos são limitados; depois que o indivíduo largou as fraldas é adequado usar fontes consistentes.

Os próprios Sutras de Patañjali explicam que o samadhi é o último estágio da disciplina do yoga. Estágios de uma disciplina têm, por definição, propósitos práticos bastante claros. E o objetivo de uma prática nunca é a própria prática, é claro. Em resumo, a prática é o samadhi, a realização é moksha, a libertação -- esta, sim, a realização última do yoga.

Mas, voltando ao que o seu professor não dirá a você: a verdade é que ele não pratica samadhi, provavelmente porque aprendeu que o samadhi não era uma prática e era, em vez disso, uma realização, a meta definitiva do yoga. Ele aprendeu também que o samadhi era algo para os semi-deuses do yoga e que, portanto, não se tratava de algo possível para mortais comuns.

Ele aprendeu -- e ensina -- isso porque, como digo no item 1 deste artigo, ele não sabe o que é um guruyogi, porque, afinal, aprendeu yoga com professores que dão aulas de anatomia e ensinam que o cérebro está no corpo todo. O máximo de samadhi que essas pessoas conhecem é o que aparece naquela famosa foto de Ramakrishna -- enfim, um cartão postal.

3) A tradição que eu ensino começou na década de 1980.

...Ou 1970 ou 1960, tanto faz.

É bom deixar claro: quem ensina yoga com props, com vinyasa, com dança, em duplas, com regras de alimentação, com djideridoo ou harmonium ao vivo etc. está ensinando qualquer coisa, menos a tradição do yoga.

Se você acordou de mau humor, poderá querer argumentar que «a tradição do yoga» virou uma espécie de marreta dourada nas mãos de pessoas intolerantes como eu. Explicarei apenas uma vez: no contexto dos artigos que publico aqui em meu site, «a tradição do yoga» é qualquer coisa que preserve um mínimo de fidelidade ao que as escrituras e os guruyogis ensinam.

A peça de propaganda que mostra aquela senhorinha que realinhou a coluna e reconquistou uns centímetros de altura «graças ao yoga» é de uma desonestidade atroz. Aquilo não prova nada sobre o yoga, prova apenas que as pessoas -- que aplaudiram efusivamente o vídeo -- não sabem mais diferenciar uma tradição genuína de um sistema de fisioterapia. Se, novamente, você acha que estou sendo intolerante, diga-me: quantas vezes Patañjali menciona as palavras «postura», «coluna» e «alinhamento» em seus Yoga Sutras? Valendo.

4) O yoga não serve para nada.

O leitor poderá aqui voltar ao episódio da senhorinha que realinhou a coluna e reconquistou uns centímetros de altura «graças ao yoga» para argumentar que o yoga serve, sim, para muitas coisas. Seu professor poderá trazer histórias pessoais -- dele próprio e de seus alunos -- que dão força para essa idéia.

De fato, há sistemas disciplinares inteiros que se apóiam na idéia do «utilitarismo do yoga». É o caso da Yogaterapia, do Power Yoga e do Iyengar Yoga, sistemas disciplinares inteiros que tem como objetivo o alinhamento postural e/ou o fortalecimento muscular.

Mas a verdade é que o yoga não serve para nada. Se olharmos mais uma vez o que ensina Patañjali ou os nathas ou mesmo os mestres do séc. XX, como Ramana Maharshi, Nisargadatta Maharaj, Ramakrishna e Shivabala Yogi, veremos que o propósito de yoga é «abrir o indivíduo à realização da Verdade Suprema». A expressão pomposa contrasta com a impressão que muitas pessoas têm: quando visto desde fora, o samadhi parece uma espécie de catatonia.

Quando digo que o yoga não serve para nada, não significa que o yoga é inútil, significa apenas que o yoga situa-se num plano diferente daquele que classifica as coisas e os fazeres entre úteis e inúteis -- e apenas isso.

Em resumo, o que nenhum professor explicará a você é que no emaranhado de técnicas úteis (pranayama melhora a capacidade respiratória, anteflexões acalmam, retroflexões encorajam etc.), há um sem-número de ações e atitudes que refletem o «anti-utilitarismo do yoga», uma qualidade que permite que o praticante possa enxergar o próprio apego às técnicas utilitárias e deste modo livrar-se delas no momento em que isso for apropriado.

Digo «no momento apropriado» porque não vejo absolutamente nada de errado em utilizar técnicas que vieram do hathayoga para obter benefícios psico-físicos, o erro está em declarar-se um praticante de yoga quando sua busca resume-se a esses benefícios. Mais correto seria declarar-se um doente em busca de cura.

5) Sou um falsário.

É claro que isso jamais sairia da boca de um professor de yoga, porque isto implicaria a devolução do dinheiro de mensalidades e o fechamento de muitos «studios» de  yoga, mas esta é a realidade de 99% dos que estão atuando e até formando novos professores.

Há professores altamente requisitados que ensinam publicamente que o cérebro se expande. Há outros que dizem que o indivíduo incapaz de realizar posturas «de nível intermediário» não podem se dizer yogis. Há um outro que diz que ocidentais podem se bastar com a prática de asanas e pranayamas. Outro, por fim, diz que os asanas não são «apenas alongamento» e que se «referem mais» aos órgãos internos.

Estas afirmações são todas erradas e irresponsáveis, principalmente quando lembramos que elas foram emitidas por professores -- pessoas que orientam e formam outras pessoas. Esclarecendo:

-- O cérebro só se expande em pessoas acometidas por alguma grave doença neurológica.
-- Yoga não depende da realização da postura A, B ou C. O sentido dos asanas não é a perfeição física.
-- Asana e pranayama são apenas dois dos angas do yoga. Há todo um universo depois deles.
-- A única relação entre asana e alongamento e órgãos internos é acidental.

Felizmente a maioria dos erros pode ser esclarecida com um pouco de estudo. E é basicamente por isso que eu recomendo o autodidatismo quase todas as vezes em que uma pessoa me pergunta sobre cursos de formação de yoga.

6) Ensino apenas asana porque não sei outra coisa.

Sua aula de yoga dura quanto tempo? Uma hora? Uma hora e quinze minutos? Desse total, quanto tempo é dedicado à prática de posturas e quanto é dedicado à prática de samyama?

A pergunta é retórica, claro, porque é evidente que seu professor dedica muito mais tempo às posturas corporais do que à prática do samyama (popularmente chamado de meditação) -- eu e você sabemos disso.

Se você já questionou seu professor sobre isso, ele deve ter explicado que isso é assim porque é necessário construir uma base física, respiratória e energética para que a meditação seja realizada do modo correto, isto é, para que a meditação traga os efeitos pretendidos e explicados pela tradição. A explicação é correta até certo ponto, mas incompleta: o que seu professor não diz é por quanto tempo as práticas de yoga precisam ser assim, o que nos leva outras duas perguntas:

-- Quanto tempo um leigo leva para construir a base física, respiratória e energética para meditar?
-- Quais os problemas ou riscos decorrentes de uma prática de meditação para o leigo desprovido de uma base física, respiratória e energética adequada?

Bem, se o indivíduo consegue se sentar, consegue respirar com naturalidade e não está doente, então ele pode meditar. Logo, a ausência de uma base física, respiratória e energética não constitui um obstáculo para a prática de meditação.

No caso das duas perguntas, qualquer prazo ou qualquer advertência que se estabeleça servirá apenas para adiar indefinidamente a prática de meditação e para continuar ensinando apenas asana. Por que isso é assim? Simples: porque seu professor não medita. E ele não medita porque sua própria prática resume-se a séries de posturas corporais. Mesmo que medite, ele acha que o que precisa ensinar aos seus alunos não tem relação com a prática de meditação que ele eventualmente desenvolve para si mesmo.

7) Yoga é religião.

Já expliquei esta afirmação neste artigo, mas vamos ao seu professor e ao que ele ensina ou deixa de ensinar quando se trata de explicar como funciona a religiosidade no yoga.

O yoga é um campo muito curioso: há legiões de professores e alunos que se declaram «espirituais, não religiosos», porque a referência que essas pessoas têm de religiões é de evangélicos que berram num palco ou de radicais islâmicos. Só que o yoga é uma tradição, ao que se deve perguntar: tradição de que?

Bem, se vale a regra que diz «pelos frutos o conhecereis», sabemos que o yoga não é uma tradição artística, filosófica ou científica, pois a «obra» que o yoga produz não é de caráter científico, filosófico ou artístico.

Alguns leitores poderão argumentar que o yoga é uma «filosofia prática», o que evidentemente é uma figura de linguagem. Shastras são uma pequena parte da obra do yoga e seria muito excêntrico afirmar que shastras são livros de filosofia.

Em suma, a obra do yoga são os yogis, são os mestres iluminados que passam pela Terra de tempos em tempos, perpetuando os ensinamentos de outros mestres. Embora isto não seja condição suficiente para constituir uma religião, isto é condição necessária -- porque o yoga é uma religião. A vergonha que seu professor tem de declarar isso esconde o fato de que é muito mais rentável e seguro manter-se distante de qualquer discussão acerca das implicações religiosas do yoga -- afinal, religião não combina com mensalidades e cursos de formação.

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Leia também: 7 coisas que seu professor de yoga nunca vai lhe dizer


2 comentários:

Marcelo Corrêa da Silva disse...

...!

Paula Mudita disse...

rs! Patanjali ou Vyasa escreveu pra gurus... nao serve pra fundamentar o que seja de fora de sua tradição... menos ainda 4.000 anos depois e do outro lado do "rio" . mas mesmo assim é engraçado! um alerta pro professor que estuda pouco...