03 março 2017

Meditação não serve para nada


«Eu não consigo meditar». 

Para a maioria das pessoas esta frase soa como uma confissão de falta de força de vontade. Para muitos professores de meditação soa como um desafio, como se a partir dela o ouvinte passasse a ter a obrigação de demonstrar, com argumentos retóricos ou sólidos e exemplos práticos, não apenas a possibilidade universal de meditar, como também o oceano de conquistas e realizações que podem surgir com a simples decisão de meditar em duas ou três sessões breves por semana. 

Em outras palavras, «eu não consigo meditar» é a frase-gatilho favorita dos «mercadores de paz e luz» — expressão que usarei aqui para referir-me àquela gente linda e calminha que bebe pelo menos três litros de água mineral por dia, diz «gratidão» em vez de «obrigado» e que, afinal, precisa ensinar os outros a ter (isto é, como adquirir) paz e luz.

Um dos recursos mais curiosos utilizados por esses mercadores é apresentar a meditação como uma espécie de laxante: à decisão da pessoa de tomar o medicamento segue-se a conseqüência incontornável e quase imediata de livrar-se de inúmeras coisas que pareciam eternamente presas dentro dela. 

Não é coincidência que a meditação seja descrita às vezes — mais por uma simplificação didática do que por uma burrice inata de muitos instrutores (não que isso não exista) — como um processo de esvaziamento da mente. A analogia com o processo de esvaziar os intestinos, verificar os dejetos flutuantes (ou não) e dar a descarga, por escatológica que possa parecer, corresponde às descrições usualmente utilizadas pelos instrutores de meditação: é necessário esvaziar-se de pensamentos e emoções negativas para preencher-se de paz e luz.

O que nenhum instrutor explica é que todas essas expressões são figuras de linguagem. A mente não se esvazia porque a natureza da mente não é encher-se de nada; não se trata de um recipiente. Não é possível livrar-se de pensamentos negativos porque você nunca esteve algemado a eles; não se trata de uma ligação física inquebrável. Ninguém se enche de paz e luz porque, mesmo que identifiquemos nestas palavras qualidades que possamos obter de algum modo, elas não podem ser circunscritas, muito menos medidas.

Outra coisa que nenhum instrutor de meditação explica é que a simples existência de «instrutores de meditação» constitui um gigantesco paradoxo. Se você só medita quando um grupo se reúne para meditação (para «sentir a energia coletiva») sob orientação de um instrutor de voz grave e cristalina que o conduz com slogans motivacionais («inspire a paz, exale o amor»), então, meu chapa, já era. Meditação guiada é algo semelhante ao que o boiadeiro faz com o boi que tem uma argola no nariz: às vezes o bicho é levado para um pasto verdejante, outras vezes para o abatedouro. Se você acha que a comparação é exagerada, me acompanhe:

1) se o que se pretende realizar em cursos, retiros, aulas e grupos de meditação é meditação
2) e se a meditação consiste, entre outras coisas, em fechar os olhos e vivenciar silêncio e isolamento em doses suficientes para que você consiga observar o fluxo natural dos seus próprios pensamentos
3) então não há sentido em ter como ideal de meditação uma prática que dependa de uma reunião especial em locais especiais com pessoas especiais guiadas por uma pessoa especial

Uma das provas de que este raciocínio está correto é a grande quantidade de pessoas que participam de retiros e cursos de meditação e que nas duas ou três semanas que se sucedem declaram-se profundamente transformadas pelas experiências que tiveram nesses eventos (reuniões, locais, pessoas e instrutores especiais), mas que, passadas essas duas ou três semanas, voltam aos mesmos hábitos (interiores e exteriores) que possuíam antes daqueles eventos. Isto ocorre pelos motivos que apontei acima: a lição essencial de retiros e cursos de meditação é de que retiros e cursos de meditação são necessários para meditar corretamente. Não, não são. Ajudam, mas não são necessários. Tornar a meditação algo muito especial a ser realizado em condições especiais e em momentos especiais contradiz a própria definição de meditação.

Afinal, o que é necessário para meditar corretamente? Em primeiro lugar, a disposição para passar um tempo consigo mesmo, o que significa ficar sozinho e em silêncio. Assustador? Para muitas pessoas é. Esta disposição exclui a meditação realizada em grupos, com incenso, música, a condução de um instrutor, enfim, com toda a parafernália que os mercadores de paz e luz consideram essenciais para meditar. Questionados sobre isso, eles dirão que essas coisas são essenciais apenas para os iniciantes, o que, é claro, implica outra bobagem: a de que existiria algo que se possa chamar de «meditação avançada», o que não seria muito diferente da divisão dos grupos de meditação em faixas coloridas, como ocorre em artes marciais.

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Se é meio bobo definir e compreender a meditação a partir de pressupostos estabelecidos por pessoas que entendem essa prática como algo que pode ser dividido em categorias e comercializado, o que dizer da tendência de encarar a meditação como uma tecnologia, um sistema disciplinar com finalidades utilitárias? Tenho certeza de que o leitor já não se surpreende mais quando se depara com divulgações de cursos e retiros de meditação que têm como propósito melhorar seu desempenho nos estudos, nos negócios, nos relacionamentos ou melhorar sua saúde física e mental. Seria surpreendente encontrar um simples encontro com orientações elementares de meditação e sem menções às suas conseqüências práticas.

Ainda que esses propósitos às vezes sejam a isca para atrair pessoas para orientações, digamos, mais tradicionais (um argumento recorrente), nesses casos o peixe subirá ao convés machucado: a pessoa que vem a um encontro de meditação movida pela perspectiva de estudar melhor e passar num concurso público (um tipo de divulgação bastante popular ultimamente) na prática se assemelha a uma pessoa que acha que o primeiro passo para realizar uma viagem é rasgar a passagem que ela acabou de comprar.

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É bom esclarecer: eu estaria enganando o leitor se dissesse que a meditação não proporciona benefícios físicos e mentais. Minha experiência e as experiências que muitos de meus alunos tiveram com a meditação confirmam isso. Algumas pesquisas também têm confirmado a eficiência da meditação na redução de níveis de stress e no controle da pressão arterial. Todas estas coisas são obviamente boas, mas são efeitos de uma busca que não se limita a utilizar a meditação como terapia.

Se, como assinalei antes, a meditação consiste em observar o fluxo natural dos seus próprios pensamentos, a fixação do pensamento numa meta específica — por exemplo, «quero desenvolver autoconfiança» — implica um alto grau de artificialidade e, portanto, a interrupção do fluxo natural dos pensamentos. Em outras palavras, é como se, para observar cardumes de barracudas em mar aberto, você decidisse criar peixes beta num aquário: por maior que seja seu aquário e por mais peixes beta que você tenha, aquilo nunca passará de uma caixa de vidro com peixinhos comprados em loja.

A verdade é que a meditação não serve para nada simplesmente porque essa prática não pode servir para nada. Não me refiro àquele provérbio oriental que diz que o caminho é mais importante que a meta etc. Refiro-me a uma prática que se situa num plano em que não há sentido em falar de caminho, direção ou meta, em que a existência e a identificação destes elementos são efeitos colaterais, não a razão da prática.

Monges tibetanos comparam a meditação com um descanso ao final de um exaustivo dia de trabalho — você simplesmente permanece ali, ainda entorpecido pelo cansaço, mas consciente de que suas funções básicas se mantêm: a respiração, a visão, a audição, os batimentos cardíacos etc. Numa situação dessas você não pensa «vou descansar» ou «estou descansando». Você apenas permanece quieto, em silêncio e imóvel. A meditação não é muito mais do que isso.


Expressões como «estar presente» e «praticar o silêncio», por esquisitas que possam parecer, constituem formas interessantes de evitar termos utilitários para explicar a prática de meditação. São expressões paradoxais, mas verdadeiras: a meditação começa a funcionar quando você percebe a idéia de que a meditação serve para algo além de meditar apenas como mais uma das idéias a serem observadas.

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