O melhor método de meditação do mundo

Isto não é um asana. Isto é meditação.

Se você não tem paciência para ler, vou dar uma mãozinha e antecipar o que será extensivamente explicado nos próximos parágrafos:

O melhor método de meditação do mundo é o Hatha Yoga.

Pronto. 

A partir daqui você pode ir fazer outra coisa e desenvolver um raciocínio próprio que o faça chegar à conclusão a que cheguei ou você pode me acompanhar aqui e entender por que afirmo isso.

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Começo, como sempre, definindo termos: yoga e Hatha Yoga. Como a discussão é muito mais sobre métodos do que sobre conceitos, é no aspecto metodológico que me concentrarei. Para o entendimento da idéia central deste artigo não importará muito o que dizem os Vedas sobre o yoga e o que é definido conceitualmente nos Yoga Sutras, mas sim o que os yogis fazem como yoga.

Deste ponto de vista, yoga é apenas a meditação, nada além da meditação. Toda e qualquer técnica realizada como yoga só pode ser considerada yoga se leva você para a meditação. Resumindo:

Fez «técnicas do yoga» e meditou em seguida = yoga
Fez «técnicas do yoga» e não meditou em seguida = ginástica

Para ser ainda mais direto: a meditação não é apenas o elemento principal, a meditação é o yoga. Isto vale para qualquer tipo de yoga — e o Hatha Yoga não seria uma exceção, claro.

Shiva meditando. É só isso.

Para compreender que o Hatha Yoga não é uma exceção (isto é, para compreender que o Hatha Yoga também é meditação), é necessário falar um pouco do que o Hatha Yoga tem sido nos últimos 100 anos, porque adianta pouco explicar o que é o verdadeiro Hatha Yoga e manter intacto o monumento de desfaçatez e maledicência que se ergueu em seu nome nesse período.

(E se você tiver algum problema com a expressão «o verdadeiro Hatha Yoga», paciência.)

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Como já expliquei em outros artigos aqui em meu site, em vídeos e em publicações em redes sociais (aqui e aqui), os sistemas de ginástica mística consistem em isolar e supervalorizar a prática postural e colocar a meditação em segundo plano ou mesmo em plano nenhum. Toda a cultura do yoga dos últimos 100 anos foi construída a partir da idéia de que yoga é o bem-estar que resulta da prática de posturas. Para esta cultura, o yoga é prática postural e a meditação só é incluída nesta prática como uma espécie de bônus, como uma cerejinha no bolo.

O Hatha Yoga forneceu a base técnica para os sistemas de ginástica mística, que depois enquadraram o próprio Hatha Yoga como... um sistema de ginástica mística. É como se «O Pensador» de Rodin fosse usado como inspiração para produzir duendes de durepoxi e logo em seguida o próprio «O Pensador» passasse a ser classificado como um duende de durepoxi.

Auguste Rodin não esteve aqui.

Pode parecer uma birutice (e é mesmo), mas isso não aconteceu de uma hora pra outra. A ginástica mística é o resultado de um processo lento, lubrificado com enormes doses de culto ao corpo (medicina e educação física), espiritualismo teosófico e gnose, cientificismo e positivismo, ideologias progressistas e, finalmente (a partir da década de 1960), cultura New Age. 

Precursores dos campeonatos de yoga.

A evolução desse processo significou o aumento da distância — no tempo e no espaço — entre o Hatha Yoga e a cultura moderna do yoga. A história que começa sob a inspiração e a base técnica do Hatha Yoga, prossegue pelo menos até o final do séc. XX sem que um único hathayogi tivesse sido consultado.

No Brasil, por exemplo, por muitas décadas o yoga resumiu-se ao antagonismo entre um instrutor de Hatha Yoga que jamais foi instruído por um hathayogi e um outro que foi formado por um fantasma que apareceu para ele num terreiro de Umbanda.

José Hermógenes, um autodidata.

O importante aqui é compreender que a distância crescnte entre o Hatha Yoga e a cultura moderna do yoga não é acidental, mas a condição necessária para que essa cultura exista. O Hatha Yoga é uma tradição que por definição não pode ser conciliada com a modernidade.

E é aqui que podemos voltar ao início deste artigo.

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Dizem a lenda e a história — duas coisas que na cultura hindu são inseparáveis — que o Hatha Yoga foi trazido ao mundo por Shiva como algo absolutamente perfeito. («Perfeito» vem de «perfazer», do latim «per-ficère», que significa terminar, completar, realizar inteiramente, o que necessariamente traz a idéia de algo que não precisa ser adaptado ou ajustado.) O Siddha Siddhanta Tantra, também conhecido como Natha Sampradaya, é a tradição que perpetua o Hatha Yoga.

Os primeiros nove nathas.

O Hatha Yoga é um conjunto de técnicas tântricas que aceleram a entrada na meditação e potencializam seus efeitos. Se você excluir a meditação desta definição, o que sobra? Vamos lá:

Hatha = técnicas tântricas
Yoga = Meditação
Hatha Yoga = Técnicas tântricas + Meditação
Hatha Yoga – Yoga = Técnicas tântricas + Meditação – Meditação
= Técnicas tântricas + Meditação – Meditação
= Técnicas tântricas

Sobram apenas as técnicas tântricas. Quais? Estas: asanas, pranayamas, mudras, layas. Mas quando você exclui a meditação dessas técnicas, elas perdem completamente o sentido e ficam assim:

Asana sem meditação = ginástica postural
Pranayama sem meditação = exercício respiratório
Mudra sem meditação = ginástica postural avançada
Laya sem meditação = viagem mental sem sentido

Ginástica postural, exercícios respiratórios, ginástica postural avançada e viagem mental sem sentido constituem a essência metodológica de todos os sistemas de ginástica mística. Se você consegue chegar à prática de samadhi, à vivência do Silêncio Profunda e à realização de Si Mesmo com esses quatro elementos, por favor me ensine.

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Tudo que foi dito até aqui teve um único objetivo: ajudá-lo a compreender que no Hatha Yoga o elemento mais importante é o próprio yoga, isto é, a meditação. Tudo, absolutamente tudo que se faz no Hatha Yoga tem a meditação como baliza, como norte, como referência máxima. 

Dominar asanas, desfazer granthis, realizar mudras...
tudo isso tem um único propósito: meditar.

Isto é o mesmo que dizer que o Hatha Yoga é um método de meditação, não um método de realizar asanas, pranayamas e outras técnicas tântricas. Se pudesse existir, um Hatha Yoga sem meditação seria algo tão absurdo e inútil quanto um carro sem rodas e sem motor.

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E daí?

E daí que, a partir de hoje, toda vez que você ler «Hatha Yoga» você conseguirá compreendê-lo melhor se você pensar em meditação, não em ginástica postural e exercícios respiratórios.

Pode parecer um detalhe bobo, uma frescura terminológica, um preciosismo tradicionalista, mas não é. Ginástica e meditação não são apenas palavras diferentes para representar práticas diferentes, são também universos opostos: dedicar-se a um significa afastar-se do outro.

Como sempre, o universo que você vai escolher depende do que você espera obter com sua prática de yoga.

Comentários

Unknown disse…
Muito obrigada ! Sempre muito claro, objetivo, direto , didático... e verdadeiro .
Tata disse…
Obrigado professor.