03 março 2017

Meditação não serve para nada


«Eu não consigo meditar». 

Para a maioria das pessoas esta frase soa como uma confissão de falta de força de vontade. Para muitos professores de meditação soa como um desafio, como se a partir dela o ouvinte passasse a ter a obrigação de demonstrar, com argumentos retóricos ou sólidos e exemplos práticos, não apenas a possibilidade universal de meditar, como também o oceano de conquistas e realizações que podem surgir com a simples decisão de meditar em duas ou três sessões breves por semana. 

Em outras palavras, «eu não consigo meditar» é a frase-gatilho favorita dos «mercadores de paz e luz» — expressão que usarei aqui para referir-me àquela gente linda e calminha que bebe pelo menos três litros de água mineral por dia, diz «gratidão» em vez de «obrigado» e que, afinal, precisa ensinar os outros a ter (isto é, como adquirir) paz e luz.

Um dos recursos mais curiosos utilizados por esses mercadores é apresentar a meditação como uma espécie de laxante: à decisão da pessoa de tomar o medicamento segue-se a conseqüência incontornável e quase imediata de livrar-se de inúmeras coisas que pareciam eternamente presas dentro dela. 

Não é coincidência que a meditação seja descrita às vezes — mais por uma simplificação didática do que por uma burrice inata de muitos instrutores (não que isso não exista) — como um processo de esvaziamento da mente. A analogia com o processo de esvaziar os intestinos, verificar os dejetos flutuantes (ou não) e dar a descarga, por escatológica que possa parecer, corresponde às descrições usualmente utilizadas pelos instrutores de meditação: é necessário esvaziar-se de pensamentos e emoções negativas para preencher-se de paz e luz.

O que nenhum instrutor explica é que todas essas expressões são figuras de linguagem. A mente não se esvazia porque a natureza da mente não é encher-se de nada; não se trata de um recipiente. Não é possível livrar-se de pensamentos negativos porque você nunca esteve algemado a eles; não se trata de uma ligação física inquebrável. Ninguém se enche de paz e luz porque, mesmo que identifiquemos nestas palavras qualidades que possamos obter de algum modo, elas não podem ser circunscritas, muito menos medidas.

Outra coisa que nenhum instrutor de meditação explica é que a simples existência de «instrutores de meditação» constitui um gigantesco paradoxo. Se você só medita quando um grupo se reúne para meditação (para «sentir a energia coletiva») sob orientação de um instrutor de voz grave e cristalina que o conduz com slogans motivacionais («inspire a paz, exale o amor»), então, meu chapa, já era. Meditação guiada é algo semelhante ao que o boiadeiro faz com o boi que tem uma argola no nariz: às vezes o bicho é levado para um pasto verdejante, outras vezes para o abatedouro. Se você acha que a comparação é exagerada, me acompanhe:

1) se o que se pretende realizar em cursos, retiros, aulas e grupos de meditação é meditação
2) e se a meditação consiste, entre outras coisas, em fechar os olhos e vivenciar silêncio e isolamento em doses suficientes para que você consiga observar o fluxo natural dos seus próprios pensamentos
3) então não há sentido em ter como ideal de meditação uma prática que dependa de uma reunião especial em locais especiais com pessoas especiais guiadas por uma pessoa especial

Uma das provas de que este raciocínio está correto é a grande quantidade de pessoas que participam de retiros e cursos de meditação e que nas duas ou três semanas que se sucedem declaram-se profundamente transformadas pelas experiências que tiveram nesses eventos (reuniões, locais, pessoas e instrutores especiais), mas que, passadas essas duas ou três semanas, voltam aos mesmos hábitos (interiores e exteriores) que possuíam antes daqueles eventos. Isto ocorre pelos motivos que apontei acima: a lição essencial de retiros e cursos de meditação é de que retiros e cursos de meditação são necessários para meditar corretamente. Não, não são. Ajudam, mas não são necessários. Tornar a meditação algo muito especial a ser realizado em condições especiais e em momentos especiais contradiz a própria definição de meditação.

Afinal, o que é necessário para meditar corretamente? Em primeiro lugar, a disposição para passar um tempo consigo mesmo, o que significa ficar sozinho e em silêncio. Assustador? Para muitas pessoas é. Esta disposição exclui a meditação realizada em grupos, com incenso, música, a condução de um instrutor, enfim, com toda a parafernália que os mercadores de paz e luz consideram essenciais para meditar. Questionados sobre isso, eles dirão que essas coisas são essenciais apenas para os iniciantes, o que, é claro, implica outra bobagem: a de que existiria algo que se possa chamar de «meditação avançada», o que não seria muito diferente da divisão dos grupos de meditação em faixas coloridas, como ocorre em artes marciais.

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Se é meio bobo definir e compreender a meditação a partir de pressupostos estabelecidos por pessoas que entendem essa prática como algo que pode ser dividido em categorias e comercializado, o que dizer da tendência de encarar a meditação como uma tecnologia, um sistema disciplinar com finalidades utilitárias? Tenho certeza de que o leitor já não se surpreende mais quando se depara com divulgações de cursos e retiros de meditação que têm como propósito melhorar seu desempenho nos estudos, nos negócios, nos relacionamentos ou melhorar sua saúde física e mental. Seria surpreendente encontrar um simples encontro com orientações elementares de meditação e sem menções às suas conseqüências práticas.

Ainda que esses propósitos às vezes sejam a isca para atrair pessoas para orientações, digamos, mais tradicionais (um argumento recorrente), nesses casos o peixe subirá ao convés machucado: a pessoa que vem a um encontro de meditação movida pela perspectiva de estudar melhor e passar num concurso público (um tipo de divulgação bastante popular ultimamente) na prática se assemelha a uma pessoa que acha que o primeiro passo para realizar uma viagem é rasgar a passagem que ela acabou de comprar.

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É bom esclarecer: eu estaria enganando o leitor se dissesse que a meditação não proporciona benefícios físicos e mentais. Minha experiência e as experiências que muitos de meus alunos tiveram com a meditação confirmam isso. Algumas pesquisas também têm confirmado a eficiência da meditação na redução de níveis de stress e no controle da pressão arterial. Todas estas coisas são obviamente boas, mas são efeitos de uma busca que não se limita a utilizar a meditação como terapia.

Se, como assinalei antes, a meditação consiste em observar o fluxo natural dos seus próprios pensamentos, a fixação do pensamento numa meta específica — por exemplo, «quero desenvolver autoconfiança» — implica um alto grau de artificialidade e, portanto, a interrupção do fluxo natural dos pensamentos. Em outras palavras, é como se, para observar cardumes de barracudas em mar aberto, você decidisse criar peixes beta num aquário: por maior que seja seu aquário e por mais peixes beta que você tenha, aquilo nunca passará de uma caixa de vidro com peixinhos comprados em loja.

A verdade é que a meditação não serve para nada simplesmente porque essa prática não pode servir para nada. Não me refiro àquele provérbio oriental que diz que o caminho é mais importante que a meta etc. Refiro-me a uma prática que se situa num plano em que não há sentido em falar de caminho, direção ou meta, em que a existência e a identificação destes elementos são efeitos colaterais, não a razão da prática.

Monges tibetanos comparam a meditação com um descanso ao final de um exaustivo dia de trabalho — você simplesmente permanece ali, ainda entorpecido pelo cansaço, mas consciente de que suas funções básicas se mantêm: a respiração, a visão, a audição, os batimentos cardíacos etc. Numa situação dessas você não pensa «vou descansar» ou «estou descansando». Você apenas permanece quieto, em silêncio e imóvel. A meditação não é muito mais do que isso.


Expressões como «estar presente» e «praticar o silêncio», por esquisitas que possam parecer, constituem formas interessantes de evitar termos utilitários para explicar a prática de meditação. São expressões paradoxais, mas verdadeiras: a meditação começa a funcionar quando você percebe a idéia de que a meditação serve para algo além de meditar apenas como mais uma das idéias a serem observadas.

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19 setembro 2016

Mais 7 coisas que seu professor de yoga nunca vai lhe dizer


1) Eu não sei o que é um guruyogi.


Se você perguntar ao seu professor sobre a definição de guru, ele lhe oferecerá explicações impecáveis que começarão com a etimologia do termo («aquele que remove a escuridão» etc.) e se estenderão até os exemplos de grandes gurus ao longo da história. Mas se você perguntar ao seu professor se ele mesmo é um guruyogi ou se foi orientado por um, não se surpreenda com a embromação que se seguirá -- cujo propósito é esconder o fato de que ele ignora o que realmente é um guruyogi.

A regra no Ocidente e sobretudo no Brasil é acreditar que guruyogis são seres mitológicos que aparecem nos versos das escrituras. Guruyogis vivos? «Não existe isso». Mas o yoga não é uma tradição? E uma tradição não depende da existência de pessoas formalmente iniciadas nessa tradição para que ela própria possa continuar existindo?

O yoga no Ocidente e em especial no Brasil é liderado e conduzido por uma legião de órfãos, gente que jamais teve acesso a um guruyogi, a não ser para fins turísticos, em «viagens de yoga» a Rishikesh. Para essas pessoas, um guruyogi verdadeiro é uma espécie de mistura de professor Xavier e tinta azul.

2) Eu não sei o que é samadhi.

Aqui as coisas ficam mais engraçadas.

Se você perguntar ao seu professor o que é samadhi, ele lhe dirá que o samadhi é a realização máxima do yoga. Poderá, ainda, traçar paralelos entre o samadhi e o que no Budismo se chama de nirvana ou iluminação.

O que ele não dirá é que o samadhi é uma prática, não uma realização. A comparação com o nirvana pode ser válida para fins didáticos, já que a noção de nirvana é bastante conhecida no Ocidente a partir da cultura da Nova Era. Mas os fins didáticos são limitados; depois que o indivíduo largou as fraldas é adequado usar fontes consistentes.

Os próprios Sutras de Patañjali explicam que o samadhi é o último estágio da disciplina do yoga. Estágios de uma disciplina têm, por definição, propósitos práticos bastante claros. E o objetivo de uma prática nunca é a própria prática, é claro. Em resumo, a prática é o samadhi, a realização é moksha, a libertação -- esta, sim, a realização última do yoga.

Mas, voltando ao que o seu professor não dirá a você: a verdade é que ele não pratica samadhi, provavelmente porque aprendeu que o samadhi não era uma prática e era, em vez disso, uma realização, a meta definitiva do yoga. Ele aprendeu também que o samadhi era algo para os semi-deuses do yoga e que, portanto, não se tratava de algo possível para mortais comuns.

Ele aprendeu -- e ensina -- isso porque, como digo no item 1 deste artigo, ele não sabe o que é um guruyogi, porque, afinal, aprendeu yoga com professores que dão aulas de anatomia e ensinam que o cérebro está no corpo todo. O máximo de samadhi que essas pessoas conhecem é o que aparece naquela famosa foto de Ramakrishna -- enfim, um cartão postal.

3) A tradição que eu ensino começou na década de 1980.

...Ou 1970 ou 1960, tanto faz.

É bom deixar claro: quem ensina yoga com props, com vinyasa, com dança, em duplas, com regras de alimentação, com djideridoo ou harmonium ao vivo etc. está ensinando qualquer coisa, menos a tradição do yoga.

Se você acordou de mau humor, poderá querer argumentar que «a tradição do yoga» virou uma espécie de marreta dourada nas mãos de pessoas intolerantes como eu. Explicarei apenas uma vez: no contexto dos artigos que publico aqui em meu site, «a tradição do yoga» é qualquer coisa que preserve um mínimo de fidelidade ao que as escrituras e os guruyogis ensinam.

A peça de propaganda que mostra aquela senhorinha que realinhou a coluna e reconquistou uns centímetros de altura «graças ao yoga» é de uma desonestidade atroz. Aquilo não prova nada sobre o yoga, prova apenas que as pessoas -- que aplaudiram efusivamente o vídeo -- não sabem mais diferenciar uma tradição genuína de um sistema de fisioterapia. Se, novamente, você acha que estou sendo intolerante, diga-me: quantas vezes Patañjali menciona as palavras «postura», «coluna» e «alinhamento» em seus Yoga Sutras? Valendo.

4) O yoga não serve para nada.

O leitor poderá aqui voltar ao episódio da senhorinha que realinhou a coluna e reconquistou uns centímetros de altura «graças ao yoga» para argumentar que o yoga serve, sim, para muitas coisas. Seu professor poderá trazer histórias pessoais -- dele próprio e de seus alunos -- que dão força para essa idéia.

De fato, há sistemas disciplinares inteiros que se apóiam na idéia do «utilitarismo do yoga». É o caso da Yogaterapia, do Power Yoga e do Iyengar Yoga, sistemas disciplinares inteiros que tem como objetivo o alinhamento postural e/ou o fortalecimento muscular.

Mas a verdade é que o yoga não serve para nada. Se olharmos mais uma vez o que ensina Patañjali ou os nathas ou mesmo os mestres do séc. XX, como Ramana Maharshi, Nisargadatta Maharaj, Ramakrishna e Shivabala Yogi, veremos que o propósito de yoga é «abrir o indivíduo à realização da Verdade Suprema». A expressão pomposa contrasta com a impressão que muitas pessoas têm: quando visto desde fora, o samadhi parece uma espécie de catatonia.

Quando digo que o yoga não serve para nada, não significa que o yoga é inútil, significa apenas que o yoga situa-se num plano diferente daquele que classifica as coisas e os fazeres entre úteis e inúteis -- e apenas isso.

Em resumo, o que nenhum professor explicará a você é que no emaranhado de técnicas úteis (pranayama melhora a capacidade respiratória, anteflexões acalmam, retroflexões encorajam etc.), há um sem-número de ações e atitudes que refletem o «anti-utilitarismo do yoga», uma qualidade que permite que o praticante possa enxergar o próprio apego às técnicas utilitárias e deste modo livrar-se delas no momento em que isso for apropriado.

Digo «no momento apropriado» porque não vejo absolutamente nada de errado em utilizar técnicas que vieram do hathayoga para obter benefícios psico-físicos, o erro está em declarar-se um praticante de yoga quando sua busca resume-se a esses benefícios. Mais correto seria declarar-se um doente em busca de cura.

5) Sou um falsário.

É claro que isso jamais sairia da boca de um professor de yoga, porque isto implicaria a devolução do dinheiro de mensalidades e o fechamento de muitos «studios» de  yoga, mas esta é a realidade de 99% dos que estão atuando e até formando novos professores.

Há professores altamente requisitados que ensinam publicamente que o cérebro se expande. Há outros que dizem que o indivíduo incapaz de realizar posturas «de nível intermediário» não podem se dizer yogis. Há um outro que diz que ocidentais podem se bastar com a prática de asanas e pranayamas. Outro, por fim, diz que os asanas não são «apenas alongamento» e que se «referem mais» aos órgãos internos.

Estas afirmações são todas erradas e irresponsáveis, principalmente quando lembramos que elas foram emitidas por professores -- pessoas que orientam e formam outras pessoas. Esclarecendo:

-- O cérebro só se expande em pessoas acometidas por alguma grave doença neurológica.
-- Yoga não depende da realização da postura A, B ou C. O sentido dos asanas não é a perfeição física.
-- Asana e pranayama são apenas dois dos angas do yoga. Há todo um universo depois deles.
-- A única relação entre asana e alongamento e órgãos internos é acidental.

Felizmente a maioria dos erros pode ser esclarecida com um pouco de estudo. E é basicamente por isso que eu recomendo o autodidatismo quase todas as vezes em que uma pessoa me pergunta sobre cursos de formação de yoga.

6) Ensino apenas asana porque não sei outra coisa.

Sua aula de yoga dura quanto tempo? Uma hora? Uma hora e quinze minutos? Desse total, quanto tempo é dedicado à prática de posturas e quanto é dedicado à prática de samyama?

A pergunta é retórica, claro, porque é evidente que seu professor dedica muito mais tempo às posturas corporais do que à prática do samyama (popularmente chamado de meditação) -- eu e você sabemos disso.

Se você já questionou seu professor sobre isso, ele deve ter explicado que isso é assim porque é necessário construir uma base física, respiratória e energética para que a meditação seja realizada do modo correto, isto é, para que a meditação traga os efeitos pretendidos e explicados pela tradição. A explicação é correta até certo ponto, mas incompleta: o que seu professor não diz é por quanto tempo as práticas de yoga precisam ser assim, o que nos leva outras duas perguntas:

-- Quanto tempo um leigo leva para construir a base física, respiratória e energética para meditar?
-- Quais os problemas ou riscos decorrentes de uma prática de meditação para o leigo desprovido de uma base física, respiratória e energética adequada?

Bem, se o indivíduo consegue se sentar, consegue respirar com naturalidade e não está doente, então ele pode meditar. Logo, a ausência de uma base física, respiratória e energética não constitui um obstáculo para a prática de meditação.

No caso das duas perguntas, qualquer prazo ou qualquer advertência que se estabeleça servirá apenas para adiar indefinidamente a prática de meditação e para continuar ensinando apenas asana. Por que isso é assim? Simples: porque seu professor não medita. E ele não medita porque sua própria prática resume-se a séries de posturas corporais. Mesmo que medite, ele acha que o que precisa ensinar aos seus alunos não tem relação com a prática de meditação que ele eventualmente desenvolve para si mesmo.

7) Yoga é religião.

Já expliquei esta afirmação neste artigo, mas vamos ao seu professor e ao que ele ensina ou deixa de ensinar quando se trata de explicar como funciona a religiosidade no yoga.

O yoga é um campo muito curioso: há legiões de professores e alunos que se declaram «espirituais, não religiosos», porque a referência que essas pessoas têm de religiões é de evangélicos que berram num palco ou de radicais islâmicos. Só que o yoga é uma tradição, ao que se deve perguntar: tradição de que?

Bem, se vale a regra que diz «pelos frutos o conhecereis», sabemos que o yoga não é uma tradição artística, filosófica ou científica, pois a «obra» que o yoga produz não é de caráter científico, filosófico ou artístico.

Alguns leitores poderão argumentar que o yoga é uma «filosofia prática», o que evidentemente é uma figura de linguagem. Shastras são uma pequena parte da obra do yoga e seria muito excêntrico afirmar que shastras são livros de filosofia.

Em suma, a obra do yoga são os yogis, são os mestres iluminados que passam pela Terra de tempos em tempos, perpetuando os ensinamentos de outros mestres. Embora isto não seja condição suficiente para constituir uma religião, isto é condição necessária -- porque o yoga é uma religião. A vergonha que seu professor tem de declarar isso esconde o fato de que é muito mais rentável e seguro manter-se distante de qualquer discussão acerca das implicações religiosas do yoga -- afinal, religião não combina com mensalidades e cursos de formação.

***

Leia também: 7 coisas que seu professor de yoga nunca vai lhe dizer


06 agosto 2016

Pastores evangélicos querem proibir o yoga nas escolas. Eles estão certos.


E o faniquito da semana entre os professores de yoga veio com esta notícia:
Pastores evangélicos no RS lutam para proibir a prática de Yoga nas escolas

Escândalo nas redes sociais! Vergonha! Ignorância! Fundamentalismo!

Se você também acha isso uma vergonha, eu tenho uma má notícia para você: os pastores estão certos -- mas não pelos motivos que você está imaginando.

Acompanhe meu raciocínio.

A proposta é de ensinar yoga em escolas municipais de uma cidade do interior do RS. O princípio da laicidade do Estado determina sua neutralidade nas questões religiosas. O ensino de yoga implica a transmissão de valores da cultura indiana, muitos deles ligados à religião hindu. Logo, ensinar o yoga implica ferir esse princípio.

Assunto encerrado. Ou quase. Os professores aos quais apresentei esse raciocínio trouxeram muitos argumentos interessantes:

1) Mas o yoga não é uma religião. Logo, o princípio de laicidade do Estado não será ferido por aulas de yoga para crianças em escolas públicas.

Não é bem assim. Se você pesquisar no Google «yoga para crianças», verá o seguinte:
- Todas as aulas incluem práticas de meditação
- Todas as aulas incluem histórias da tradição hindu
- Todas as aulas incluem referências aos deuses hindus (que inspiram os nomes de muitas posturas corporais)

(Eu já havia, inclusive, explicado que o yoga é uma religião.)

É evidente que estas atividades somadas configuram de alguma forma a transmissão da tradição religiosa da Índia. Mesmo que isso seja pequeno se comparado com a transmissão direta e objetiva dessa tradição, o fato de ser dirigido a crianças pressupõe uma fácil aceitação dos conteúdos transmitidos. Esta fácil aceitação decorre da natural incapacidade que as crianças têm de discernir o peso que cada lição tem dentro de um processo de aprendizado.

2) Mas as aulas serão apenas de ginástica, para melhorar a postura e a respiração das crianças, quase como uma educação física.

Como indiquei acima, é claro que não será assim. Mas suponhamos que seja essa a idéia: o yoga como um dos elementos das aulas de educação física.

Quem defende este argumento está dizendo que as aulas não serão de yoga coisa nenhuma e que, portanto, não haveria nenhuma diferença em chamar tais aulas de yoga, pilates, consciência corporal. Como, na realidade, as aulas propostas são de yoga e receberam o nome de yoga e não de outra coisa, isto é, se os outros nomes realmente não servem para o que está sendo proposto, é razoável crer que as aulas de yoga serão de yoga e que, portanto, elas levarão às crianças e jovens uma parte considerável do aparato filosófico e doutrinário da tradição indiana, como explicado no item anterior.

Em resumo, mesmo que o yoga nas últimas décadas tenha imergido na moda fitness, é evidente que as aulas de yoga para crianças não se resumirão a ginástica.

3) Pastores evangélicos não devem interferir no que será ensinado numa escola pública.

Este argumento foge da discussão acerca do conteúdo proposto (as aulas de yoga) e direciona seus canhões para os pastores. Como sabemos, no Brasil é fácil chamar evangélicos de «fundamentalistas», «conservadores», «ignorantes» e outros nomes ainda menos bonitos. A partir da suposição de que os pastores realmente são tudo isso, é fácil desmerecer qualquer iniciativa que eles tenham. Como a iniciativa deles tem como objetivo barrar uma proposta «do bem» -- afinal, quem pode ser contra aulas de yoga para crianças? --, é fácil juntar-se à turba e xingar muito nas redes sociais.

Aos professores de yoga que acham que os pastores não devem interferir nessa questão, outra má notícia: vocês também não deveriam interferir no que será ensinado numa escola pública -- mas não pelos motivos que você está imaginando.


Se esse dever não está claro, considere a seguinte hipótese: e se os pastores evangélicos, em vez de pedir o bloqueio das aulas de yoga em escolas públicas, pedissem a inclusão do ensino do cristianismo evangélico nos currículos escolares? Em outras palavras, eles concordariam com as aulas de yoga nas escolas, desde que houvesse também aulas de cristianismo evangélico, atividades nas quais as crianças seriam ensinadas sobre os dogmas e rituais dessa religião. Que tal?

É evidente que isso seria uma loucura pois se todas as religiões e tradições espirituais começassem a pedir espaço nos currículos escolares, em pouco tempo não haveria mais espaço para aulas de matemática, português, geografia etc. e as escolas seriam afastadas definitivamente de seus objetivos fundamentais e passariam a ser uma espécie de campo de batalha das religiões e tradições espirituais em busca de mais adeptos.

Na verdade, não é que os pastores evangélicos não devem interferir no que será ensinado numa escola pública. Boa parte do problema está nessa entidade chamada «escola pública», que implica que haja um sistema educacional regulado e gerenciado pelo governo, através de secretarias de educação e do Ministério da Educação. Nas últimas três décadas este sistema tem sido uma das causas do péssimo desempenho dos estudantes brasileiros nos principais testes internacionais de educação.

Em resumo, embora os pastores possam estar agindo com motivações equivocadas ou mal intencionadas, eles estão certos ao buscar proibir o ensino de yoga em escolas públicas -- por todos os motivos já demonstrados. Mas eles, assim como os professores de yoga, estão mirando nos alvos errados. O alvo correto é o fim da interferência estatal na educação de crianças e jovens. Este deveria ser o objetivo de qualquer pessoa preocupada com a qualidade da educação de crianças e jovens.

O que você acharia de uma escola para crianças e jovens baseada na cultura indiana, com aulas de yoga, com lições a respeito de yamas e niyamas, com práticas de meditação, com merendas baseadas em alimentos orgânicos? Bacana? Você acha que você deve ter a liberdade de escolher isso para você, para seus filhos e demais familiares? Pois é, eu também acho que sim. Só que isso exige um Estado que não interfira na educação e não impeça a criação de modelos educacionais diferentes, mas que também não apóie alguns modelos em detrimento de outros.


Isto significa o fim da escola pública? Certamente isso significaria o fim do modelo atual da escola pública: fortemente submissa a uma regulação centralizada, universalista e massificante. Afinal, quem realmente quer um sistema educacional centralizado, universalista e massificante? Você confia na educação básica fornecida pelo Estado?

Se todos tivéssemos essa liberdade, teríamos escolas indianas, evangélicas, budistas, agnósticas (cada uma voltada a necessidades e interesses específicos e aos valores que cada família quer transmitir aos seus filhos) e não teríamos pastores evangélicos pedindo mais proibições ao Estado (o que só reforça o poder estatal) e professores de yoga xingando muito na Internet por causa desse pedido. Enfim, teríamos paz e a educação certamente seria melhor.

21 maio 2016

Guia Prático e Definitivo para Entendimento e Exercício de Satya

 

Satya é uma palavra do sânscrito que significa verdade. Na tradição do yoga, satya é um dos yamas definidos por Patañjali; na ordem proposta pelo mestre em sua consagrada obra Yoga Sutras, trata-se do segundo yama. Os yamas são usualmente entendidos como regras para convivência com outras pessoas -- o que modernamente pode-se chamar de princípios morais.

Por ser um yama, isto é, por ser uma regra de convivência, satya com freqüência é entendido como «não mentir». Este entendimento é correto mas superficial, porque há situações do convívio social em que a mentira é necessária. Um exemplo extremo e recorrente quando se discute a moral social é aquele que aparece no início do filme «Bastardos Inglórios»: o oficial alemão bate à porta de um fazendeiro francês no período da ocupação nazista e lhe pergunta se ele está escondendo judeus em sua propriedade, o que ele de fato havia feito -- dizer a verdade significaria condenar aquelas pessoas à morte.

Porém, como qualquer coisa que se faça no yoga, satya deve ser compreendido à luz do samadhi, não à luz das regras sociais. Dito de outro modo: satya deve ser entendido e trazido ao dia-a-dia como uma parte do conjunto de práticas e condutas que conduzem à libertação. Isto amplia enormemente a compreensão que se pode ter de satya e, claro, amplia também as possibilidades práticas deste yama.

Um exercício que eu propunha com freqüência a meus alunos era repetir para si mesmo algumas perguntas decisivas (o leitor também se beneficiará se der uma olhada neste artigo).

A primeira e mais simples destas perguntas é: o que eu estou buscando? As respostas mais comuns são reflexos dos rodopios mentais que as pessoas carregam quando saem em busca de orientação para a prática do yoga. Muitas dizem que estão buscando saúde; outras dizem que estão buscando calma; outras querem fortalecer o corpo e torná-lo mais flexível.

É claro que estas declarações são válidas não como respostas diretas à pergunta inicial, mas como subterfúgios através dos quais as pessoas a evitam. Saúde, calma, fortalecimento corporal não são fins em si mesmos; tem-se saúde para algo, para que se possa, por exemplo, viver uma vida melhor. A primeira pergunta trata justamente desse melhor: o que todos nós buscamos através do yoga é melhorar em todos os aspectos, mas melhorar para quê?

Meu professor com freqüência fazia essa pergunta para mim: o que você está buscando? Ou: o que você realmente quer? Eu com freqüência não sabia o que responder. Terminei muitas aulas com essa pergunta na cabeça. Muitas vezes a idéia do samadhi vinha à mente e, embora isso ainda fosse apenas uma idéia nebulosa numa mente turbulenta, era também um lampejo que ajudava no difícil processo de aprimoramento da percepção da realidade.

Outras perguntas decisivas na verdade são simples desdobramentos dessa primeira pergunta, assim como algumas recomendações, que são mais práticas do que parecem:

1) Não minta para si mesmo. Nunca. Isto não significa apenas «reconhecer e respeitar os próprios limites ao realizar um asana» -- como dizem os artigos bobos em revistas de ginástica que tratam de «satya na prática» e que usam expressões esquizofrênicas como «viver a sua verdade» --, mas principalmente saber diferenciar o papel que você precisa cumprir num determinado momento da pessoa que você realmente é. Por exemplo, seu chefe não está interessado se você é um amante de poesia francesa do séc. XIX; sua sensibilidade para poesia não o fará mudar de idéia sobre o relatório que você deve entregar até 17:00. No entanto, o fato de às vezes precisar cumprir papéis não significa que você precise cumpri-los para você mesmo. Mesmo que você ainda não saiba se você só é você quando se encontra despido de todos esses papéis ou quando experimenta a soma de todos eles (supondo que isso seja possível e desejável), o mais importante é vivenciar situações em que esses papéis são deixados de lado -- samyama é exatamente isso.

2) Reconheça que a verdade existe. Admitir que existe uma resposta para aquela primeira pergunta implica admitir que a verdade existe. E se a verdade realmente existe, ela não pode ser cristalizada num verbete ou num bibelô, embora possa ser vislumbrada a partir destas coisas (porque um verbete diz algo a respeito da verdade) e possa ser encarnada numa pessoa (um ente que teve uma origem e que tem uma história). Só se pode perceber todos os movimentos e turbulências a partir de uma base estável. Dizer que esta base estável é satya é caminhar em círculos: como se dá a existência de satya? Talvez você descubra que esta base estável é você.

3) Abandone, de uma vez por todas, expressões como «minha verdade», «sua verdade» etc. Entenda que a verdade não é algo que se possa possuir e busque a verdade que subjaz em cada uma das «verdades» dissonantes. Num nível intelectual, isto pode ser representado pelo processo dialético, que consiste no confronto de idéias dissonantes até que alguma síntese possa florescer. Isto é o que qualquer pessoa mentalmente saudável faz quando precisa tomar uma decisão ou avaliar uma situação: a metáfora da balança na qual colocamos prós e contras relacionados a uma determinada ação que precisa ser realizada nada mais é do que o bom e velho confronto dialético de teses e antíteses.

4) A meditação, em sua versão ocidental, é mais importante do que parece. Nas tradições espirituais e filosóficas do ocidente, meditar é o que muitos chamam de «ficar remoendo pensamentos». É uma expressão triste, que revela o desprezo que as pessoas desenvolveram nas últimas décadas a partir da contaminação com modas da Nova Era baseadas em interpretações porcas das tradições orientais. Na verdade, as modalidades ocidentais de meditação consistem em percorrer o caminho que leva à origem das próprias idéias, que é o primeiro passo para distinguir você de seus pensamentos. O exame de consciência, tal como aparece na tradição católica e que resiste bravamente como um dos poucos elementos de autoconsciência em sociedades decadentes, nada mais é do que uma forma de meditação. Na origem de todos os problemas emocionais e sociais é fácil entrever a ausência do exame de consciência e, portanto, das formas ocidentais de meditação.

5) Aliás, o exame de consciência do cristianismo católico tem muitas semelhanças com svadhyaya, o auto-estudo, quarto niyama do sistema de Patañjali, e, de forma menos específica, com atma-vichara, conforme ensinado por outro mestre, Ramana Maharshi.

Com efeito, a pergunta decisiva não é apenas sobre seus propósitos, mas sobre você mesmo, sobre quem você é. A verdade existe e ela começa no testemunho pessoal e individual sobre a própria existência.


06 maio 2016

Samadhi e sadhana


De acordo com a tradição, é possível atingir kaivalya pela bênção do guru ou pelo esforço próprio e dedicação aos ritos tradicionais (sadhana). Além disso, entre aqueles que se dedicam à sadhana há aqueles que avançam rapidamente a kaivalya e há aqueles aos quais cada anga exige um longo tempo. Logo, de fato, sob o ponto de vista disciplinar, não é estritamente necessário o samadhi para se chegar a kaivalya.

Se tomarmos samadhi como «último estágio ou requisito disciplinar antes da iluminação», veremos que isso existe em outras tradições, sob diversos nomes e formas. A oração cristã, sobretudo como conduzida por monges ortodoxos e trapistas, constitui uma prática com alguns resultados semelhantes aos do samadhi. O mesmo vale para algumas práticas budistas em suas diversas linhas -- a prática do zazen, por exemplo, tem muitas semelhanças com a prática do samadhi. Contudo, embora as práticas se assemelhem, as diferenças práticas e filosóficas/doutrinárias também devem ser observadas.

Por outro lado, é possível perguntar: até que ponto o samadhi faz sentido se extraído do ashtanga sadhana? O samadhi, tal como explicado por Patañjali, pressupõe sua inserção no sutra (teia ou sistema) e é isto que lhe dá sentido.

Com efeito, sob o ponto de vista disciplinar, a prática da meditação profunda pressupõe a resolução de questões básicas, como conflitos morais e bloqueios corporais -- como previsto no ashtanga sadhana. Se somarmos a isso as idéias de alguns estudiosos que afirmam que o yoga de Patañjali já trazia elementos do Tantra, as coisas ficam ainda mais complicadas e neste caso faria ainda menos sentido encarar o samadhi como uma prática isolada do ashtanga sadhana.

Em resumo, se você já está em kaivalya, a prática do samadhi torna-se opcional. Se você não está em kaivalya, o ashtanga sadhana certamente o ajudará -- inclusive na necessária tarefa de observar crenças sobre samadhi e kaivalya e distingui-las (à maneira do Atma-Vichara de Ramana Maharshi).

22 abril 2016

O mundo bizarro da yoga modinha



Publicado originalmente no site O Indigesto

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Semanas atrás Rodrigo Santoro esteve no programa do Faustão. O ator compartilhou com o público sua receita de bem-estar: yoga. Santoro não tinha a responsabilidade de fazer uma apresentação formal de uma tradição, mas seu depoimento fez com que algumas pessoas lembrassem que, antes do pilates, das terapias holísticas e dos studios assépticos e incensados da Vila Madalena, sempre houve uma tradição ensinando algo que o homem moderno insiste em desaprender. Para que você, leitor, possa valorizar a tradição do yoga como os mestres fazem, é necessário saber do que estamos falando.

Qualquer pessoa definirá o yoga como um sistema que combina técnicas corporais, respiratórias e mentais com a finalidade de obter bem-estar. Esta definição não está errada, ela apenas é uma simplificação construída a partir da exportação do yoga para plagas ocidentais e, portanto, de seu afastamento de seu contexto territorial, cultural e religioso original. Às vezes essa simplificação toma ares caricatos, como no caso daquele seu amigo engraçadinho que, quando você diz que pratica yoga, vira os olhos e começa a dizer «ooommm» com voz gutural. Sim, tem «ooommm» no yoga, mas se fosse só isso, seu amigo engraçadinho poderia ser considerado um mestre de yoga.

 
A ginástica que espiritualiza?

Um bom começo para compreender o yoga é compreender o que o yoga não é. Essa abordagem negativa pode não ser muito simpática, mas, como diz o ditado, antes de organizar a casa é necessário remover o lixo. E a verdade é que o universo do yoga hoje em dia está repleto de lixo. Uma das causas disto é o yoga moderno. Embora não haja uma definição precisa do que vem a ser a modernidade do yoga, podemos entender o yoga moderno como a tendência de utilizar o yoga para determinados fins que não estavam expressos na tradição, mesmo que isso possa trazer resultados positivos.

A origem da tradição do yoga também é incerta, mas a versão mais aceita diz que cerca de dois ou três séculos antes de Cristo o sábio Patañjali foi o primeiro a tratar do assunto de um modo objetivo para compilar um sistema mais ou menos prático e condensá-lo numa obra chamada Yoga Sutras. Quando falamos de yoga tradicional, por redundante que isso seja, estamos falando de um yoga que tem Patañjali como ascendente. 

A diferença entre o yoga moderno e o yoga tradicional é a mesma diferença que existe entre as canções (oi?) do Wesley Safadão e o Réquiem de Mozart. Se você aceita as canções do Wesley Safadão como obras musicais superiores, então como irá classificar o Réquiem de Mozart? O mesmo vale para o yoga: a visão moderna do yoga só pode ser yoga se o yoga tradicional não for.

Não sou yogi, mas...

Quando esse tema vem à tona, o isentão do yoga interrompe o vinyasa flow e pergunta: e daí? Essa discussão sobre yoga moderno versus yoga tradicional, essa rivalidade disfarçada de dualidade é muito bobinha, não? Por que não paramos com isso e vamos praticar mais e celebrar mais o yoga? Afinal, tudo é válido quando se trata de tornar as pessoas melhores, mais saudáveis, mais conscientes de si mesmas, certo? Tudo é válido quando se trata de divulgar o yoga. 

Primeiro, «pessoas melhores» é uma expressão bastante elástica — melhor em quê? Segundo, consta que, por exemplo, Hitler era uma pessoa muito saudável e que sua esposa, Eva Braun, era adepta da versão moderna do yoga e igualmente saudável — just saying... Terceiro, algumas psicopatologias podem tornar as pessoas assustadoramente conscientes de si mesmas. 

Em resumo: ainda que o bem, a saúde e a autoconsciência sejam associados à disciplina do yoga, estas qualidades são vagas demais para nos ajudar a definir e compreender o yoga. E, claro, divulgar o yoga per se não significa nada. 

No início dos anos 70 Caio Miranda divulgava o yoga no Brasil como técnica de relax (era o termo da moda na época em que o maior mal era o stress) para homens de negócios. Nos anos 80 B. K. S. Iyengar divulgava o yoga como técnica de fisioterapia. Neste início do séc. XXI temos visto Bikram Choudhury divulgando o yoga como modalidade esportiva competitiva. Divulgação, sobretudo quando ela assume a forma de marketing, pode demolir e construir culturas inteiras. Demolição, aliás, é uma palavra adequada quando se trata de compreender o que houve com a cultura tradicional do yoga.

Em 1966 B. K. S. Iyengar publicou sua principal obra, «Light on Yoga» (no Brasil foi publicada uma versão resumida deste livro com o título «A Luz da Ioga»). O livro traz a descrição detalhada de 202 posturas corporais. Muitas dessas posturas não podem e nem devem ser realizadas por pessoas que foram iniciadas no yoga tardiamente, isto é, depois dos cinco anos de idade. No início do livro há uma apresentação bastante razoável do que vem a ser o yoga. Porém, ali nos deparamos com as seguintes palavras de Iyengar:

My experience has led me to conclude that for an ordinary man or woman in any community of the world, the way to achieve a quiet mind is to work with determination on two of the eight stages of Yoga mentioned by Patañjali, namely, asana and pranayama.


Porque, afinal, é necessário ter régua para fazer yoga.

O que Iyengar diz nesse trecho despretensioso, que muitos admiradores de seu livro sequer devem ter notado, é o seguinte:
1)      O objetivo do yoga é obter paz de espírito.
2)      O sistema de Patañjali é constituído de oito partes.
3)      Duas dessas partes bastam para atingir esse objetivo.
4)      A meditação não é importante.
5)      E agora, com vocês, 202 posturas corporais para que vocês obtenham paz de espírito, mesmo que realizar algumas delas signifique passar onze dias sem poder andar com as próprias pernas e mesmo que nas entrelinhas estejamos enrolando vocês e afirmando que paz de espírito é algo que exige músculos firmes e flexíveis.

Mais, mais, mais — tudo para que o yoga seje menas

A visão do professor Iyengar é sem dúvida demolidora. Ainda que o professor Iyengar não tenha sido a principal influência para muitos professores e instrutores de yoga moderno nas últimas quatro décadas, fica evidente que os cinco itens acima condensam e expressam a essência do que o yoga tem sido ultimamente. Nestas quatro décadas temos visto: Ashtanga Vinyasa Yoga, Power Yoga e Vinyasa Flow Yoga, Swásthya Yôga, Yogaterapia, Yoga Pré-Natal, Yoga Hormonal, Yoga Restaurativo, Iyengar Yoga, Yoga Integral, Kundalini Yoga, Bikram Yoga e Hot Yoga. Seguindo direções ainda menos ortodoxas, há ainda Yoga Dance, Bambolê Yoga, Martial Yoga, Nude Yoga (sim, fazer yoga pelado), Acro Yoga, Yoga em duplas, Yoga Gravitacional, Dog Yoga, Baby Yoga, Yoga com Tambores, Yoga com Didgeridoo (aquela longa corneta dos aborígenes australianos) etc. A lista é interminável. Todos esses tipos de yoga não fazem nada além de ecoar de algum modo a desconstrução proposta pelo professor Iyengar, que, colocada em palavras mais atuais, pode ser resumida assim:
1)      O lance é ficar de boas.
2)      Existe uma tradição, mas e daí?
3)      Vamos fazer ginástica, porque isso vai deixar você de boas. Respire devagar.
4)      Meditar para quê?
5)      Temos ginástica para todos os gostos, bolsos e necessidades.
6)      Eu já lhe falei de ginástica? É para ficar de boas.
7)      Diga «ooommm» com voz gutural. Diga «namastê» em vez de «e aí, tudo bem?» Diga «gratidão» em vez de «obrigado!»

Diga «namastê» e tenha um fedor permanente de incenso.

Não é necessário ser um mestre indiano de yoga da Idade Média para perceber que isso não tem relação com a tradição do yoga. Em dois minutos no Google é possível descobrir o sentido original do yoga e qual o lugar do yoga moderno na linhagem que começa com Patañjali e se estende até os dias de hoje. A resposta é: não há lugar para o yoga moderno numa linhagem que inclua Patañjali. Tudo o que o yoga moderno tem feito é tabula rasa, a demolição dos cânones, a negação da tradição, a desconstrução de cada verso dos Yoga Sutras, a reinvenção da roda — tudo para apresentar-se como uma tradição milenar que começou anteontem com uma revelação que um ginasta espiritualizado de 27 anos de idade teve em um sonho em que o deus Shiva aparecia fazendo compras na 25 de Março.

Mas eu só quero ser feliz


A esta altura talvez o leitor talvez esteja se perguntando: «O que eu tenho a ver com isso tudo? Eu só quero ficar bem comigo mesmo.» Eu também quero. Todo mundo quer isso. Mas se o seu professor de yoga o fez crer que yoga é bem-estar, ginástica e ficar de boas, tenho uma má notícia para você: você está sendo engabelado.

Anos atrás estive em São Paulo com um famoso professor em seu studio para uma aula. Com alguns livros publicados, longa trajetória de estudo, pesquisa e ensino, ele indiscutivelmente tem uma visão bastante razoável do que o yoga é. Sua aula? Controvérsias a respeito do fato de que o yoga indiano não é tão tradicional como se pensa, posturas exeqüíveis somente por pessoas com pelo menos dois anos de prática física intensa e, ao fim, o relaxamento, obrigatório para os moradores da versão brasileira da cidade que nunca dorme. Na conversa que sucedeu a prática, planos para o lançamento de um livro a respeito do resgate da tradição. Saí de lá me perguntando por que ele não começou o resgate da tradição exatamente naquela aula. 

Quase todos os professores são assim. Foram formados em cursos que pregavam o resgate da tradição, mas que nada acrescentavam ao que Iyengar propôs em 1966 e que jamais o negariam. Ao contrário, a atitude mais comum hoje em dia é encarar o yoga como um território a ser redesenhado a partir do zero, num processo que tem como único limite a criatividade do desenhista, no qual o «resgate da tradição» aparece apenas como slogan, espécie de ISO 9000 para fazer o que der na telha.

Patañjali vive

Se já sabemos o que o yoga não é, o que o yoga é afinal? Dizer que o yoga verdadeiro é o yoga tradicional é uma resposta tautológica, é o mesmo que dizer que a verdadeira literatura é Homero, Shakespeare, Dante, Cervantes, Camões, sem saber exatamente o que estas pessoas fizeram. 

A tradição define-se como a parcela do passado que conseguiu resistir ao tempo e que permanece viva até hoje como herança, legado e norte. Se não há essa ligação viva com o presente, temos peças de museu, não uma tradição verdadeira. O mesmo vale para o yoga.

Para os modernos a tradição é uma velha penteadeira de mogno que só serve para acumular poeira e vidros com restos de perfume vencido. A penteadeira pode permanecer ali onde sempre esteve, como forma de legitimar o studio asséptico e incensado da Vila Madalena e suas aulas de ginástica e psicobiodança, que os incautos aceitam como yoga. Para quem realmente compreende a importância da tradição, o yoga tradicional é uma fonte interminável de lições valiosas para realizar os objetivos propostos por Patañjali e também por mestres modernos — aqui, no sentido estritamente cronológico do termo — como Ramana Maharshi e Nisargadatta Maharaj.
 
Senhoras e senhores, Ramana Maharshi. O prazer é todo seu.

Estes dois mestres tinham perfis que poucas pessoas associariam ao yoga. Ramana Maharshi possuía problemas posturais severos, com freqüência era indiferente às pessoas ao seu redor e morreu de câncer, pouco tempo depois de recusar uma cirurgia. Nisargadatta Maharaj, embora tivesse aparência mais saudável, tinha o costume de fumar, eventualmente comia carne, sua fala era qualquer coisa menos mansa, viveu numa favela de Mumbai, onde oferecia seus satsangs. Nos studios de yoga, Ramana e Nisargadatta são lembrados raramente, e apenas como mestres da filosofia do yoga, como se o yoga pudesse ser dividido entre aquilo que se pensa e aquilo que se faz. No entanto, são mestres genuínos, verdadeiros yogis — tendo em vista o sentido que Patañjali dá ao termo yoga. 

Se você quer conhecer o yoga e quer saber o que Patañjali chama de yoga, recomendo que leia os Yoga Sutras. O que posso adiantar é o seguinte:

1)      Se tudo que o ensinamento traz é o apreço pela tradição, o ensinamento é falso — é como, no ditado zen, olhar o dedo que aponta a lua, não a lua. O que um mestre faz — como Nisargadatta e Ramana faziam — não é perpetuar uma tradição e sim perpetuar um conhecimento. A tradição do yoga permanece viva através do conhecimento e da vivência do yoga, ações que têm pouco a ver com ritos tradicionais.

2)      Patañjali dedica três versos às assim chamadas «posturas do yoga». Isto é o oposto do que os professores modernos fazem e só isso já bastaria para dispensar tudo que os studios de yoga oferecem hoje em dia. O simples fato de utilizar o yoga para algo, de direcionar o yoga para um público específico (pessoas com depressão, obesos, executivos, atletas profissionais, grávidas etc.), mesmo com certo êxito, implica uma simplificação abominável de um sistema que não foi criado com fins utilitários.

3)      A cultura indiana e as tradições religiosas e espirituais daquela parte do mundo podem ajudar a compreender o yoga. Porém, mais uma vez, não se trata de perpetuar tradições e costumes, mas de tornar-se um yogi. O yogi não é aquele sujeito forte, magro e saudável que possui uma atitude zen diante dos problemas do mundo — seja lá o que for isso. O yogi é tão somente aquela pessoa que compreendeu o que ou quem ela é e que através dessa compreensão pode vivenciar a paz profunda — alguém que pode dizer com máxima sinceridade, como diz o Dom Quixote: eu sei quem sou. Até onde se sabe, nenhum ginasta de studio, nenhum terapeuta holístico e nenhum colecionador de dikshas compreendeu isso até hoje. 

Trata-se, repito, de sabermos quem somos. E o que somos? A genialidade de Patañjali não consiste em ter criado um sistema de yoga para todos, para o ser humano ideal, mas uma espécie de yoga para ornitorrincos, para seres cuja existência parece constituir um paradoxo — porque, afinal, o indivíduo real, único, é um paradoxo. Esse indivíduo não cabe numa sala de studio.