06 março 2021

Como curei meu vício em ginástica mística

Monges shaolin treinando num ashram indiano. Não... péra...

Eu fazia 108 surya namaskar a cada solstício. 

Revirava a Internet em busca de «posturas desafiadoras». Desenvolvi um estudo dos principais shastras do hathayoga com o objetivo exclusivo de catalogar e comparar as posturas contidas neles -- mas não pelos motivos certos.

Comprei livros com 200, 300, 400 posturas e os usei para construir minha prática diária. Estudei anatomia e alinhamento -- eu cheguei a pensar em comprar um tapete quadriculado. Participei de workshops e «aulões» de asanas. Dei aulas em academias de ginástica e «spas holísticos». Acreditei que isso tudo me ajudaria a realizar yoga. Acreditei que isso tudo ajudaria outras pessoas a realizar yoga.

Minha prática de samyama, que já era ruim, piorou nesse período. Os vrittis aumentaram.

Apesar disso, eu continuava acreditando que aquilo tudo me levaria a realizar yoga. Ou melhor (ou pior): eu sabia que aquilo tudo era o máximo que o yoga poderia proporcionar.

Assim como aquele instrutor norte-americano famosão (não me peça o nome), eu também acreditava que ser um yogi era fazer utthita hasta padangusthasana com máxima extensão das pernas. 

Utthita hasta padangusthasana. 
Para alguns especialistas, requisito para ser yogi. 

Ah, sim, eu conseguia fazer utthita hasta padangusthasana com máxima extensão das pernas. Tinha um bom domínio do corpo. Mas permanecer em silêncio num simples sukhasana por mais de 10 minutos era uma tortura.

Ao fechar os olhos só me vinham imagens de vinyasa suado e da prática postural geometrizada e pensamentos de que eu deveria voltar a transpirar e parar com aquela bobagem de «sentar em silêncio».

Como praticante, a perspectiva mais interessante era a de comprar o «Tratado de Yôga» e passar o resto da vida tentando reproduzir com perfeição as 2000 poses desse livro e depois seqüenciá-las em coreografias e depois ficar azul de tanto treinar e virar o Shiva dançarino e depois tentar alguma coisa com o Guiness (o livro, não a cerveja) e depois destruir o mundo para recriá-lo à minha imagem e semelhança num novo mundo em que todos se alfabetizariam com «Luz na Vida».

Como professor, o mais longe que eu chegaria seria produzir currículos no Word impressos com a tinta no fim, feitos com fonte Times New Roman tamanho 16 em negrito, e passar as tardes os entregando em academias de ginástica e concorrer com professores de educação física e crossfit.

Fui salvo desse destino aterrador quando me deparei com esta frase de Nisargadatta Maharaj:
O que não o leva a moksha necessariamente o afasta de moksha.
A ficha não caiu imediatamente porque quem está bebaço de tanto fazer ginástica precisa estacionar, retornar ao sedentarismo por algumas semanas e então recobrar a lucidez que permite compreender frases inteiras. Quando recuperei minha saúde mental, a ficha caiu e eu finalmente enxerguei.

Quatro luzes se acenderam diante de mim, quatro luzes intensas que me tiraram de um lugar pestilento e nauseabundo que eu vou chamar de -- pausa dramática -- Fabuloso Mundo da Ginástica Mística -- mas que para maior realismo também poderia ser chamado de Cracolândia do Wellness.

Eis as quatro luzes:

1. A busca por alinhamento, fortalecimento e alongamento é um  obstáculo para a prática de yoga. 

Quanto maior o foco nestas coisas, menor o foco em samyama. 

É claro que é bom ter uma boa postura, ser forte e ter um corpo flexível, mas estas três qualidades não têm relação com o yoga. 

Yoga mat para quem gosta de sofrer de TOC.

Como saber se algo tem ou não relação com yoga? É simples: se é algo que você pode aprender numa faculdade de educação física, não tem relação com yoga.


2. No yoga, todo desafio é contraproducente. 

Quero dizer, o ponto mais alto que se pode atingir por meio de um desafio é o... da superação do próprio desafio -- óbvio, não? 

Mas se você tem o QI maior que 17 percebe facinho que nenhuma técnica do hathayoga tem como objetivo desafiá-lo no que quer que seja, mas sim conduzi-lo ao samyama. E o primeiro que vier aqui dizer que «tapasya é uma espécie de desafio» ganha uma bolsa de estudos para o próximo Teacher Training do Bikram Choudhury numa casa da luz vermelha.


3. A prática isolada de asana faz com que o asana seja reduzido a um simples exercício isométrico. 

Asana só é asana se estiver inserido numa linha que conecta o indivíduo à prática de laya. 

Ah, você não pratica laya... Ok... 

Mas que pelo menos o asana aponte para laya, né? Que pelo menos o asana diga pra você: 

Ó, quando você estiver aqui comigo, permanecendo em silêncio interior e exterior por uns 10 minutos, aí eu vou segurar na sua mão e seguiremos juntos naquela direção ali.

Se o asana não lhe diz isso, não é asana.

A perfeição do asana, por Shivabala Yogi.


4. É possível, sim, dedicar-se à ginástica mística sem prejudicar sua prática de yoga. 

Entender este ponto me trouxe a certeza da libertação. 

Sabe aquele lance de «a César o que é de César»? Então. 

Quando você se cura da idéia de que ginástica mística pode iluminar, você consegue de fato se dedicar à ginástica mística e obter seus benefícios e também consegue buscar os meios que vão levar você ao entendimento real de si mesmo -- porque, lamento dizer, ginástica mística não o conduz a ao entendimento real de si mesmo. (brincadeira, não lamento não)

Então, se você entende isso você pode fazer as duas coisas sem problema algum. Você pratica yoga logo ao acordar e no final da tarde você pratica ginástica mística. Ou vice-versa.

A chave é não misturar essas duas coisas, não se iludir que elas podem ser misturadas, não inventar moda, não imaginar que o yoga vai deixar você fitness, não imaginar que a ginástica mística vai deixar você iluminadão e, acima de tudo, não ser o tocador de didgeridoo dos pinéis delirantes dizendo «você já é a felicidade que você busca» enquanto cinco alunos sofrem com o desafio dos 108 suryanamaskar num ambiente impregnado com aquele som abominável. 

Tem limite pra tudo nesta vida.

Não.

***

Depois destas quatro luzes eu não parei de fazer ginástica mística. Gosto de suryanamaskar, gosto de «dar uma alongada», gosto de plantar bananeira.

Mas como diz o meme: não é vício se eu paro quando eu quiser. E principalmente: não é vício se eu sei exatamente qual o bem e qual o mal aquele hábito proporciona.

Tudo, afinal, se resume a viveka: discernir, diferenciar, distinguir, discriminar, «seja o sim sim e o não não» -- ou em termos mais comuns para a galera do yoga: não alimentar a idéia de que o eterno é finito, que o puro é impuro, que alegria é dor e que o Ser é não-ser (Yoga Sutras, II:5). 

E, claro, não alimentar a idéia de que ginástica mística é yoga.


Blogger Tricks

26 fevereiro 2021

Esqueça a sua verdade

A minha verdade vale. A sua não.


Começo este longo texto explicando o que é «a sua verdade». Você já deve ter lido ou ouvido isso, por isso a explicação será breve e fácil.

Às vezes «a sua verdade» aparece como «a minha verdade» ou como «cada um tem a sua verdade», o que dá no mesmo. Estas três expressões significam a mesma coisa.

A idéia essencial é a seguinte:

Todas as pessoas são diferentes, têm convicções distintas e todas, sem exceção, têm o direito de ter essas convicções respeitadas. Eu tenho a minha verdade, você tem a sua verdade, cada um tem a sua verdade e todos nós devemos viver em paz e harmonia respeitando as verdades dos outros.

Trata-se, no fim das contas, de algo que também pode ser chamado de «respeito mútuo a verdades individuais».

Se você não percebeu de primeira que esta idéia é falsa e catastrófica, então este texto é para você. 

Prossigamos.


1. Não existe «minha verdade». Não existe «verdade pessoal».

Por definição, a verdade não é algo subjetivo ou relativo. É objetivo e absoluto.

Dizer que uma verdade é subjetiva e relativa é um oximoro, é uma contradição em termos, é o triângulo redondo, é a queda para o alto, é o flagrante retroativo.

Não há qualquer sentido numa verdade que é delimitada pelas idéias e convicções de uma única pessoa ou de um grupo de pessoas. 

«Verdade subjetiva e relativa» é opinião, visão pessoal, versão, interpretação ou, em casos mais graves, transtorno mental. Se é verdade, tem validade universal. Se não tem validade universal, não é verdade.


2. Mas e os índios de uma tribo isolada? Eles não têm a verdade delas? Isso não deve ser respeitado?

Respeitado, sim e apenas na mesma medida que se deve respeito a qualquer ser humano. Aceito, não necessariamente.

Pensemos, por exemplo, nas tribos que têm o costume de enterrar vivas as crianças que nascem defeituosas. A crença é de que estas crianças trazem má sorte para a tribo. É a «verdade» daquela tribo, algo válido no círculo estrito daquela tribo.

Antropólogos e outros especialistas devotos da idéia da «minha verdade» dizem que o homem branco não deve interferir nesse costume de executar crianças defeituosas.

A idéia de não-interferência e o costume abominável de execuções sumárias só sobrevivem quando a «minha verdade» exclui o contraditório, isto é, quando a «minha verdade», limitada e pessoal, recusa a simples possibilidade de existência de «outra verdade». 

Em outras palavras, o índio adulto que enterra viva a criança defeituosa e o antropólogo que acha isso aceitável não consideram que aquela criança também tem o desejo e o direito de viver, exatamente como o índio e o antropólogo têm.

Em resumo, a importância dada às «verdades individuais» resulta na exclusão de «outras verdades» e também de verdades universais.


3. Mas e daí? E o yoga?

Sim, voltemos ao yoga, mas coloquemos o seguinte com base no que foi dito antes: uma verdade só é uma verdade porque sobreviveu ao teste da realidade e foi colocada à prova com inúmeros contraditórios.

Por exemplo: eu digo que o céu é azul e você responde

Esta é a sua verdade. A minha verdade é que o céu é verde.

Há dois cenários possíveis a partir daqui.

No primeiro, eu saio andando afirmando que o céu azul, você sai andando numa outra direção afirmando que o céu é verde. Ficamos ambos com o respeito mútuo às «verdades individuais», que são meras expressões de convicções pessoais. Fim.

No segundo cenário, eu e você passamos a analisar as duas «verdades», tratando-as não como axiomas, mas como hipóteses. Isto nos leva às seguintes questões:

a. O que é cor?
b. Como funciona a percepção das cores?
c. O que é a cor azul?
d. O que é a cor verde?
e. O céu é um objeto cuja cor pode mudar? Se sim, por quais motivos?
f. Ou aquilo que se vê no céu tem uma cor constante? Esta cor é azul ou verde?
g. O espectro de cores possíveis do céu exclui a cor verde?
h. É possível que um objeto naturalmente azul seja percebido como verde (ou vice-versa)? Se sim, por quais motivos?
etc.

Independentemente do que você considere 
ser a «sua verdade», a verdade existe.


Agora sim, o yoga.

Ou melhor, ainda não. Falta um ponto antes de tratarmos da «sua verdade» no yoga.


4. Da validade e das implicações da expressão «minha verdade».

A questão aqui é a linguagem.

Se, como vimos no item 1, «minha verdade» é uma expressão sem sentido e necessariamente contraditória, usá-la com convicção é sinal de que o problema não está apenas na percepção e no entendimento da realidade.

Quem usa a expressão «minha verdade» a sério também tem problemas também no uso da linguagem.

Nas situações em que esta expressão é usada, fica claro que «minha verdade» é uma forma elegante e eufemística de dizer «minha mentira», «meu delírio», «minha ilusão», «meu faz de conta».

Pense numa criancinha de 3 anos de idade.

Quando você é uma criancinha de 3 anos de idade, você faz de conta que é um super-herói. Você não é um super-herói, você apenas faz de conta que é um.

Não é como um fingimento. Fingimento é aquilo que o ator faz num filme. A criança não finge, ela faz de conta. Parte de sua consciência sabe que ela não é um super-herói, outra parte acredita que ela é. E é por isso que a criança brinca de ser um super-herói com convicção, o que é o mesmo que dizer que a criança anda no limite entre a brincadeira e a alucinação. Se parecer assustador, substitua «alucinação» por «sonhar acordado».

Quando você é um recém-nascido o mundo consiste em cocô, seios e vultos e seus recursos lingüísticos se limitam a duas coisas: abrir o berreiro quando aqueles três elementos trazem algum desconforto físico e ficar quietinho fazendo sons fofinhos quando eles trazem conforto físico.

Aos 3 anos de idade o mundo é mais complexo. Embora nessa idade ainda exista a idéia de que o mundo é limitado aos próprios interesses, a realidade já deu mostras de que é um pouco mais complexa: um tombo mostra que perder o equilíbrio e bater o joelho no chão dói, o que exige da criança cada vez mais atenção ao sair correndo. Ela quer correr, ela quer voar, mas o chão e a força da gravidade dirão que há limites para estas coisas.

Quando a criança de 3 anos faz de conta que é um super-herói, isto é possível porque um adulto sempre está por perto para acompanhar a brincadeira. Esse adulto pode participar da «verdade da criança» ao ponto de fazer de conta que é um vilão, mas não ao ponto da criança achar que ela é um super-herói de verdade e querer saltar pela janela achando que vai voar.

«Minha verdade» é algo tolerável em crianças. 
Em adultos que se dedicam ao ensino de yoga, é um 
indício de transtorno mental ou de pilantragem. 


À medida que cresce, a pessoa perceberá que todo faz de conta oferece riscos, inclusive na adolescência e na idade adulta.

Aos 3 anos de idade o risco do faz de conta era de querer saltar pela janela, o que se resolve facilmente com a presença de um adulto. A criança de 3 anos de idade tem diante de si a perspectiva de brincar de faz de conta por mais uns 5 ou 6 anos (varia conforme a criação, claro). Quem já é adulto não tem.

Se você brinca de «minha verdade» aos 3 anos de idade, usando o vestido da Princesa Elsa, você é fofinha e engraçada e seus pais ficam tranqüilos porque sabem que um dia você vai deixar de ser criança e vai entender as diferenças entre realidade e imaginação.

Se você brinca de «minha verdade» aos 30 anos de idade, você não é fofinha e engraçada, você está sendo retardada ou pilantra.

E é aqui que podemos finalmente voltar ao yoga.


5. Afinal, qual o problema da «minha verdade» no yoga?

O primeiro problema é que não existe «a minha verdade» no yoga. Existe a verdade do yoga.

Se o que você considera «a minha verdade» é diferente da verdade do yoga, então não é verdade alguma. O contrário de verdade é mentira, auto-engano, ilusão, delírio. Se fosse uma criança, poderia ser um faz de conta, mas agora estou falando de yoga e de adultos.

Você pode duvidar do que eu disse, claro. Por exemplo:

Mas existe, sim, a minha verdade. Eu faço vinyasa e sinto a introspecção, o fluxo das energias sutis, eu me conheço, me aceito e me compreendo quando pratico vinyasa. Por que excluir isso? Por que isso seria um delírio?

O que você sente ao praticar vinyasa ou qualquer outra coisa sem relação com o yoga não é um delírio. Aconteceu, é real. Mas não é a sua vivência que está sendo discutida. Aliás, não se trata de você, não se trata de nada que possa ser identificado como «seu».

O que está sendo discutido é a validade disso COMO YOGA.

A questão aqui é idêntica àquela discussão sobre a cor do céu.

O céu é azul ou é verde? Se houver qualquer dúvida, se houver qualquer choque entre «minha verdade» e «sua verdade», é necessário que o choque realmente aconteça, pegue fogo, que as «verdades» saiam no tapa e sejam trazidas novamente para o campo das hipóteses e das possibilidades e sejam investigadas até que se possa concluir algo a respeito da cor do céu.

Claro que isto depende do grau de interesse em chegar a alguma conclusão.

Pode não ser muito importante para este mundo que haja pessoas que crêem que o céu é azul, outras que crêem que o céu é verde ou bege ou rosa-choque. Pode não ser muito importante que haja pessoas que crêem que yoga é ginástica e que até o ensinam desta forma. Novamente, é a vivência delas, é a experiência delas.

Um céu imaginário desenhado com dois lápis diferentes por uma criança de 3 anos num papel sulfite pode ser azul e verde ao mesmo tempo. Mas o céu não pode ser azul e verde ao mesmo tempo e de fato.

De modo análogo, o yoga não pode ser ginástica e prática de samadhi ao mesmo tempo pelo simples fato de que ginástica e samadhi pertencem a planos diferentes da realidade. É como ser um axioma e um abacate ao mesmo tempo. 

A afirmação da «minha verdade», que diz que vinyasa intensifica o fluxo das energias sutis, só é possível mediante a exclusão discriminatória da verdade estabelecida pelos mestres -- uma turma que ao longo de muitos séculos afirmou uma única e mesma coisa a respeito do yoga, algo que Vyasa, inspirado por Patañjali, expressou com força e pureza inigualáveis:

Nota-se que não sei fazer GIFs animadas.


O segundo problema da «minha verdade no yoga» é uma conseqüência direta do primeiro: se «minha verdade no yoga» é algo desprovido de sentido e desconectado do yoga, por que raios alguém iria querer usar isto como base para realizar e ensinar yoga?

Na realidade, este é o único problema.

Se a «minha verdade» fosse realmente uma escolha individual, restrita à ermida que a pessoa escolheu para si e apenas para si, eu nem teria começado a escrever este longo texto.

O problema é que quem acredita na «minha verdade» não a quer fechada numa ermida.

Quem acredita na «minha verdade» quer que a «minha verdade» seja sua também, seja nossa, seja de todos. Quer o coletivo, quer as ruas, quer o viral, quer seguidores e clientes.

Quem acredita na «minha verdade» quer que ela seja transformada num novo estilo, num novo método, que sempre, sempre, sempre vai receber o nome de «yoga» e vai virar um curso online, ainda que a simples existência desse novo método baseado na «minha verdade» ignore cinco verdades simples cuja lembrança invalidaria todas as «verdades inidividuais e subjetivas»:

I. O yoga tem uma origem
II. O yoga tem criadores
III. O yoga tem mestres
IV. O yoga tem tradição
V. O yoga tem linhagem

Quem reconhece estas cinco verdades simples abandona qualquer idéia ou pretensão a respeito de «minha verdade» por uma razão muito simples: no yoga não há margem para «meu», para escolhas pessoais e para visões pessoais.


6. Mas eu acho que a «minha verdade» é tão boa que eu quero ensiná-la às pessoas. É a minha contribuição. O yoga me fez tão bem e me trouxe coisas tão boas que agora eu quero compartilhá-lo.

Quem diz isso sem ter um guru não quer «compartilhar» porcaria nenhuma.

«Sua verdade»? Não, obrigado.


Se você não tem um guru e mesmo assim quer «compartilhar a sua verdade», o que você quer na realidade é recuperar sua grana e pagar suas contas. No fundo, você sabe que o que você aprendeu é um troço tão misturado quanto um mercado público em Istambul e que não há a menor chance disso ser vendido como algo puro, livre de influências alienígenas.

Você colocou muita grana num curso de formação que não lhe ensinou nada sobre samadhi, unmani, laya, dvadashanta e prana bandha porque as lições sobre ginástica postural e anatomia tomaram 90% do tempo. Os outros 10% do curso foram ocupados com um bônus de «yoga em dupla», leitura de «O Coração do Yoga», abraços coletivos e lágrimas porque «o módulo deste fim de semana foi lindo».

Para piorar, hoje em dia qualquer pessoa pode produzir e vender «sua verdade» no yoga fazendo um curso xexelento de 200 horas de ginástica mística e colocando fotos bonitas numa rede social. Isto significa que, para destacar-se de outras «minhas verdades», essa «sua verdade» precisará ser maquiada com os vernizes do yoga verdadeiro. Mas isso nem é tão difícil assim.

Me empresta um incenso aí?


Patañjali nunca disse nada sobre a relação entre a prática do samadhi e a prática de natarajasana de biquini numa praia do Caribe, mas isso não tem importância para o otário -- ops! -- o leigo pagante. Ele se baseará nas informações circulantes para (tentar) diferenciar um yogi que ensina samadhi de um falsário que ensina «minha verdade» como se fosse o yoga de Patañjali ou dos nathas.

A referência popular de yogi, pelo menos desde 1960, é o sujeito que consegue fazer a postura da árvore com os olhos fechados sem ser estátua humana em pracinha de cidade turística, que consegue plantar bananeira sem ser capoeirista de vídeo para turista ou que consegue fazer ponte ser uma pré-adolescente que faz balé depois do inglês, da natação e do Kumon. Se o sujeito realiza pelo menos uma dessas proezas, é um yogi de verdade. Pelo menos é o que dizem.


7. Muita arrogância sua dizer que o yoga que eu ensino e pratico não tem valor. Oras, tudo é yoga!

Been there, done that.

Quem sofre da autolatria delirante da «minha verdade» em algum momento tira essa carta da manga: tudo é yoga.

NONONONONONONONONO.


O raciocínio é simples: a «minha verdade» não vale como yoga por si mesma, mas ela vale como yoga por causa do universalismo do yoga. Em outras palavras, se tudo é yoga, «minha verdade» também é.

O otário -- ops! -- o leigo pagante cai nessa porque, embora não compreenda muito bem o que significa «tudo é yoga», sente que a frase é muito profunda, tão profunda que um leigo pagante tem mais é que ficar quieto, tirar a carteira do bolso e aceitar frases profundas porque em algum momento a verdade contida ali se revelará e ele deixará de ser leigo.

Esta é bem fácil: se tudo fosse yoga, nada seria yoga.

Se tudo fosse yoga, não existiria nada fora do conjunto de todas as coisas que pudesse ser identificado como yoga. Se tudo realmente fosse yoga, sequer haveria sentido em usar o termo yoga para referir-se ao yoga. 

Poderíamos falar de uma maçã -- isso também é yoga. Ou de uma moça fazendo natarajasana de biquini no Caribe, de um cachorro Dachsund, de uma vomitada no final da balada, de uma Lamborghini Diablo, de um sanduíche de queijo de búfala, de um crime de estelionato, de uma garrafa de pisco ou de um índice da bolsa de valores. Se tudo é yoga, cada uma dessas coisas também é.

Conclusão:
Quem diz a sério que tudo é yoga precisa de ajuda psiquiátrica.
Quem diz só de brincadeirinha que tudo é yoga tem uma pilantragem escondida na manga.

Porque é óbvio que nem tudo é yoga.

E se é óbvio que nem tudo é yoga, provavelmente deve ser mais adequado usar nomes diferentes para referir-se a coisas essencialmente diferentes como a prática milenar do samadhi e a prática de alongamento místico com trilha sonora da Enya e incenso barato. 


8. Em resumo: chega.

Enfie «sua verdade» no lugar de onde ela nunca deveria ter saído. Para os yogis a «sua verdade» vale tanto quanto aquilo que você deixa no vaso de seu banheiro todos os dias.

A «sua verdade» no yoga só tem importância 
se ela for igual à verdade dos mestres. 

Se não ficou claro até aqui, coloco em formato de lista numerada e negritada e com fundo bonitinho, porque eu sei que tem gente que só vai ler esta lista mesmo:


***

Para finalizar, lembre que no yoga só há três condições: ou você é guruyogi ou você é um aprendiz orientado por um guruyogi ou você não é nada.

Mas não desanime. Ser nada no yoga não significa que você seja um imprestável. 

Você continua tendo condições de ser uma boa pessoa, um bom profissional, um bom amigo, um bom professor de alongamento, um bom cuidador, um bom criador de chinchilas, um bom influencer com vasos e vídeo 4K, mas não um yogi.


15 março 2020

Vamos estudar anatomia?



Sim, vamos, mas vamos estudar também nutrição, fisiologia, climatologia, microeconomia, bioquímica, psicologia... Que tal? Se anatomia é fundamental para o praticante de yoga, todas estas ciências também são, certo?

Vamos às explicações.

Anatomia é tão necessário para o praticante de yoga quanto qualquer outra ciência moderna. Numa escala de 0 a 100, a importância das ciências modernas para o praticante de yoga é 0 (zero). Em outras palavras, não é necessário estudar anatomia para praticar yoga.

Mas ter algum conhecimento de anatomia não ajuda na realização das posturas corporais? Claro que ajuda, mas desde quando praticar yoga consiste em realizar posturas corporais?

A partir daqui o leitor talvez comece a entender uma coisa importante: saber se uma ciência X ou uma disciplina Y são necessárias para o praticante de yoga depende de compreender o que é o yoga. Se a essência do yoga estivesse na realização de posturas corporais, sim, seria importante conhecer o corpo em seus mínimos detalhes, inclusive com conhecimentos de anatomia.

Donde a pergunta: qual relação o yoga tem com as posturas corporais? Resposta: pouca, quase nenhuma.

Se o yoga consiste em meditar, todo o conhecimento de anatomia de que você precisa é aquele necessário para você sentar-se com conforto, respirar calmamente e meditar -- coisas que uma criança tem condições de fazer sem ter estudado anatomia. Todos os grandes mestres yogis dos últimos séculos, desde Gorakshanath até Ramana Maharshi, também conseguiam fazer essas coisas sem nenhum conhecimento de anatomia. Em resumo, para realizar yoga não é necessário conhecer anatomia.

Vou além: estudar anatomia é um obstáculo para a prática de yoga.

Pensemos: se conhecimentos de anatomia não são necessários para realizar yoga, por que alguém interessado em yoga estudaria anatomia? Certamente não para realizar yoga, mas para realizar posturas com perfeição anatômica. Este objetivo, claro, pressupõe que a realização de posturas com perfeição anatômica é mais importante do que realizar yoga. Em pouco tempo, o praticante estará mais preocupado em explorar os limites anatômicos de seu corpo (por exemplo, ampliar a torção de um matsyendrasana) do que em realizar asana para encaminhar-se para o samyama. Em outras palavras, o que era um anga do yoga perde seu sentido original e seus aspectos mais superficiais passam a ser os mais importantes na definição e no direcionamento da prática -- que, a esta altura, não merece mais ser chamada de yoga.

Um detalhe curioso: verdadeiros hathayogis não se lesionam; «yogis modernos», que têm profundos conhecimentos de anatomia, às vezes se lesionam. (Observe a quantidade de instruções sobre anatomia são disponibilizadas hoje em dia com o subtítulo «como prevenir lesões no yoga».)

Como é possível que os verdadeiros hathayogis, sujeitos que vivem isolados em ashrams ou até mesmo em cavernas e florestas praticando hathayoga, afastados de todo conhecimento ocidental sobre anatomia, como é possível que esses sujeitos não se lesionem? E como é possível que aqueles «yogis modernos», que são profundos conhecedores de anatomia, acabem se lesionando ao realizar algumas posturas? Não deveria ser o contrário?

O que ocorre aqui é parecido com os tristes casos de afogamento em praias e rios: quase todas as vítimas de afogamento eram pessoas que sabiam nadar. Se a natação é entendida como um meio de expor-se a situações perigosas sem risco algum, então o sujeito acreditará que é dotado de um poder suficiente para essa exposição. E é aí que tragédias acontecem.

No yoga acontece algo semelhante quando se trata de estudar anatomia. O conhecimento de anatomia traz embutida a noção de que é possível «ampliar limites» e de que isso é bom e importante no yoga. E é aí que o sujeito se lesiona. Observe que a esmagadora maioria dos estudantes de anatomia em escolas e «studios» de yoga busca esses conhecimentos não porque quer entender melhor o próprio corpo, mas porque quer «intensificar o asana» sem se sujeitar aos riscos que essa intensificação oferece ou porque -- no caso de um curso de formação -- quer orientar pessoas que têm interesse nisso. Oras bolas, por que seria necessário «intensificar o asana»? O que isso tem a ver com yoga?

*

Perguntas e respostas relacionadas ao tema:

1) Então, não devo estudar anatomia?
Se seu interesse é em yoga, você deve estudar yoga, não anatomia.

2) É ruim estudar anatomia?
Não. É bom estudar anatomia -- sem ironias. É sempre melhor conhecer seu corpo do que não conhecê-lo. Recomendo que todos estudem um pouco de anatomia, assim como recomendo que todos estudem um pouco de fisiologia, de nutrição etc. -- enfim, ciências que têm relação com seu corpo, com sua mente etc. Mas, novamente, esses conhecimentos nada têm a ver com yoga. Se você busca esses conhecimentos com o objetivo de se tornar um yogi, você está se enganando e se afastando do yoga.

3) Faço um curso de formação que inclui aulas de anatomia. Estou jogando meu dinheiro fora?
Sim, está. Cursos de formação que incluem aulas de anatomia baseiam-se na idéia obviamente falsa de que tal conhecimento é necessário não apenas para realizar yoga como também para ensinar yoga.

4) Devo parar o curso?
Não sei. Um curso de formação que inclui aulas de anatomia parte do pressuposto de que o futuro instrutor atenderá alunos que buscam «aulas de yoga» da mesma forma que algumas pessoas buscam aulas de pilates, de alongamento ou mesmo de musculação. Estas pessoas terão interesse em conhecimentos de anatomia porque já chegam com a idéia de que isso é importante para a prática de yoga. Se você quer recuperar seu investimento, provavelmente será necessário concluir o curso e trabalhar por um tempo atendendo esses alunos. Em resumo, você precisará continuar se enganando por algum tempo.

5) Você só teve condições de escrever este texto porque estudou anatomia. Isto não prova que para desenvolver-se no yoga é necessário conhecer anatomia? Não é possível dispensar um conhecimento que não foi assimilado.
Sim, estudei anatomia, mas não tanto quanto os praticantes e instrutores de yoga interessados em «alinhamento de asanas», «ajustes e correções de asanas», «asanas musculares», «asanas para quem tem escoliose» etc. Garanto ao leitor que meus conhecimentos sobre anatomia não são maiores do que os de um adolescente recém-saído de um bom ensino médio. A questão aqui não é conhecer anatomia, mas conhecer yoga.


02 fevereiro 2020

Yoga para quem nunca praticou yoga


Você ouviu falar que yoga faz bem para o corpo e a mente, já viu médicos recomendando a prática de yoga, já viu amigos falando maravilhas sobre isso, mas não sabe exatamente o que é yoga e nem por onde começar? Seus problemas acabaram.

Vamos lá:

1) O que é yoga?

Yoga é meditação.

Embora modernamente meditação seja um termo bastante elástico, podemos ser um pouco mais específicos: praticar yoga é praticar meditação com o objetivo de ver e compreender quem você é, é o exercício do silêncio interior profundo

Muitos mestres de yoga repetem o lema «você não é o corpo, você não é a mente». Por meio do yoga você consegue elevar este lema do simples nível da intelecção (ler e compreender uma frase) ao nível da vivência plena. Avançar na prática do yoga (isto é, na prática da meditação) significa permitir que essa vivência ilumine sua percepção e remova as máscaras que você construiu e se acostumou a usar. Assim como você não é o corpo e não é a mente, você também não é uma carreira profissional, não é um parentesco, não é uma imagem ou um «look», não é uma doença crônica, não é um hábito etc.

Sei que para quem nunca praticou yoga, estas palavras podem soar complicadas. Caso isso ocorra, basta retornar ao início: yoga é meditação, nada além disso.


2) O que é hathayoga? Não é o mesmo que yoga?

Não. Como vimos acima, yoga é meditação.

Hathayoga é uma tradição de origem tântrica que tem como objetivo usar disciplinas sensoriais para acelerar o processo da meditação e potencializar seus efeitos. Colocando em termos mais simples (e menos precisos): trata-se da meditação facilitada e potencializada por meio de técnicas corporais, respiratórias e energéticas.

Há inúmeras formas de se praticar yoga. Em obras clássicas como o Bhagavad Gita e os Upanishads fala-se da prática do yoga por meio de ritos devocionais, por meio da fé no guru etc. Quase nada disso tem relação com técnicas corporais, respiratórias e energéticas -- estes elementos ou rotinas disciplinares são específicos do hathayoga.

Em resumo: yoga é meditação; hathayoga é o yoga facilitado e potencializado por meio de técnicas corporais, respiratórias e energéticas.


3) Mas e os estilos de yoga que usam e priorizam vinyasa, alinhamentos, anatomia etc.? São técnicas corporais, respiratórias e energéticas, não? Tudo isso é hathayoga, não?

Não.

Primeiro, vinyasa (posturas do hathayoga realizadas de forma seqüenciada, quase como uma coreografia), alinhamentos, orientações a respeito de anatomia, medicina, aspectos terapêuticos etc. são invenções recentes (meados do séc. XIX até os dias de hoje). Por muitos séculos o hathayoga produziu hathayogis sem precisar destas coisas. Adicionar estas coisas ao hathayoga trouxe dois resultados:

  1. Elas se tornaram mais importantes do que o yoga, ao ponto de não sobrar quase nada que possa ser reconhecido como yoga nesses «estilos de yoga» (lembre-se do início: yoga é meditação para o conhecimento de si, é o exercício do silêncio interior profundo).
  2. Os sistemas resultantes dessas adições não têm produzido hathayogis nem yogis. Qualquer «instrutor de yoga» da atualidade está muito mais próximo de um professor de academia de musculação ou de crossfit do que de um yogi, de um grande meditador.

Ainda que essas invenções modernas possam ter alguma semelhança com técnicas do hathayoga, elas não foram criadas com o objetivo de realizar yoga e não produzem esse efeito.


4) Como posso começar a praticar yoga?

Se você entendeu o que é yoga e realmente quer começar a praticar, medite. Leia sobre meditação. Busque informações que possam ajudá-lo a meditar 10, 15, 30, talvez até 60 ou 90 minutos todos os dias. Como eu disse no início, o yoga é isso.

Se você entendeu o que é o hathayoga e tem certeza de que é isso que você busca, lamento informar: não há hathayogis devidamente iniciados oferecendo aulas e cursos presenciais no Brasil. O mais próximo disso que você encontrará são estes cursos on-line.

Se você busca a ginástica postural que os «professores de yoga» chamam de yoga ou de hathayoga ou de «hatha contemporâneo» hoje em dia, pergunte-se o que exatamente você está buscando. Se você busca benefícios corporais, atividades como musculação e natação trarão resultados mais impactantes -- seja na definição muscular, no emagrecimento, na postura etc.


5) Ok, entendi que yoga é meditação e que meditar será melhor do que procurar aulas de yoga em escolas e «studios». Mas para meditar é necessário preparar a mente e principalmente o corpo, não? Se entendi bem, é isso que o hathayoga propõe e os «estilos de yoga» modernos, embora não sejam hathayoga, também proporcionam essa preparação física e mental para a meditação. No fim das contas, praticar um desses «estilos» não leva aos mesmos resultados do hathayoga e à construção da mesma base física e mental necessária para a meditação?

Imagine cinco práticas diferentes com intensidade de média a alta por 30 minutos. Todas elas exigem esforço físico e concentração. Todas elas queimam calorias, ajudam no fortalecimento muscular e desenvolvem foco mental:

  1. musculação
  2. corrida
  3. exercícios isométricos
  4. vinyasa 
  5. natação

Ao final da prática, interrompa todos os movimentos, sente-se no chão numa superfície confortável e estável, sem apoiar as costas em nenhuma superfície, feche os olhos e permaneça imóvel e em silêncio por pelo menos 10 minutos.

A sensação de silêncio profundo, de mergulho em si mesmo, de desaceleração das oscilações mentais será muito parecida nos cinco casos.

O que quero dizer é o seguinte: se sua intenção é realmente praticar yoga -- isto é, chegar à meditação, à vivência do silêncio profundo --, os chamados «estilos de yoga» proporcionam os mesmos resultados de atividades físicas comuns. Porém, isto ainda não é yoga e também não é a estabilidade física e mental que o hathayoga proporciona. Nos cinco casos mencionados acima ainda estamos fora do universo estrito do yoga e do hathayoga.

Retorno ao que já foi dito: se seu interesse verdadeiro é em yoga e se você quer começar de algum lugar, comece pela meditação. Os obstáculos que você encontrará para meditar 10 ou 15 minutos por dia -- um tempo razoável para quem nunca meditou -- serão muito menores do que os obstáculos que você vai criar para si mesmo alimentando a crença de que vinyasa ou yoga restaurativo ou yoga com props ou power yoga poderão levá-lo à vivência do silêncio profundo. Não se engane, seja honesto consigo mesmo.


6) O hathayoga é assim tão importante para quem busca a vivência do silêncio profundo?

Depende. Grandes yogis como Ramana Maharshi e Nisargadatta Maharaj não eram hathayogis. Eles realizavam yoga por outras vias -- além da meditação, havia também o estudo filosófico e os satsangs (reuniões para aprendizado direto com o guru, o que reforçava a importância da ascendência e da tradição).

Se considerarmos que yoga é meditação para o conhecimento de si mesmo, veremos que o yogi não é o sujeito que faz cosplay de pretzel ou que consegue ver o próprio traseiro sem um espelho, mas sim o sujeito que medita e que a partir disso desenvolve um profundo conhecimento de si mesmo e um silêncio interior inabalável. Fim.

Ocorre que algumas pessoas demonstram o interesse em desenvolver tais qualidades a partir de técnicas de manipulação sensorial, corporal e mental. O hathayoga foi feito para essas pessoas.

O hathayoga não foi feito para quem quer usar essas técnicas para emagrecer, para definir os músculos, para tornar-se flexível, para reduzir a celulite, para transar melhor, para dormir melhor etc. Ainda que algumas técnicas do hathayoga possam produzir esses efeitos, o fato de elas não terem sido criadas com essas finalidades nos leva a concluir o seguinte:

- técnica corporal, respiratória, energética criada por hathayogis, integrada à tradição e usada para realizar yoga = técnica de hathayoga
- técnica corporal, respiratória, energética criada por hathayogis, isolada da tradição e usada para aperfeiçoar o corpo = técnica de ginástica

No fim das contas, é tudo uma questão de usar os nomes da forma correta. Chame de yoga o que é yoga, chame de hathayoga o que é hathayoga, chame de ginástica e auto-ajuda o que é ginástica e auto-ajuda. E para usar os nomes da forma correta é necessário saber o que eles significam.


7) O que isso tem a ver comigo? Eu nunca pratiquei yoga, apenas quero me alongar um pouco em casa para manter a saúde em dia e destravar a coluna. Já não sei mais se devo praticar yoga.

Yoga e hathayoga como definidos neste artigo, como entendidos por séculos e séculos, como perpetuado pelos mestres de yoga, não, acho que você não deve praticar yoga e provavelmente não tem condições nem interesse para isso.

Se você só quer se alongar um pouco, manter a saúde em dia e ficar mais flexível, o que você está buscando é um programa de ginástica em casa.

Há diversas «escolas de yoga» que oferecem aulas excelentes de ginástica. Há canais no YouTube com programas seqüenciais de «yoga» muito interessantes para quem tem problemas na coluna. Há instruções muito boas sobre séries de «power yoga» ou «vinyasa yoga» para quem visa o fortalecimento muscular e o emagrecimento.

Uso aspas com o termo yoga porque, obviamente, em nenhum desses casos trata-se de yoga. Cada vez que essas pessoas, esses professores, esses canais do YouTube, esses sites usarem o termo yoga, leia-se «ginástica indiana», que pode ser uma ótima opção para quem não gosta do barulho das academias de musculação ou da atmosfera «coach» das academias de crossfit.

Se o seu interesse principal é fazer ginástica num ambiente mais calmo, com pessoas que falam baixo e que cumprimentam você sem pegar na sua mão porque precisam usá-la para fazer o «namastê», esse «yoga» é perfeito para você.

Mas se o seu interesse principal é mesmo em yoga, repito: medite.


30 janeiro 2020

A biblioteca do praticante de yoga: esclarecendo 5 dúvidas freqüentes


Este texto tem como objetivo apresentar algumas recomendações de leitura e esclarecer algumas dúvidas comuns aos praticantes de yoga quando se trata de escolher livros. Vamos a elas:


1) O que o praticante de yoga deve ler?

Chamam-se obras fundamentais, como o nome sugere, aquelas que fundam uma corrente de pensamento, uma tradição, uma disciplina, uma ciência etc. Este é o caso do que se convencionou chamar de «clássicos». Na literatura universal este é o caso das obras de Homero, Dante, Camões, Shakespeare e Cervantes, entre outros.

No yoga, as obras fundamentais são aquelas que estabelecem o yoga como a tradição que se perpetuou até os dias de hoje. Enquadram-se nesta definição

  1. os Yoga Sutras, de Patañjali, 
  2. os Upanishads do yoga, 
  3. o Bhagavad Gita, 
  4. as escrituras produzidas por mestres nathas, como Hathayoga Pradipika, Gheranda Samhita, Shiva Sutra, Goraksha Shataka e Goraksha Paddhati, Gorakh Bodha etc.

O que estas obras têm em comum? Primeiro, são antigas, foram escritas muitos séculos atrás. Claro que a idade em si não quer dizer muita coisa, mas o fato de serem antigas e terem chegado até nossos dias, século XXI, significa que elas possuem a força necessária para se perpetuar. Em outras palavras, elas estabelecem e reafirmam verdades importantes quando se trata de compreender o yoga. São estas obras que devem ser lidas.


2) A leitura é fundamental para o praticante de yoga?

Sim e não.

Se você dispõe de um guru para orientá-lo, ele é o seu livro, ele é tudo de que você precisa. Leia o que ele determinar -- se ele determinar que é necessário ler algo.

Ademais, se o yoga é meditação, o fundamento de sua prática e de seu estudo é a meditação. Nenhum livro ensina o que a meditação ensina. (Doravante, onde aparecer escrito «yoga», leia-se «meditação» e vice-versa.)

Mas digamos que você quer ler algo como forma de nutrir o intelecto e encontrar dicas que podem auxiliá-lo em sua prática de yoga. Neste caso, as únicas leituras necessárias são aquelas mencionadas no item 1: aquelas que fundam o yoga, que o estabelecem como uma tradição, que o reafirmam como meditação, como nirodha, como laya, como samyama.


3) Certo, devo ler as obras antigas. Mas e as obras modernas, mais recentes, não devem ser lidas?

Primeiro, vamos estabelecer o seguinte: obras modernas de yoga são aquelas escritas e publicadas a partir de meados do séc. XIX até os dias de hoje.

O que houve a partir de meados do séc. XIX, que mudou drasticamente o modo como o yoga era compreendido e ensinado? A explicação é longa, mas o resumo é este: a ascensão da ginástica (de ascendência militar) e do higienismo (por influência britânica). Os cuidados com a saúde física e a perfeição corporal estabeleceram-se como metas importantes inclusive para praticantes de yoga. Isto explica o advento da yogaterapia (o uso de técnicas do hathayoga como meio de curar doenças) e do vinyasa, que foi o ápice da «ginasticalização» do hathayoga.

Praticamente todos os livros escritos a partir dessa época, assim como os livros mais famosos atualmente têm como pressuposto a idéia de que o principal objetivo do yoga é o bem-estar físico e mental. Isto vale para os livros de quase todos os autores do séc. XX:

  1. Hermógenes
  2. B. K. S. Iyengar
  3. T. Krishnamacharya
  4. Pattabhi Jois
  5. Selvarajan Yesudian
  6. T. K. V. Desikachar
  7. Satyananda Saraswati
  8. De Rose (pai e filho)
  9. Dharma Mittra
    etc.

Minha recomendação é que você leia as obras destes autores depois de ler, entender e assimilar as obras dos autores antigos -- não antes.

Por exemplo: se você ler «Yoga para Nervosos» antes de ler os Yoga Sutras, inevitavelmente acreditará que o objetivo do yoga é aliviar o stress e começará a misturar efeitos colaterais e objetivos. Em pouco tempo estará pensando como aquele famoso instrutor norte-americano que disse que «quem não consegue fazer Utthita Hasta Padangustasana não tem condições de ser um yogi» -- uma idéia obviamente sem sentido.

Outro exemplo especialmente didático: nos Yoga Sutras, Patañjali descreve um sistema de oito passos para o praticante de yoga. Em 1966 o instrutor indiano B. K. S. Iyengar publica «Light on Yoga», em cujo prefácio encontramos o seguinte:
Minha experiência levou-me a concluir que para um homem ou mulher comuns, em qualquer comunidade do mundo, a maneira de atingir a paz de espírito é trabalhar com determinação em dois dos oito estágios da ioga citados por Patañjali, a saber, asana e pranayama.
Há dois problemas neste parágrafo. O primeiro é insinuar que yoga e «paz de espírito» são a mesma coisa -- uma evidente confusão entre a disciplina e o efeito da disciplina. O segundo é propor a redução do yoga a um sistema binário, como se sem estes seis angas o yoga pudesse continuar sendo yoga.

«Light on Yoga» é uma obra que nasce sob a atmosfera New Age. É um livro de yoga para ocidentais interessados nos benefícios do yoga para a saúde. Trata-se de um livro que propõe a desconstrução de uma tradição, como uma síntese de várias tendências que vinham sendo desenvolvidas desde o início do séc. XX -- ginástica, fisiculturismo, fisioterapia, higienismo.

Em resumo, se você concorda com a visão que Iyengar e Hermógenes têm do yoga, inevitavelmente discordará de Patañjali e vice-versa. Tertium non datur.


4) Ok, mas eu busco livros apenas para poder praticar yoga em casa. Não tenho acesso a um guru e as obras antigas que você recomenda são de difícil compreensão.

É verdade. A maioria dos textos antigos foi escrita em uma linguagem que é pouco acessível para pessoas não-iniciadas no yoga, que nunca tiveram a orientação de um guru. Mesmo assim, algo é possível compreender e assimilar a partir da leitura destas obras.

Por exemplo: no verso II,46 dos Yoga Sutras, Patañjali define asanas da seguinte forma: «o assento (asana) deve ser fácil/confortável e estável/imóvel/firme». Mesmo o leitor iniciante não deve ter dificuldades para compreender duas coisas a partir deste verso:

  1. O que define um asana não é o posicionamento da coluna vertebral e de outras partes do corpo, mas certas qualidades sem as quais não é possível levar a prática de yoga adiante
  2. O fato de não haver a descrição de posturas específicas deixa claro que o domínio de dezenas ou centenas de posturas corporais é algo de pouca ou nenhuma importância. 

Poderíamos mencionar um terceiro ponto aqui: mais nada é dito sobre asanas nos Yoga Sutras além do que é dito em II,46 e em II,47, o que contrasta enormemente com os livros modernos, que dedicam páginas e mais páginas à descrição técnica de dezenas, às vezes centenas de posturas corporais.

A partir disso o leitor iniciante pode concluir sem muitas dificuldades que a visão tradicional e a visão moderna a respeito dos asanas não são apenas diferentes, elas são opostas.

Outro ponto importante nesta questão 4 refere-se ao «praticar em casa». Aqui as coisas realmente podem ficar complicadas. Os livros antigos têm os conteúdos corretos mas não têm o objetivo de ensinar yoga e de auxiliar na prática sem o guru. Os livros modernos não têm os conteúdos corretos mas têm o objetivo de ensinar yoga (ou, pelo menos, de ensinar o yoga conforme a visão moderna) e auxiliar na prática sem o guru. O que fazer?

Quanto a isto não tenho receitas de bolo. Posso recomendar o que eu fiz nos períodos em que não tive acesso a um orientador: dedicar-se intensamente à leitura das obras clássicas e eventualmente consultar obras modernas com o cuidado de identificar os conteúdos que não contradizem as obras clássicas. É uma tarefa difícil, mas, afinal, é sempre difícil estudar e praticar sem um orientador ou guru.


5) Vi aqui em seu site que há um acervo de obras de yoga. Você o dividiu em quatro grupos diferentes. Por que? 

(Ok, esta não é uma dúvida freqüente e pode ser específica apenas para quem visita este site, mas talvez ajude a entender os diversos tipos de «livros de yoga» com que o praticante-leitor pode se deparar...)

Os grupos são os seguintes: yoga e hathayoga, pré-hathayoga, ginástica indiana (e criações modernas) e outros.

No grupo Yoga e Hathayoga estão listadas obras clássicas, como os Yoga Sutras, o Bhagavad Gita e o Hatha Yoga Pradipika, entre outras. São as obras fundamentais às quais me referi no início deste texto.

No grupo Pré-hathayoga estão listadas obras que, embora não sejam tradicionais, trazem informações de técnicas que, como o nome sugere, podem ser usadas como preparação para o hathayoga.

No grupo Ginástica indiana e criações modernas inspiradas no hathayoga estão listadas obras escritas ao longo do séc. XX, algumas delas muito conhecidas por professores e praticantes da atualidade. Ainda que estas obras contenham alguns pontos interessantes, baseiam-se na visão particular de seus respectivos autores e, portanto, não têm compromisso com as obras clássicas ou com a tradição e por isso não podem ser consideradas obras de yoga. Algumas destas obras são visivelmente manuais de ginástica, como é o caso do best-seller «Light on Yoga» e «608 Yoga Poses», e é neste sentido que devem ser encaradas.

Embora não sejam obras de yoga, foram disponibilizadas pelos motivos apontados ao longo deste texto e porque podem ser úteis aos praticantes mais interessados nos aspectos mais superficiais e mais técnicos da prática do hathayoga. Por exemplo, «Yoga Body», de Mark Singleton, descreve a «ginasticalização» do yoga a partir de meados do séc. XIX e será de interesse a todos que querem entender esse processo e entender a origem dos «estilos de yoga» mais populares hoje em dia.

No grupo Outros há livros de vários tipos. Alguns têm relação com os propósitos mais fundamentais do yoga, como as obras de Nisargadatta Maharaj e Ramana Maharshi. Outros livros disponibilizados nesse grupo apresentam sistemas de ginástica ou bem-estar sem relação direta com o yoga, mas que se baseiam em elementos disciplinares comuns no Oriente, como é o caso de «The Eye of Revelation».

*

É isso. Caso haja mais dúvidas, deixe um comentário.

Boas leituras a todos.


23 abril 2018

«Você já é a felicidade que você busca»


Uma das coisas que sempre me impressionaram nos satsangs ocidentais é a freqüência com que se diz «você já é a felicidade que você busca». Esta frase tem outras versões, todas com o mesmo sentido: «você já é o Buda», «você já é iluminado», «você já é Shiva», «você já é o Um», «você já é a Presença».

Pensa um pouco: se já somos a felicidade que buscamos, nenhuma disciplina, nenhuma tradição, nenhum mestre e nenhuma sadhana são necessários. Logo, esqueça essas coisas, viva sua vida e seja feliz.

Se essas frases fizessem algum sentido para as pessoas a quem se destinam, se ressoassem alguma realidade já contida no interior dessas pessoas, a cada vez que fossem proferidas dúzias de espectadores de satsangs se levantariam e iriam embora para cuidar das próprias vidas. Mas não. Em vez disso, continuam ouvindo uma pessoa que se apresenta como mestre, guru, professor ou instrutor insinuar que mestres, gurus, professores ou instrutores não são necessários, continuam participando de retiros, cursos e aulas e, principalmente, continuam gastando muito dinheiro com essas coisas.

O fato é que essas frases só fazem sentido como slogans; são usadas não porque são corretas, não porque realmente calam fundo, mas por causa de seus efeitos emocionais e comerciais. São usadas como ganchos para todo tipo de comércio baseado no yoga. São usadas como pó de pirlimpimpim para que o orador assuma imediatamente uma aura de humildade e generosidade:

«Você já é a felicidade que você busca. Nenhum mestre é necessário. Basta abrir os olhos.»
«Nossa, que lição de simplicidade! Que mestre humilde e generoso! Vou segui-lo pelo resto da vida!»

Os «satsangadores» mais famosos da atualidade usam frases desse tipo, imersas propositalmente num emaranhado de estimulação contraditória. Num momento passam a mão na cabeça do discípulo e recebem bem todas as manifestações de idolatria; noutro, afirmam que qualquer um pode despertar, soltando nas entrelinhas a idéia de que eles não são necessários.

Uma das chaves da estimulação contraditória consiste em criar um estado de confusão mental que só pode ser atenuado com a ajuda de quem a causou. Com efeito, esses «satsangadores» conseguem assim intensificar o apego e a dependência de seus discípulos e ampliar seu secto.

Alguns dirão que não há nada errado nisso.

«Se, afinal, ele ensina o que é correto e conduz as pessoas na melhor direção possível, qual o problema?»

O problema, caro gafanhoto, é que slogans e desonestidade no máximo servem para elevar o saldo bancário de quem mistura estas coisas com as questões do espírito e para construir hordas de dependentes emocionais.

A solução disso? Comece perguntando sinceramente a você mesmo qual a solução disso. Preserve o restinho de autodidatismo que ainda há em você e assuma responsabilidades. O resto é conseqüência.

***
Antítese / Plot twist

Para cada lorota contada por um pagador de boletos travestido de professor de yoga, de «facilitador» (esse nome é ótimo) de retiro ou de terapeuta tântrico há pelo menos uma verdade escondida.

Digo isso porque por definição um enganador não é dotado da coragem e sobretudo da capacidade intelectual necessárias para criar mentiras verossímeis. Deste modo, a forma mais fácil de obter um discurso verossímil é começar apoiado na verdade.

Quando o protótipo de 171 diz que «você já é a felicidade que você busca», tenha certeza de que alguma verdade há nessa arapuca. A verdade é a seguinte: sim, você já é a felicidade que você busca. Só que como o sujeito é meio burrinho (todo estelionatário é meio burrinho, depois eu disserto sobre esta idéia, por enquanto apenas assimile), ele usa essa afirmação para vender DVDs e tingir-se de tintas modestas e humildes, como expliquei acima, e aos poucos a verdade contida na afirmação original é soterrada por toneladas de DVDs e por litros de humildade fingida. TEM QUE SER ASSIM, senão você realmente perceberia que você já é a felicidade que você busca e então, oras bolas, você veria que DVDs e retiros não servem para nada.

Mas, sim, você já é a felicidade que você busca.

Donde, então, a necessidade de dedicar-se ao que quer que seja? Você precisa realizar 108 saudações ao sol? Você precisa levantar-se às 4:30 da manhã para meditar? Você precisa dominar «posturas desafiadoras»? (depois eu disserto sobre esta expressão, por enquanto apenas assimile) A rigor, a resposta a todas estas perguntas é «não». Só que sua vida não tem essa de «a rigor».

Consideremos que:

1) O fato de uma coisa não ser necessária não significa que essa coisa não seja boa. Bolo de avó, por exemplo.

2) O objetivo das técnicas de yoga não é tornar-se feliz, melhorar a saúde ou aumentar a auto-estima, mas perceber-se e compreender-se claramente.

Se somarmos estas duas coisas -- que, aliás, raramente são ditas nos «studios» de yoga -- fica mais fácil situar aquela frase-gatilho do início dentro de um sistema disciplinar que em geral é complexo o suficiente para alimentar discussões e famílias.

Resumindo: sim, você já é a felicidade que você busca, NO ENTANTO precisa de um sistema disciplinar não para que você se torne o que você já é, mas -- na linguagem usualmente utilizada nos meios tradicionais -- para remover os véus que o tornam INCAPAZ DE VER sua condição de ser pleno.

Em outras palavras, a experiência da elevação espiritual é só isso: elevação espiritual, muito similar à experiência de subir ao topo de uma montanha e subitamente deparar-se com aquela visão espetacular que permite, entre outras coisas, ver a casinha onde você mora e entender rapidamente como a sua casinha e todas as outras coisas estão conectadas.

Que tanta gente continue sendo um fosso de ruindade e confusão mesmo depois de passar por experiências de genuína elevação espiritual -- aliás, como explica Jack Kornfield em seu interessantíssimo «Depois do êxtase, lave a roupa suja» -- é outra prova de que a disciplina é importante, porque as algemas corporais e mentais duram enquanto o corpo e a mente durarem. E se a preocupação for de ordem moral, lembre-se: até hoje ninguém conseguiu fazer merda enquanto meditava.

03 março 2017

Meditação não serve para nada


«Eu não consigo meditar». 

Para a maioria das pessoas esta frase soa como uma confissão de falta de força de vontade. Para muitos professores de meditação soa como um desafio, como se a partir dela o ouvinte passasse a ter a obrigação de demonstrar, com argumentos retóricos ou sólidos e exemplos práticos, não apenas a possibilidade universal de meditar, como também o oceano de conquistas e realizações que podem surgir com a simples decisão de meditar em duas ou três sessões breves por semana. 

Em outras palavras, «eu não consigo meditar» é a frase-gatilho favorita dos «mercadores de paz e luz» — expressão que usarei aqui para referir-me àquela gente linda e calminha que bebe pelo menos três litros de água mineral por dia, diz «gratidão» em vez de «obrigado» e que, afinal, precisa ensinar os outros a ter (isto é, como adquirir) paz e luz.

Um dos recursos mais curiosos utilizados por esses mercadores é apresentar a meditação como uma espécie de laxante: à decisão da pessoa de tomar o medicamento segue-se a conseqüência incontornável e quase imediata de livrar-se de inúmeras coisas que pareciam eternamente presas dentro dela. 

Não é coincidência que a meditação seja descrita às vezes — mais por uma simplificação didática do que por uma burrice inata de muitos instrutores (não que isso não exista) — como um processo de esvaziamento da mente. A analogia com o processo de esvaziar os intestinos, verificar os dejetos flutuantes (ou não) e dar a descarga, por escatológica que possa parecer, corresponde às descrições usualmente utilizadas pelos instrutores de meditação: é necessário esvaziar-se de pensamentos e emoções negativas para preencher-se de paz e luz.

O que nenhum instrutor explica é que todas essas expressões são figuras de linguagem. A mente não se esvazia porque a natureza da mente não é encher-se de nada; não se trata de um recipiente. Não é possível livrar-se de pensamentos negativos porque você nunca esteve algemado a eles; não se trata de uma ligação física inquebrável. Ninguém se enche de paz e luz porque, mesmo que identifiquemos nestas palavras qualidades que possamos obter de algum modo, elas não podem ser circunscritas, muito menos medidas.

Outra coisa que nenhum instrutor de meditação explica é que a simples existência de «instrutores de meditação» constitui um gigantesco paradoxo. Se você só medita quando um grupo se reúne para meditação (para «sentir a energia coletiva») sob orientação de um instrutor de voz grave e cristalina que o conduz com slogans motivacionais («inspire a paz, exale o amor»), então, meu chapa, já era. Meditação guiada é algo semelhante ao que o boiadeiro faz com o boi que tem uma argola no nariz: às vezes o bicho é levado para um pasto verdejante, outras vezes para o abatedouro. Se você acha que a comparação é exagerada, me acompanhe:

1) se o que se pretende realizar em cursos, retiros, aulas e grupos de meditação é meditação
2) e se a meditação consiste, entre outras coisas, em fechar os olhos e vivenciar silêncio e isolamento em doses suficientes para que você consiga observar o fluxo natural dos seus próprios pensamentos
3) então não há sentido em ter como ideal de meditação uma prática que dependa de uma reunião especial em locais especiais com pessoas especiais guiadas por uma pessoa especial

Uma das provas de que este raciocínio está correto é a grande quantidade de pessoas que participam de retiros e cursos de meditação e que nas duas ou três semanas que se sucedem declaram-se profundamente transformadas pelas experiências que tiveram nesses eventos (reuniões, locais, pessoas e instrutores especiais), mas que, passadas essas duas ou três semanas, voltam aos mesmos hábitos (interiores e exteriores) que possuíam antes daqueles eventos. Isto ocorre pelos motivos que apontei acima: a lição essencial de retiros e cursos de meditação é de que retiros e cursos de meditação são necessários para meditar corretamente. Não, não são. Ajudam, mas não são necessários. Tornar a meditação algo muito especial a ser realizado em condições especiais e em momentos especiais contradiz a própria definição de meditação.

Afinal, o que é necessário para meditar corretamente? Em primeiro lugar, a disposição para passar um tempo consigo mesmo, o que significa ficar sozinho e em silêncio. Assustador? Para muitas pessoas é. Esta disposição exclui a meditação realizada em grupos, com incenso, música, a condução de um instrutor, enfim, com toda a parafernália que os mercadores de paz e luz consideram essenciais para meditar. Questionados sobre isso, eles dirão que essas coisas são essenciais apenas para os iniciantes, o que, é claro, implica outra bobagem: a de que existiria algo que se possa chamar de «meditação avançada», o que não seria muito diferente da divisão dos grupos de meditação em faixas coloridas, como ocorre em artes marciais.

 ***

Se é meio bobo definir e compreender a meditação a partir de pressupostos estabelecidos por pessoas que entendem essa prática como algo que pode ser dividido em categorias e comercializado, o que dizer da tendência de encarar a meditação como uma tecnologia, um sistema disciplinar com finalidades utilitárias? Tenho certeza de que o leitor já não se surpreende mais quando se depara com divulgações de cursos e retiros de meditação que têm como propósito melhorar seu desempenho nos estudos, nos negócios, nos relacionamentos ou melhorar sua saúde física e mental. Seria surpreendente encontrar um simples encontro com orientações elementares de meditação e sem menções às suas conseqüências práticas.

Ainda que esses propósitos às vezes sejam a isca para atrair pessoas para orientações, digamos, mais tradicionais (um argumento recorrente), nesses casos o peixe subirá ao convés machucado: a pessoa que vem a um encontro de meditação movida pela perspectiva de estudar melhor e passar num concurso público (um tipo de divulgação bastante popular ultimamente) na prática se assemelha a uma pessoa que acha que o primeiro passo para realizar uma viagem é rasgar a passagem que ela acabou de comprar.

 ***

É bom esclarecer: eu estaria enganando o leitor se dissesse que a meditação não proporciona benefícios físicos e mentais. Minha experiência e as experiências que muitos de meus alunos tiveram com a meditação confirmam isso. Algumas pesquisas também têm confirmado a eficiência da meditação na redução de níveis de stress e no controle da pressão arterial. Todas estas coisas são obviamente boas, mas são efeitos de uma busca que não se limita a utilizar a meditação como terapia.

Se, como assinalei antes, a meditação consiste em observar o fluxo natural dos seus próprios pensamentos, a fixação do pensamento numa meta específica — por exemplo, «quero desenvolver autoconfiança» — implica um alto grau de artificialidade e, portanto, a interrupção do fluxo natural dos pensamentos. Em outras palavras, é como se, para observar cardumes de barracudas em mar aberto, você decidisse criar peixes beta num aquário: por maior que seja seu aquário e por mais peixes beta que você tenha, aquilo nunca passará de uma caixa de vidro com peixinhos comprados em loja.

A verdade é que a meditação não serve para nada simplesmente porque essa prática não pode servir para nada. Não me refiro àquele provérbio oriental que diz que o caminho é mais importante que a meta etc. Refiro-me a uma prática que se situa num plano em que não há sentido em falar de caminho, direção ou meta, em que a existência e a identificação destes elementos são efeitos colaterais, não a razão da prática.

Monges tibetanos comparam a meditação com um descanso ao final de um exaustivo dia de trabalho — você simplesmente permanece ali, ainda entorpecido pelo cansaço, mas consciente de que suas funções básicas se mantêm: a respiração, a visão, a audição, os batimentos cardíacos etc. Numa situação dessas você não pensa «vou descansar» ou «estou descansando». Você apenas permanece quieto, em silêncio e imóvel. A meditação não é muito mais do que isso.


Expressões como «estar presente» e «praticar o silêncio», por esquisitas que possam parecer, constituem formas interessantes de evitar termos utilitários para explicar a prática de meditação. São expressões paradoxais, mas verdadeiras: a meditação começa a funcionar quando você percebe a idéia de que a meditação serve para algo além de meditar apenas como mais uma das idéias a serem observadas.