15 março 2020

Vamos estudar anatomia?



Sim, vamos, mas vamos estudar também nutrição, fisiologia, climatologia, microeconomia, bioquímica, psicologia... Que tal? Se anatomia é fundamental para o praticante de yoga, todas estas ciências também são, certo?

Vamos às explicações.

Anatomia é tão necessário para o praticante de yoga quanto qualquer outra ciência moderna. Numa escala de 0 a 100, a importância das ciências modernas para o praticante de yoga é 0 (zero). Em outras palavras, não é necessário estudar anatomia para praticar yoga.

Mas ter algum conhecimento de anatomia não ajuda na realização das posturas corporais? Claro que ajuda, mas desde quando praticar yoga consiste em realizar posturas corporais?

A partir daqui o leitor talvez comece a entender uma coisa importante: saber se uma ciência X ou uma disciplina Y são necessárias para o praticante de yoga depende de compreender o que é o yoga. Se a essência do yoga estivesse na realização de posturas corporais, sim, seria importante conhecer o corpo em seus mínimos detalhes, inclusive com conhecimentos de anatomia.

Donde a pergunta: qual relação o yoga tem com as posturas corporais? Resposta: pouca, quase nenhuma.

Se o yoga consiste em meditar, todo o conhecimento de anatomia de que você precisa é aquele necessário para você sentar-se com conforto, respirar calmamente e meditar -- coisas que uma criança tem condições de fazer sem ter estudado anatomia. Todos os grandes mestres yogis dos últimos séculos, desde Gorakshanath até Ramana Maharshi, também conseguiam fazer essas coisas sem nenhum conhecimento de anatomia. Em resumo, para realizar yoga não é necessário conhecer anatomia.

Vou além: estudar anatomia é um obstáculo para a prática de yoga.

Pensemos: se conhecimentos de anatomia não são necessários para realizar yoga, por que alguém interessado em yoga estudaria anatomia? Certamente não para realizar yoga, mas para realizar posturas com perfeição anatômica. Este objetivo, claro, pressupõe que a realização de posturas com perfeição anatômica é mais importante do que realizar yoga. Em pouco tempo, o praticante estará mais preocupado em explorar os limites anatômicos de seu corpo (por exemplo, ampliar a torção de um matsyendrasana) do que em realizar asana para encaminhar-se para o samyama. Em outras palavras, o que era um anga do yoga perde seu sentido original e seus aspectos mais superficiais passam a ser os mais importantes na definição e no direcionamento da prática -- que, a esta altura, não merece mais ser chamada de yoga.

Um detalhe curioso: verdadeiros hathayogis não se lesionam; «yogis modernos», que têm profundos conhecimentos de anatomia, às vezes se lesionam. (Observe a quantidade de instruções sobre anatomia são disponibilizadas hoje em dia com o subtítulo «como prevenir lesões no yoga».)

Como é possível que os verdadeiros hathayogis, sujeitos que vivem isolados em ashrams ou até mesmo em cavernas e florestas praticando hathayoga, afastados de todo conhecimento ocidental sobre anatomia, como é possível que esses sujeitos não se lesionem? E como é possível que aqueles «yogis modernos», que são profundos conhecedores de anatomia, acabem se lesionando ao realizar algumas posturas? Não deveria ser o contrário?

O que ocorre aqui é parecido com os tristes casos de afogamento em praias e rios: quase todas as vítimas de afogamento eram pessoas que sabiam nadar. Se a natação é entendida como um meio de expor-se a situações perigosas sem risco algum, então o sujeito acreditará que é dotado de um poder suficiente para essa exposição. E é aí que tragédias acontecem.

No yoga acontece algo semelhante quando se trata de estudar anatomia. O conhecimento de anatomia traz embutida a noção de que é possível «ampliar limites» e de que isso é bom e importante no yoga. E é aí que o sujeito se lesiona. Observe que a esmagadora maioria dos estudantes de anatomia em escolas e «studios» de yoga busca esses conhecimentos não porque quer entender melhor o próprio corpo, mas porque quer «intensificar o asana» sem se sujeitar aos riscos que essa intensificação oferece ou porque -- no caso de um curso de formação -- quer orientar pessoas que têm interesse nisso. Oras bolas, por que seria necessário «intensificar o asana»? O que isso tem a ver com yoga?

*

Perguntas e respostas relacionadas ao tema:

1) Então, não devo estudar anatomia?
Se seu interesse é em yoga, você deve estudar yoga, não anatomia.

2) É ruim estudar anatomia?
Não. É bom estudar anatomia -- sem ironias. É sempre melhor conhecer seu corpo do que não conhecê-lo. Recomendo que todos estudem um pouco de anatomia, assim como recomendo que todos estudem um pouco de fisiologia, de nutrição etc. -- enfim, ciências que têm relação com seu corpo, com sua mente etc. Mas, novamente, esses conhecimentos nada têm a ver com yoga. Se você busca esses conhecimentos com o objetivo de se tornar um yogi, você está se enganando e se afastando do yoga.

3) Faço um curso de formação que inclui aulas de anatomia. Estou jogando meu dinheiro fora?
Sim, está. Cursos de formação que incluem aulas de anatomia baseiam-se na idéia obviamente falsa de que tal conhecimento é necessário não apenas para realizar yoga como também para ensinar yoga.

4) Devo parar o curso?
Não sei. Um curso de formação que inclui aulas de anatomia parte do pressuposto de que o futuro instrutor atenderá alunos que buscam «aulas de yoga» da mesma forma que algumas pessoas buscam aulas de pilates, de alongamento ou mesmo de musculação. Estas pessoas terão interesse em conhecimentos de anatomia porque já chegam com a idéia de que isso é importante para a prática de yoga. Se você quer recuperar seu investimento, provavelmente será necessário concluir o curso e trabalhar por um tempo atendendo esses alunos. Em resumo, você precisará continuar se enganando por algum tempo.

5) Você só teve condições de escrever este texto porque estudou anatomia. Isto não prova que para desenvolver-se no yoga é necessário conhecer anatomia? Não é possível dispensar um conhecimento que não foi assimilado.
Sim, estudei anatomia, mas não tanto quanto os praticantes e instrutores de yoga interessados em «alinhamento de asanas», «ajustes e correções de asanas», «asanas musculares», «asanas para quem tem escoliose» etc. Garanto ao leitor que meus conhecimentos sobre anatomia não são maiores do que os de um adolescente recém-saído de um bom ensino médio. A questão aqui não é conhecer anatomia, mas conhecer yoga.


Blogger Tricks

02 fevereiro 2020

Yoga para quem nunca praticou yoga


Você ouviu falar que yoga faz bem para o corpo e a mente, já viu médicos recomendando a prática de yoga, já viu amigos falando maravilhas sobre isso, mas não sabe exatamente o que é yoga e nem por onde começar? Seus problemas acabaram.

Vamos lá:

1) O que é yoga?

Yoga é meditação.

Embora modernamente meditação seja um termo bastante elástico, podemos ser um pouco mais específicos: praticar yoga é praticar meditação com o objetivo de ver e compreender quem você é, é o exercício do silêncio interior profundo

Muitos mestres de yoga repetem o lema «você não é o corpo, você não é a mente». Por meio do yoga você consegue elevar este lema do simples nível da intelecção (ler e compreender uma frase) ao nível da vivência plena. Avançar na prática do yoga (isto é, na prática da meditação) significa permitir que essa vivência ilumine sua percepção e remova as máscaras que você construiu e se acostumou a usar. Assim como você não é o corpo e não é a mente, você também não é uma carreira profissional, não é um parentesco, não é uma imagem ou um «look», não é uma doença crônica, não é um hábito etc.

Sei que para quem nunca praticou yoga, estas palavras podem soar complicadas. Caso isso ocorra, basta retornar ao início: yoga é meditação, nada além disso.


2) O que é hathayoga? Não é o mesmo que yoga?

Não. Como vimos acima, yoga é meditação.

Hathayoga é uma tradição de origem tântrica que tem como objetivo usar disciplinas sensoriais para acelerar o processo da meditação e potencializar seus efeitos. Colocando em termos mais simples (e menos precisos): trata-se da meditação facilitada e potencializada por meio de técnicas corporais, respiratórias e energéticas.

Há inúmeras formas de se praticar yoga. Em obras clássicas como o Bhagavad Gita e os Upanishads fala-se da prática do yoga por meio de ritos devocionais, por meio da fé no guru etc. Quase nada disso tem relação com técnicas corporais, respiratórias e energéticas -- estes elementos ou rotinas disciplinares são específicos do hathayoga.

Em resumo: yoga é meditação; hathayoga é o yoga facilitado e potencializado por meio de técnicas corporais, respiratórias e energéticas.


3) Mas e os estilos de yoga que usam e priorizam vinyasa, alinhamentos, anatomia etc.? São técnicas corporais, respiratórias e energéticas, não? Tudo isso é hathayoga, não?

Não.

Primeiro, vinyasa (posturas do hathayoga realizadas de forma seqüenciada, quase como uma coreografia), alinhamentos, orientações a respeito de anatomia, medicina, aspectos terapêuticos etc. são invenções recentes (meados do séc. XIX até os dias de hoje). Por muitos séculos o hathayoga produziu hathayogis sem precisar destas coisas. Adicionar estas coisas ao hathayoga trouxe dois resultados:

  1. Elas se tornaram mais importantes do que o yoga, ao ponto de não sobrar quase nada que possa ser reconhecido como yoga nesses «estilos de yoga» (lembre-se do início: yoga é meditação para o conhecimento de si, é o exercício do silêncio interior profundo).
  2. Os sistemas resultantes dessas adições não têm produzido hathayogis nem yogis. Qualquer «instrutor de yoga» da atualidade está muito mais próximo de um professor de academia de musculação ou de crossfit do que de um yogi, de um grande meditador.

Ainda que essas invenções modernas possam ter alguma semelhança com técnicas do hathayoga, elas não foram criadas com o objetivo de realizar yoga e não produzem esse efeito.


4) Como posso começar a praticar yoga?

Se você entendeu o que é yoga e realmente quer começar a praticar, medite. Leia sobre meditação. Busque informações que possam ajudá-lo a meditar 10, 15, 30, talvez até 60 ou 90 minutos todos os dias. Como eu disse no início, o yoga é isso.

Se você entendeu o que é o hathayoga e tem certeza de que é isso que você busca, lamento informar: não há hathayogis devidamente iniciados oferecendo aulas e cursos presenciais no Brasil. O mais próximo disso que você encontrará são estes cursos on-line.

Se você busca a ginástica postural que os «professores de yoga» chamam de yoga ou de hathayoga ou de «hatha contemporâneo» hoje em dia, pergunte-se o que exatamente você está buscando. Se você busca benefícios corporais, atividades como musculação e natação trarão resultados mais impactantes -- seja na definição muscular, no emagrecimento, na postura etc.


5) Ok, entendi que yoga é meditação e que meditar será melhor do que procurar aulas de yoga em escolas e «studios». Mas para meditar é necessário preparar a mente e principalmente o corpo, não? Se entendi bem, é isso que o hathayoga propõe e os «estilos de yoga» modernos, embora não sejam hathayoga, também proporcionam essa preparação física e mental para a meditação. No fim das contas, praticar um desses «estilos» não leva aos mesmos resultados do hathayoga e à construção da mesma base física e mental necessária para a meditação?

Imagine cinco práticas diferentes com intensidade de média a alta por 30 minutos. Todas elas exigem esforço físico e concentração. Todas elas queimam calorias, ajudam no fortalecimento muscular e desenvolvem foco mental:

  1. musculação
  2. corrida
  3. exercícios isométricos
  4. vinyasa 
  5. natação

Ao final da prática, interrompa todos os movimentos, sente-se no chão numa superfície confortável e estável, sem apoiar as costas em nenhuma superfície, feche os olhos e permaneça imóvel e em silêncio por pelo menos 10 minutos.

A sensação de silêncio profundo, de mergulho em si mesmo, de desaceleração das oscilações mentais será muito parecida nos cinco casos.

O que quero dizer é o seguinte: se sua intenção é realmente praticar yoga -- isto é, chegar à meditação, à vivência do silêncio profundo --, os chamados «estilos de yoga» proporcionam os mesmos resultados de atividades físicas comuns. Porém, isto ainda não é yoga e também não é a estabilidade física e mental que o hathayoga proporciona. Nos cinco casos mencionados acima ainda estamos fora do universo estrito do yoga e do hathayoga.

Retorno ao que já foi dito: se seu interesse verdadeiro é em yoga e se você quer começar de algum lugar, comece pela meditação. Os obstáculos que você encontrará para meditar 10 ou 15 minutos por dia -- um tempo razoável para quem nunca meditou -- serão muito menores do que os obstáculos que você vai criar para si mesmo alimentando a crença de que vinyasa ou yoga restaurativo ou yoga com props ou power yoga poderão levá-lo à vivência do silêncio profundo. Não se engane, seja honesto consigo mesmo.


6) O hathayoga é assim tão importante para quem busca a vivência do silêncio profundo?

Depende. Grandes yogis como Ramana Maharshi e Nisargadatta Maharaj não eram hathayogis. Eles realizavam yoga por outras vias -- além da meditação, havia também o estudo filosófico e os satsangs (reuniões para aprendizado direto com o guru, o que reforçava a importância da ascendência e da tradição).

Se considerarmos que yoga é meditação para o conhecimento de si mesmo, veremos que o yogi não é o sujeito que faz cosplay de pretzel ou que consegue ver o próprio traseiro sem um espelho, mas sim o sujeito que medita e que a partir disso desenvolve um profundo conhecimento de si mesmo e um silêncio interior inabalável. Fim.

Ocorre que algumas pessoas demonstram o interesse em desenvolver tais qualidades a partir de técnicas de manipulação sensorial, corporal e mental. O hathayoga foi feito para essas pessoas.

O hathayoga não foi feito para quem quer usar essas técnicas para emagrecer, para definir os músculos, para tornar-se flexível, para reduzir a celulite, para transar melhor, para dormir melhor etc. Ainda que algumas técnicas do hathayoga possam produzir esses efeitos, o fato de elas não terem sido criadas com essas finalidades nos leva a concluir o seguinte:

- técnica corporal, respiratória, energética criada por hathayogis, integrada à tradição e usada para realizar yoga = técnica de hathayoga
- técnica corporal, respiratória, energética criada por hathayogis, isolada da tradição e usada para aperfeiçoar o corpo = técnica de ginástica

No fim das contas, é tudo uma questão de usar os nomes da forma correta. Chame de yoga o que é yoga, chame de hathayoga o que é hathayoga, chame de ginástica e auto-ajuda o que é ginástica e auto-ajuda. E para usar os nomes da forma correta é necessário saber o que eles significam.


7) O que isso tem a ver comigo? Eu nunca pratiquei yoga, apenas quero me alongar um pouco em casa para manter a saúde em dia e destravar a coluna. Já não sei mais se devo praticar yoga.

Yoga e hathayoga como definidos neste artigo, como entendidos por séculos e séculos, como perpetuado pelos mestres de yoga, não, acho que você não deve praticar yoga e provavelmente não tem condições nem interesse para isso.

Se você só quer se alongar um pouco, manter a saúde em dia e ficar mais flexível, o que você está buscando é um programa de ginástica em casa.

Há diversas «escolas de yoga» que oferecem aulas excelentes de ginástica. Há canais no YouTube com programas seqüenciais de «yoga» muito interessantes para quem tem problemas na coluna. Há instruções muito boas sobre séries de «power yoga» ou «vinyasa yoga» para quem visa o fortalecimento muscular e o emagrecimento.

Uso aspas com o termo yoga porque, obviamente, em nenhum desses casos trata-se de yoga. Cada vez que essas pessoas, esses professores, esses canais do YouTube, esses sites usarem o termo yoga, leia-se «ginástica indiana», que pode ser uma ótima opção para quem não gosta do barulho das academias de musculação ou da atmosfera «coach» das academias de crossfit.

Se o seu interesse principal é fazer ginástica num ambiente mais calmo, com pessoas que falam baixo e que cumprimentam você sem pegar na sua mão porque precisam usá-la para fazer o «namastê», esse «yoga» é perfeito para você.

Mas se o seu interesse principal é mesmo em yoga, repito: medite.


30 janeiro 2020

A biblioteca do praticante de yoga: esclarecendo 5 dúvidas freqüentes


Este texto tem como objetivo apresentar algumas recomendações de leitura e esclarecer algumas dúvidas comuns aos praticantes de yoga quando se trata de escolher livros. Vamos a elas:


1) O que o praticante de yoga deve ler?

Chamam-se obras fundamentais, como o nome sugere, aquelas que fundam uma corrente de pensamento, uma tradição, uma disciplina, uma ciência etc. Este é o caso do que se convencionou chamar de «clássicos». Na literatura universal este é o caso das obras de Homero, Dante, Camões, Shakespeare e Cervantes, entre outros.

No yoga, as obras fundamentais são aquelas que estabelecem o yoga como a tradição que se perpetuou até os dias de hoje. Enquadram-se nesta definição

  1. os Yoga Sutras, de Patañjali, 
  2. os Upanishads do yoga, 
  3. o Bhagavad Gita, 
  4. as escrituras produzidas por mestres nathas, como Hathayoga Pradipika, Gheranda Samhita, Shiva Sutra, Goraksha Shataka e Goraksha Paddhati, Gorakh Bodha etc.

O que estas obras têm em comum? Primeiro, são antigas, foram escritas muitos séculos atrás. Claro que a idade em si não quer dizer muita coisa, mas o fato de serem antigas e terem chegado até nossos dias, século XXI, significa que elas possuem a força necessária para se perpetuar. Em outras palavras, elas estabelecem e reafirmam verdades importantes quando se trata de compreender o yoga. São estas obras que devem ser lidas.


2) A leitura é fundamental para o praticante de yoga?

Sim e não.

Se você dispõe de um guru para orientá-lo, ele é o seu livro, ele é tudo de que você precisa. Leia o que ele determinar -- se ele determinar que é necessário ler algo.

Ademais, se o yoga é meditação, o fundamento de sua prática e de seu estudo é a meditação. Nenhum livro ensina o que a meditação ensina. (Doravante, onde aparecer escrito «yoga», leia-se «meditação» e vice-versa.)

Mas digamos que você quer ler algo como forma de nutrir o intelecto e encontrar dicas que podem auxiliá-lo em sua prática de yoga. Neste caso, as únicas leituras necessárias são aquelas mencionadas no item 1: aquelas que fundam o yoga, que o estabelecem como uma tradição, que o reafirmam como meditação, como nirodha, como laya, como samyama.


3) Certo, devo ler as obras antigas. Mas e as obras modernas, mais recentes, não devem ser lidas?

Primeiro, vamos estabelecer o seguinte: obras modernas de yoga são aquelas escritas e publicadas a partir de meados do séc. XIX até os dias de hoje.

O que houve a partir de meados do séc. XIX, que mudou drasticamente o modo como o yoga era compreendido e ensinado? A explicação é longa, mas o resumo é este: a ascensão da ginástica (de ascendência militar) e do higienismo (por influência britânica). Os cuidados com a saúde física e a perfeição corporal estabeleceram-se como metas importantes inclusive para praticantes de yoga. Isto explica o advento da yogaterapia (o uso de técnicas do hathayoga como meio de curar doenças) e do vinyasa, que foi o ápice da «ginasticalização» do hathayoga.

Praticamente todos os livros escritos a partir dessa época, assim como os livros mais famosos atualmente têm como pressuposto a idéia de que o principal objetivo do yoga é o bem-estar físico e mental. Isto vale para os livros de quase todos os autores do séc. XX:

  1. Hermógenes
  2. B. K. S. Iyengar
  3. T. Krishnamacharya
  4. Pattabhi Jois
  5. Selvarajan Yesudian
  6. T. K. V. Desikachar
  7. Satyananda Saraswati
  8. De Rose (pai e filho)
  9. Dharma Mittra
    etc.

Minha recomendação é que você leia as obras destes autores depois de ler, entender e assimilar as obras dos autores antigos -- não antes.

Por exemplo: se você ler «Yoga para Nervosos» antes de ler os Yoga Sutras, inevitavelmente acreditará que o objetivo do yoga é aliviar o stress e começará a misturar efeitos colaterais e objetivos. Em pouco tempo estará pensando como aquele famoso instrutor norte-americano que disse que «quem não consegue fazer Utthita Hasta Padangustasana não tem condições de ser um yogi» -- uma idéia obviamente sem sentido.

Outro exemplo especialmente didático: nos Yoga Sutras, Patañjali descreve um sistema de oito passos para o praticante de yoga. Em 1966 o instrutor indiano B. K. S. Iyengar publica «Light on Yoga», em cujo prefácio encontramos o seguinte:
Minha experiência levou-me a concluir que para um homem ou mulher comuns, em qualquer comunidade do mundo, a maneira de atingir a paz de espírito é trabalhar com determinação em dois dos oito estágios da ioga citados por Patañjali, a saber, asana e pranayama.
Há dois problemas neste parágrafo. O primeiro é insinuar que yoga e «paz de espírito» são a mesma coisa -- uma evidente confusão entre a disciplina e o efeito da disciplina. O segundo é propor a redução do yoga a um sistema binário, como se sem estes seis angas o yoga pudesse continuar sendo yoga.

«Light on Yoga» é uma obra que nasce sob a atmosfera New Age. É um livro de yoga para ocidentais interessados nos benefícios do yoga para a saúde. Trata-se de um livro que propõe a desconstrução de uma tradição, como uma síntese de várias tendências que vinham sendo desenvolvidas desde o início do séc. XX -- ginástica, fisiculturismo, fisioterapia, higienismo.

Em resumo, se você concorda com a visão que Iyengar e Hermógenes têm do yoga, inevitavelmente discordará de Patañjali e vice-versa. Tertium non datur.


4) Ok, mas eu busco livros apenas para poder praticar yoga em casa. Não tenho acesso a um guru e as obras antigas que você recomenda são de difícil compreensão.

É verdade. A maioria dos textos antigos foi escrita em uma linguagem que é pouco acessível para pessoas não-iniciadas no yoga, que nunca tiveram a orientação de um guru. Mesmo assim, algo é possível compreender e assimilar a partir da leitura destas obras.

Por exemplo: no verso II,46 dos Yoga Sutras, Patañjali define asanas da seguinte forma: «o assento (asana) deve ser fácil/confortável e estável/imóvel/firme». Mesmo o leitor iniciante não deve ter dificuldades para compreender duas coisas a partir deste verso:

  1. O que define um asana não é o posicionamento da coluna vertebral e de outras partes do corpo, mas certas qualidades sem as quais não é possível levar a prática de yoga adiante
  2. O fato de não haver a descrição de posturas específicas deixa claro que o domínio de dezenas ou centenas de posturas corporais é algo de pouca ou nenhuma importância. 

Poderíamos mencionar um terceiro ponto aqui: mais nada é dito sobre asanas nos Yoga Sutras além do que é dito em II,46 e em II,47, o que contrasta enormemente com os livros modernos, que dedicam páginas e mais páginas à descrição técnica de dezenas, às vezes centenas de posturas corporais.

A partir disso o leitor iniciante pode concluir sem muitas dificuldades que a visão tradicional e a visão moderna a respeito dos asanas não são apenas diferentes, elas são opostas.

Outro ponto importante nesta questão 4 refere-se ao «praticar em casa». Aqui as coisas realmente podem ficar complicadas. Os livros antigos têm os conteúdos corretos mas não têm o objetivo de ensinar yoga e de auxiliar na prática sem o guru. Os livros modernos não têm os conteúdos corretos mas têm o objetivo de ensinar yoga (ou, pelo menos, de ensinar o yoga conforme a visão moderna) e auxiliar na prática sem o guru. O que fazer?

Quanto a isto não tenho receitas de bolo. Posso recomendar o que eu fiz nos períodos em que não tive acesso a um orientador: dedicar-se intensamente à leitura das obras clássicas e eventualmente consultar obras modernas com o cuidado de identificar os conteúdos que não contradizem as obras clássicas. É uma tarefa difícil, mas, afinal, é sempre difícil estudar e praticar sem um orientador ou guru.


5) Vi aqui em seu site que há um acervo de obras de yoga. Você o dividiu em quatro grupos diferentes. Por que? 

(Ok, esta não é uma dúvida freqüente e pode ser específica apenas para quem visita este site, mas talvez ajude a entender os diversos tipos de «livros de yoga» com que o praticante-leitor pode se deparar...)

Os grupos são os seguintes: yoga e hathayoga, pré-hathayoga, ginástica indiana (e criações modernas) e outros.

No grupo Yoga e Hathayoga estão listadas obras clássicas, como os Yoga Sutras, o Bhagavad Gita e o Hatha Yoga Pradipika, entre outras. São as obras fundamentais às quais me referi no início deste texto.

No grupo Pré-hathayoga estão listadas obras que, embora não sejam tradicionais, trazem informações de técnicas que, como o nome sugere, podem ser usadas como preparação para o hathayoga.

No grupo Ginástica indiana e criações modernas inspiradas no hathayoga estão listadas obras escritas ao longo do séc. XX, algumas delas muito conhecidas por professores e praticantes da atualidade. Ainda que estas obras contenham alguns pontos interessantes, baseiam-se na visão particular de seus respectivos autores e, portanto, não têm compromisso com as obras clássicas ou com a tradição e por isso não podem ser consideradas obras de yoga. Algumas destas obras são visivelmente manuais de ginástica, como é o caso do best-seller «Light on Yoga» e «608 Yoga Poses», e é neste sentido que devem ser encaradas.

Embora não sejam obras de yoga, foram disponibilizadas pelos motivos apontados ao longo deste texto e porque podem ser úteis aos praticantes mais interessados nos aspectos mais superficiais e mais técnicos da prática do hathayoga. Por exemplo, «Yoga Body», de Mark Singleton, descreve a «ginasticalização» do yoga a partir de meados do séc. XIX e será de interesse a todos que querem entender esse processo e entender a origem dos «estilos de yoga» mais populares hoje em dia.

No grupo Outros há livros de vários tipos. Alguns têm relação com os propósitos mais fundamentais do yoga, como as obras de Nisargadatta Maharaj e Ramana Maharshi. Outros livros disponibilizados nesse grupo apresentam sistemas de ginástica ou bem-estar sem relação direta com o yoga, mas que se baseiam em elementos disciplinares comuns no Oriente, como é o caso de «The Eye of Revelation».

*

É isso. Caso haja mais dúvidas, deixe um comentário.

Boas leituras a todos.


23 abril 2018

«Você já é a felicidade que você busca»


Uma das coisas que sempre me impressionaram nos satsangs ocidentais é a freqüência com que se diz «você já é a felicidade que você busca». Esta frase tem outras versões, todas com o mesmo sentido: «você já é o Buda», «você já é iluminado», «você já é Shiva», «você já é o Um», «você já é a Presença».

Pensa um pouco: se já somos a felicidade que buscamos, nenhuma disciplina, nenhuma tradição, nenhum mestre e nenhuma sadhana são necessários. Logo, esqueça essas coisas, viva sua vida e seja feliz.

Se essas frases fizessem algum sentido para as pessoas a quem se destinam, se ressoassem alguma realidade já contida no interior dessas pessoas, a cada vez que fossem proferidas dúzias de espectadores de satsangs se levantariam e iriam embora para cuidar das próprias vidas. Mas não. Em vez disso, continuam ouvindo uma pessoa que se apresenta como mestre, guru, professor ou instrutor insinuar que mestres, gurus, professores ou instrutores não são necessários, continuam participando de retiros, cursos e aulas e, principalmente, continuam gastando muito dinheiro com essas coisas.

O fato é que essas frases só fazem sentido como slogans; são usadas não porque são corretas, não porque realmente calam fundo, mas por causa de seus efeitos emocionais e comerciais. São usadas como ganchos para todo tipo de comércio baseado no yoga. São usadas como pó de pirlimpimpim para que o orador assuma imediatamente uma aura de humildade e generosidade:

«Você já é a felicidade que você busca. Nenhum mestre é necessário. Basta abrir os olhos.»
«Nossa, que lição de simplicidade! Que mestre humilde e generoso! Vou segui-lo pelo resto da vida!»

Os «satsangadores» mais famosos da atualidade usam frases desse tipo, imersas propositalmente num emaranhado de estimulação contraditória. Num momento passam a mão na cabeça do discípulo e recebem bem todas as manifestações de idolatria; noutro, afirmam que qualquer um pode despertar, soltando nas entrelinhas a idéia de que eles não são necessários.

Uma das chaves da estimulação contraditória consiste em criar um estado de confusão mental que só pode ser atenuado com a ajuda de quem a causou. Com efeito, esses «satsangadores» conseguem assim intensificar o apego e a dependência de seus discípulos e ampliar seu secto.

Alguns dirão que não há nada errado nisso.

«Se, afinal, ele ensina o que é correto e conduz as pessoas na melhor direção possível, qual o problema?»

O problema, caro gafanhoto, é que slogans e desonestidade no máximo servem para elevar o saldo bancário de quem mistura estas coisas com as questões do espírito e para construir hordas de dependentes emocionais.

A solução disso? Comece perguntando sinceramente a você mesmo qual a solução disso. Preserve o restinho de autodidatismo que ainda há em você e assuma responsabilidades. O resto é conseqüência.

***
Antítese / Plot twist

Para cada lorota contada por um pagador de boletos travestido de professor de yoga, de «facilitador» (esse nome é ótimo) de retiro ou de terapeuta tântrico há pelo menos uma verdade escondida.

Digo isso porque por definição um enganador não é dotado da coragem e sobretudo da capacidade intelectual necessárias para criar mentiras verossímeis. Deste modo, a forma mais fácil de obter um discurso verossímil é começar apoiado na verdade.

Quando o protótipo de 171 diz que «você já é a felicidade que você busca», tenha certeza de que alguma verdade há nessa arapuca. A verdade é a seguinte: sim, você já é a felicidade que você busca. Só que como o sujeito é meio burrinho (todo estelionatário é meio burrinho, depois eu disserto sobre esta idéia, por enquanto apenas assimile), ele usa essa afirmação para vender DVDs e tingir-se de tintas modestas e humildes, como expliquei acima, e aos poucos a verdade contida na afirmação original é soterrada por toneladas de DVDs e por litros de humildade fingida. TEM QUE SER ASSIM, senão você realmente perceberia que você já é a felicidade que você busca e então, oras bolas, você veria que DVDs e retiros não servem para nada.

Mas, sim, você já é a felicidade que você busca.

Donde, então, a necessidade de dedicar-se ao que quer que seja? Você precisa realizar 108 saudações ao sol? Você precisa levantar-se às 4:30 da manhã para meditar? Você precisa dominar «posturas desafiadoras»? (depois eu disserto sobre esta expressão, por enquanto apenas assimile) A rigor, a resposta a todas estas perguntas é «não». Só que sua vida não tem essa de «a rigor».

Consideremos que:

1) O fato de uma coisa não ser necessária não significa que essa coisa não seja boa. Bolo de avó, por exemplo.

2) O objetivo das técnicas de yoga não é tornar-se feliz, melhorar a saúde ou aumentar a auto-estima, mas perceber-se e compreender-se claramente.

Se somarmos estas duas coisas -- que, aliás, raramente são ditas nos «studios» de yoga -- fica mais fácil situar aquela frase-gatilho do início dentro de um sistema disciplinar que em geral é complexo o suficiente para alimentar discussões e famílias.

Resumindo: sim, você já é a felicidade que você busca, NO ENTANTO precisa de um sistema disciplinar não para que você se torne o que você já é, mas -- na linguagem usualmente utilizada nos meios tradicionais -- para remover os véus que o tornam INCAPAZ DE VER sua condição de ser pleno.

Em outras palavras, a experiência da elevação espiritual é só isso: elevação espiritual, muito similar à experiência de subir ao topo de uma montanha e subitamente deparar-se com aquela visão espetacular que permite, entre outras coisas, ver a casinha onde você mora e entender rapidamente como a sua casinha e todas as outras coisas estão conectadas.

Que tanta gente continue sendo um fosso de ruindade e confusão mesmo depois de passar por experiências de genuína elevação espiritual -- aliás, como explica Jack Kornfield em seu interessantíssimo «Depois do êxtase, lave a roupa suja» -- é outra prova de que a disciplina é importante, porque as algemas corporais e mentais duram enquanto o corpo e a mente durarem. E se a preocupação for de ordem moral, lembre-se: até hoje ninguém conseguiu fazer merda enquanto meditava.

03 março 2017

Meditação não serve para nada


«Eu não consigo meditar». 

Para a maioria das pessoas esta frase soa como uma confissão de falta de força de vontade. Para muitos professores de meditação soa como um desafio, como se a partir dela o ouvinte passasse a ter a obrigação de demonstrar, com argumentos retóricos ou sólidos e exemplos práticos, não apenas a possibilidade universal de meditar, como também o oceano de conquistas e realizações que podem surgir com a simples decisão de meditar em duas ou três sessões breves por semana. 

Em outras palavras, «eu não consigo meditar» é a frase-gatilho favorita dos «mercadores de paz e luz» — expressão que usarei aqui para referir-me àquela gente linda e calminha que bebe pelo menos três litros de água mineral por dia, diz «gratidão» em vez de «obrigado» e que, afinal, precisa ensinar os outros a ter (isto é, como adquirir) paz e luz.

Um dos recursos mais curiosos utilizados por esses mercadores é apresentar a meditação como uma espécie de laxante: à decisão da pessoa de tomar o medicamento segue-se a conseqüência incontornável e quase imediata de livrar-se de inúmeras coisas que pareciam eternamente presas dentro dela. 

Não é coincidência que a meditação seja descrita às vezes — mais por uma simplificação didática do que por uma burrice inata de muitos instrutores (não que isso não exista) — como um processo de esvaziamento da mente. A analogia com o processo de esvaziar os intestinos, verificar os dejetos flutuantes (ou não) e dar a descarga, por escatológica que possa parecer, corresponde às descrições usualmente utilizadas pelos instrutores de meditação: é necessário esvaziar-se de pensamentos e emoções negativas para preencher-se de paz e luz.

O que nenhum instrutor explica é que todas essas expressões são figuras de linguagem. A mente não se esvazia porque a natureza da mente não é encher-se de nada; não se trata de um recipiente. Não é possível livrar-se de pensamentos negativos porque você nunca esteve algemado a eles; não se trata de uma ligação física inquebrável. Ninguém se enche de paz e luz porque, mesmo que identifiquemos nestas palavras qualidades que possamos obter de algum modo, elas não podem ser circunscritas, muito menos medidas.

Outra coisa que nenhum instrutor de meditação explica é que a simples existência de «instrutores de meditação» constitui um gigantesco paradoxo. Se você só medita quando um grupo se reúne para meditação (para «sentir a energia coletiva») sob orientação de um instrutor de voz grave e cristalina que o conduz com slogans motivacionais («inspire a paz, exale o amor»), então, meu chapa, já era. Meditação guiada é algo semelhante ao que o boiadeiro faz com o boi que tem uma argola no nariz: às vezes o bicho é levado para um pasto verdejante, outras vezes para o abatedouro. Se você acha que a comparação é exagerada, me acompanhe:

1) se o que se pretende realizar em cursos, retiros, aulas e grupos de meditação é meditação
2) e se a meditação consiste, entre outras coisas, em fechar os olhos e vivenciar silêncio e isolamento em doses suficientes para que você consiga observar o fluxo natural dos seus próprios pensamentos
3) então não há sentido em ter como ideal de meditação uma prática que dependa de uma reunião especial em locais especiais com pessoas especiais guiadas por uma pessoa especial

Uma das provas de que este raciocínio está correto é a grande quantidade de pessoas que participam de retiros e cursos de meditação e que nas duas ou três semanas que se sucedem declaram-se profundamente transformadas pelas experiências que tiveram nesses eventos (reuniões, locais, pessoas e instrutores especiais), mas que, passadas essas duas ou três semanas, voltam aos mesmos hábitos (interiores e exteriores) que possuíam antes daqueles eventos. Isto ocorre pelos motivos que apontei acima: a lição essencial de retiros e cursos de meditação é de que retiros e cursos de meditação são necessários para meditar corretamente. Não, não são. Ajudam, mas não são necessários. Tornar a meditação algo muito especial a ser realizado em condições especiais e em momentos especiais contradiz a própria definição de meditação.

Afinal, o que é necessário para meditar corretamente? Em primeiro lugar, a disposição para passar um tempo consigo mesmo, o que significa ficar sozinho e em silêncio. Assustador? Para muitas pessoas é. Esta disposição exclui a meditação realizada em grupos, com incenso, música, a condução de um instrutor, enfim, com toda a parafernália que os mercadores de paz e luz consideram essenciais para meditar. Questionados sobre isso, eles dirão que essas coisas são essenciais apenas para os iniciantes, o que, é claro, implica outra bobagem: a de que existiria algo que se possa chamar de «meditação avançada», o que não seria muito diferente da divisão dos grupos de meditação em faixas coloridas, como ocorre em artes marciais.

 ***

Se é meio bobo definir e compreender a meditação a partir de pressupostos estabelecidos por pessoas que entendem essa prática como algo que pode ser dividido em categorias e comercializado, o que dizer da tendência de encarar a meditação como uma tecnologia, um sistema disciplinar com finalidades utilitárias? Tenho certeza de que o leitor já não se surpreende mais quando se depara com divulgações de cursos e retiros de meditação que têm como propósito melhorar seu desempenho nos estudos, nos negócios, nos relacionamentos ou melhorar sua saúde física e mental. Seria surpreendente encontrar um simples encontro com orientações elementares de meditação e sem menções às suas conseqüências práticas.

Ainda que esses propósitos às vezes sejam a isca para atrair pessoas para orientações, digamos, mais tradicionais (um argumento recorrente), nesses casos o peixe subirá ao convés machucado: a pessoa que vem a um encontro de meditação movida pela perspectiva de estudar melhor e passar num concurso público (um tipo de divulgação bastante popular ultimamente) na prática se assemelha a uma pessoa que acha que o primeiro passo para realizar uma viagem é rasgar a passagem que ela acabou de comprar.

 ***

É bom esclarecer: eu estaria enganando o leitor se dissesse que a meditação não proporciona benefícios físicos e mentais. Minha experiência e as experiências que muitos de meus alunos tiveram com a meditação confirmam isso. Algumas pesquisas também têm confirmado a eficiência da meditação na redução de níveis de stress e no controle da pressão arterial. Todas estas coisas são obviamente boas, mas são efeitos de uma busca que não se limita a utilizar a meditação como terapia.

Se, como assinalei antes, a meditação consiste em observar o fluxo natural dos seus próprios pensamentos, a fixação do pensamento numa meta específica — por exemplo, «quero desenvolver autoconfiança» — implica um alto grau de artificialidade e, portanto, a interrupção do fluxo natural dos pensamentos. Em outras palavras, é como se, para observar cardumes de barracudas em mar aberto, você decidisse criar peixes beta num aquário: por maior que seja seu aquário e por mais peixes beta que você tenha, aquilo nunca passará de uma caixa de vidro com peixinhos comprados em loja.

A verdade é que a meditação não serve para nada simplesmente porque essa prática não pode servir para nada. Não me refiro àquele provérbio oriental que diz que o caminho é mais importante que a meta etc. Refiro-me a uma prática que se situa num plano em que não há sentido em falar de caminho, direção ou meta, em que a existência e a identificação destes elementos são efeitos colaterais, não a razão da prática.

Monges tibetanos comparam a meditação com um descanso ao final de um exaustivo dia de trabalho — você simplesmente permanece ali, ainda entorpecido pelo cansaço, mas consciente de que suas funções básicas se mantêm: a respiração, a visão, a audição, os batimentos cardíacos etc. Numa situação dessas você não pensa «vou descansar» ou «estou descansando». Você apenas permanece quieto, em silêncio e imóvel. A meditação não é muito mais do que isso.


Expressões como «estar presente» e «praticar o silêncio», por esquisitas que possam parecer, constituem formas interessantes de evitar termos utilitários para explicar a prática de meditação. São expressões paradoxais, mas verdadeiras: a meditação começa a funcionar quando você percebe a idéia de que a meditação serve para algo além de meditar apenas como mais uma das idéias a serem observadas.

19 setembro 2016

Mais 7 coisas que seu professor de yoga nunca vai lhe dizer


1) Eu não sei o que é um guruyogi.


Se você perguntar ao seu professor sobre a definição de guru, ele lhe oferecerá explicações impecáveis que começarão com a etimologia do termo («aquele que remove a escuridão» etc.) e se estenderão até os exemplos de grandes gurus ao longo da história. Mas se você perguntar ao seu professor se ele mesmo é um guruyogi ou se foi orientado por um, não se surpreenda com a embromação que se seguirá -- cujo propósito é esconder o fato de que ele ignora o que realmente é um guruyogi.

A regra no Ocidente e sobretudo no Brasil é acreditar que guruyogis são seres mitológicos que aparecem nos versos das escrituras. Guruyogis vivos? «Não existe isso». Mas o yoga não é uma tradição? E uma tradição não depende da existência de pessoas formalmente iniciadas nessa tradição para que ela própria possa continuar existindo?

O yoga no Ocidente e em especial no Brasil é liderado e conduzido por uma legião de órfãos, gente que jamais teve acesso a um guruyogi, a não ser para fins turísticos, em «viagens de yoga» a Rishikesh. Para essas pessoas, um guruyogi verdadeiro é uma espécie de mistura de professor Xavier e tinta azul.

2) Eu não sei o que é samadhi.

Aqui as coisas ficam mais engraçadas.

Se você perguntar ao seu professor o que é samadhi, ele lhe dirá que o samadhi é a realização máxima do yoga. Poderá, ainda, traçar paralelos entre o samadhi e o que no Budismo se chama de nirvana ou iluminação.

O que ele não dirá é que o samadhi é uma prática, não uma realização. A comparação com o nirvana pode ser válida para fins didáticos, já que a noção de nirvana é bastante conhecida no Ocidente a partir da cultura da Nova Era. Mas os fins didáticos são limitados; depois que o indivíduo largou as fraldas é adequado usar fontes consistentes.

Os próprios Sutras de Patañjali explicam que o samadhi é o último estágio da disciplina do yoga. Estágios de uma disciplina têm, por definição, propósitos práticos bastante claros. E o objetivo de uma prática nunca é a própria prática, é claro. Em resumo, a prática é o samadhi, a realização é moksha, a libertação -- esta, sim, a realização última do yoga.

Mas, voltando ao que o seu professor não dirá a você: a verdade é que ele não pratica samadhi, provavelmente porque aprendeu que o samadhi não era uma prática e era, em vez disso, uma realização, a meta definitiva do yoga. Ele aprendeu também que o samadhi era algo para os semi-deuses do yoga e que, portanto, não se tratava de algo possível para mortais comuns.

Ele aprendeu -- e ensina -- isso porque, como digo no item 1 deste artigo, ele não sabe o que é um guruyogi, porque, afinal, aprendeu yoga com professores que dão aulas de anatomia e ensinam que o cérebro está no corpo todo. O máximo de samadhi que essas pessoas conhecem é o que aparece naquela famosa foto de Ramakrishna -- enfim, um cartão postal.

3) A tradição que eu ensino começou na década de 1980.

...Ou 1970 ou 1960, tanto faz.

É bom deixar claro: quem ensina yoga com props, com vinyasa, com dança, em duplas, com regras de alimentação, com djideridoo ou harmonium ao vivo etc. está ensinando qualquer coisa, menos a tradição do yoga.

Se você acordou de mau humor, poderá querer argumentar que «a tradição do yoga» virou uma espécie de marreta dourada nas mãos de pessoas intolerantes como eu. Explicarei apenas uma vez: no contexto dos artigos que publico aqui em meu site, «a tradição do yoga» é qualquer coisa que preserve um mínimo de fidelidade ao que as escrituras e os guruyogis ensinam.

A peça de propaganda que mostra aquela senhorinha que realinhou a coluna e reconquistou uns centímetros de altura «graças ao yoga» é de uma desonestidade atroz. Aquilo não prova nada sobre o yoga, prova apenas que as pessoas -- que aplaudiram efusivamente o vídeo -- não sabem mais diferenciar uma tradição genuína de um sistema de fisioterapia. Se, novamente, você acha que estou sendo intolerante, diga-me: quantas vezes Patañjali menciona as palavras «postura», «coluna» e «alinhamento» em seus Yoga Sutras? Valendo.

4) O yoga não serve para nada.

O leitor poderá aqui voltar ao episódio da senhorinha que realinhou a coluna e reconquistou uns centímetros de altura «graças ao yoga» para argumentar que o yoga serve, sim, para muitas coisas. Seu professor poderá trazer histórias pessoais -- dele próprio e de seus alunos -- que dão força para essa idéia.

De fato, há sistemas disciplinares inteiros que se apóiam na idéia do «utilitarismo do yoga». É o caso da Yogaterapia, do Power Yoga e do Iyengar Yoga, sistemas disciplinares inteiros que tem como objetivo o alinhamento postural e/ou o fortalecimento muscular.

Mas a verdade é que o yoga não serve para nada. Se olharmos mais uma vez o que ensina Patañjali ou os nathas ou mesmo os mestres do séc. XX, como Ramana Maharshi, Nisargadatta Maharaj, Ramakrishna e Shivabala Yogi, veremos que o propósito de yoga é «abrir o indivíduo à realização da Verdade Suprema». A expressão pomposa contrasta com a impressão que muitas pessoas têm: quando visto desde fora, o samadhi parece uma espécie de catatonia.

Quando digo que o yoga não serve para nada, não significa que o yoga é inútil, significa apenas que o yoga situa-se num plano diferente daquele que classifica as coisas e os fazeres entre úteis e inúteis -- e apenas isso.

Em resumo, o que nenhum professor explicará a você é que no emaranhado de técnicas úteis (pranayama melhora a capacidade respiratória, anteflexões acalmam, retroflexões encorajam etc.), há um sem-número de ações e atitudes que refletem o «anti-utilitarismo do yoga», uma qualidade que permite que o praticante possa enxergar o próprio apego às técnicas utilitárias e deste modo livrar-se delas no momento em que isso for apropriado.

Digo «no momento apropriado» porque não vejo absolutamente nada de errado em utilizar técnicas que vieram do hathayoga para obter benefícios psico-físicos, o erro está em declarar-se um praticante de yoga quando sua busca resume-se a esses benefícios. Mais correto seria declarar-se um doente em busca de cura.

5) Sou um falsário.

É claro que isso jamais sairia da boca de um professor de yoga, porque isto implicaria a devolução do dinheiro de mensalidades e o fechamento de muitos «studios» de  yoga, mas esta é a realidade de 99% dos que estão atuando e até formando novos professores.

Há professores altamente requisitados que ensinam publicamente que o cérebro se expande. Há outros que dizem que o indivíduo incapaz de realizar posturas «de nível intermediário» não podem se dizer yogis. Há um outro que diz que ocidentais podem se bastar com a prática de asanas e pranayamas. Outro, por fim, diz que os asanas não são «apenas alongamento» e que se «referem mais» aos órgãos internos.

Estas afirmações são todas erradas e irresponsáveis, principalmente quando lembramos que elas foram emitidas por professores -- pessoas que orientam e formam outras pessoas. Esclarecendo:

-- O cérebro só se expande em pessoas acometidas por alguma grave doença neurológica.
-- Yoga não depende da realização da postura A, B ou C. O sentido dos asanas não é a perfeição física.
-- Asana e pranayama são apenas dois dos angas do yoga. Há todo um universo depois deles.
-- A única relação entre asana e alongamento e órgãos internos é acidental.

Felizmente a maioria dos erros pode ser esclarecida com um pouco de estudo. E é basicamente por isso que eu recomendo o autodidatismo quase todas as vezes em que uma pessoa me pergunta sobre cursos de formação de yoga.

6) Ensino apenas asana porque não sei outra coisa.

Sua aula de yoga dura quanto tempo? Uma hora? Uma hora e quinze minutos? Desse total, quanto tempo é dedicado à prática de posturas e quanto é dedicado à prática de samyama?

A pergunta é retórica, claro, porque é evidente que seu professor dedica muito mais tempo às posturas corporais do que à prática do samyama (popularmente chamado de meditação) -- eu e você sabemos disso.

Se você já questionou seu professor sobre isso, ele deve ter explicado que isso é assim porque é necessário construir uma base física, respiratória e energética para que a meditação seja realizada do modo correto, isto é, para que a meditação traga os efeitos pretendidos e explicados pela tradição. A explicação é correta até certo ponto, mas incompleta: o que seu professor não diz é por quanto tempo as práticas de yoga precisam ser assim, o que nos leva outras duas perguntas:

-- Quanto tempo um leigo leva para construir a base física, respiratória e energética para meditar?
-- Quais os problemas ou riscos decorrentes de uma prática de meditação para o leigo desprovido de uma base física, respiratória e energética adequada?

Bem, se o indivíduo consegue se sentar, consegue respirar com naturalidade e não está doente, então ele pode meditar. Logo, a ausência de uma base física, respiratória e energética não constitui um obstáculo para a prática de meditação.

No caso das duas perguntas, qualquer prazo ou qualquer advertência que se estabeleça servirá apenas para adiar indefinidamente a prática de meditação e para continuar ensinando apenas asana. Por que isso é assim? Simples: porque seu professor não medita. E ele não medita porque sua própria prática resume-se a séries de posturas corporais. Mesmo que medite, ele acha que o que precisa ensinar aos seus alunos não tem relação com a prática de meditação que ele eventualmente desenvolve para si mesmo.

7) Yoga é religião.

Já expliquei esta afirmação neste artigo, mas vamos ao seu professor e ao que ele ensina ou deixa de ensinar quando se trata de explicar como funciona a religiosidade no yoga.

O yoga é um campo muito curioso: há legiões de professores e alunos que se declaram «espirituais, não religiosos», porque a referência que essas pessoas têm de religiões é de evangélicos que berram num palco ou de radicais islâmicos. Só que o yoga é uma tradição, ao que se deve perguntar: tradição de que?

Bem, se vale a regra que diz «pelos frutos o conhecereis», sabemos que o yoga não é uma tradição artística, filosófica ou científica, pois a «obra» que o yoga produz não é de caráter científico, filosófico ou artístico.

Alguns leitores poderão argumentar que o yoga é uma «filosofia prática», o que evidentemente é uma figura de linguagem. Shastras são uma pequena parte da obra do yoga e seria muito excêntrico afirmar que shastras são livros de filosofia.

Em suma, a obra do yoga são os yogis, são os mestres iluminados que passam pela Terra de tempos em tempos, perpetuando os ensinamentos de outros mestres. Embora isto não seja condição suficiente para constituir uma religião, isto é condição necessária -- porque o yoga é uma religião. A vergonha que seu professor tem de declarar isso esconde o fato de que é muito mais rentável e seguro manter-se distante de qualquer discussão acerca das implicações religiosas do yoga -- afinal, religião não combina com mensalidades e cursos de formação.

***

Leia também: 7 coisas que seu professor de yoga nunca vai lhe dizer


06 agosto 2016

Pastores evangélicos querem proibir o yoga nas escolas. Eles estão certos.


E o faniquito da semana entre os professores de yoga veio com esta notícia:
Pastores evangélicos no RS lutam para proibir a prática de Yoga nas escolas

Escândalo nas redes sociais! Vergonha! Ignorância! Fundamentalismo!

Se você também acha isso uma vergonha, eu tenho uma má notícia para você: os pastores estão certos -- mas não pelos motivos que você está imaginando.

Acompanhe meu raciocínio.

A proposta é de ensinar yoga em escolas municipais de uma cidade do interior do RS. O princípio da laicidade do Estado determina sua neutralidade nas questões religiosas. O ensino de yoga implica a transmissão de valores da cultura indiana, muitos deles ligados à religião hindu. Logo, ensinar o yoga implica ferir esse princípio.

Assunto encerrado. Ou quase. Os professores aos quais apresentei esse raciocínio trouxeram muitos argumentos interessantes:

1) Mas o yoga não é uma religião. Logo, o princípio de laicidade do Estado não será ferido por aulas de yoga para crianças em escolas públicas.

Não é bem assim. Se você pesquisar no Google «yoga para crianças», verá o seguinte:
- Todas as aulas incluem práticas de meditação
- Todas as aulas incluem histórias da tradição hindu
- Todas as aulas incluem referências aos deuses hindus (que inspiram os nomes de muitas posturas corporais)

(Eu já havia, inclusive, explicado que o yoga é uma religião.)

É evidente que estas atividades somadas configuram de alguma forma a transmissão da tradição religiosa da Índia. Mesmo que isso seja pequeno se comparado com a transmissão direta e objetiva dessa tradição, o fato de ser dirigido a crianças pressupõe uma fácil aceitação dos conteúdos transmitidos. Esta fácil aceitação decorre da natural incapacidade que as crianças têm de discernir o peso que cada lição tem dentro de um processo de aprendizado.

2) Mas as aulas serão apenas de ginástica, para melhorar a postura e a respiração das crianças, quase como uma educação física.

Como indiquei acima, é claro que não será assim. Mas suponhamos que seja essa a idéia: o yoga como um dos elementos das aulas de educação física.

Quem defende este argumento está dizendo que as aulas não serão de yoga coisa nenhuma e que, portanto, não haveria nenhuma diferença em chamar tais aulas de yoga, pilates, consciência corporal. Como, na realidade, as aulas propostas são de yoga e receberam o nome de yoga e não de outra coisa, isto é, se os outros nomes realmente não servem para o que está sendo proposto, é razoável crer que as aulas de yoga serão de yoga e que, portanto, elas levarão às crianças e jovens uma parte considerável do aparato filosófico e doutrinário da tradição indiana, como explicado no item anterior.

Em resumo, mesmo que o yoga nas últimas décadas tenha imergido na moda fitness, é evidente que as aulas de yoga para crianças não se resumirão a ginástica.

3) Pastores evangélicos não devem interferir no que será ensinado numa escola pública.

Este argumento foge da discussão acerca do conteúdo proposto (as aulas de yoga) e direciona seus canhões para os pastores. Como sabemos, no Brasil é fácil chamar evangélicos de «fundamentalistas», «conservadores», «ignorantes» e outros nomes ainda menos bonitos. A partir da suposição de que os pastores realmente são tudo isso, é fácil desmerecer qualquer iniciativa que eles tenham. Como a iniciativa deles tem como objetivo barrar uma proposta «do bem» -- afinal, quem pode ser contra aulas de yoga para crianças? --, é fácil juntar-se à turba e xingar muito nas redes sociais.

Aos professores de yoga que acham que os pastores não devem interferir nessa questão, outra má notícia: vocês também não deveriam interferir no que será ensinado numa escola pública -- mas não pelos motivos que você está imaginando.


Se esse dever não está claro, considere a seguinte hipótese: e se os pastores evangélicos, em vez de pedir o bloqueio das aulas de yoga em escolas públicas, pedissem a inclusão do ensino do cristianismo evangélico nos currículos escolares? Em outras palavras, eles concordariam com as aulas de yoga nas escolas, desde que houvesse também aulas de cristianismo evangélico, atividades nas quais as crianças seriam ensinadas sobre os dogmas e rituais dessa religião. Que tal?

É evidente que isso seria uma loucura pois se todas as religiões e tradições espirituais começassem a pedir espaço nos currículos escolares, em pouco tempo não haveria mais espaço para aulas de matemática, português, geografia etc. e as escolas seriam afastadas definitivamente de seus objetivos fundamentais e passariam a ser uma espécie de campo de batalha das religiões e tradições espirituais em busca de mais adeptos.

Na verdade, não é que os pastores evangélicos não devem interferir no que será ensinado numa escola pública. Boa parte do problema está nessa entidade chamada «escola pública», que implica que haja um sistema educacional regulado e gerenciado pelo governo, através de secretarias de educação e do Ministério da Educação. Nas últimas três décadas este sistema tem sido uma das causas do péssimo desempenho dos estudantes brasileiros nos principais testes internacionais de educação.

Em resumo, embora os pastores possam estar agindo com motivações equivocadas ou mal intencionadas, eles estão certos ao buscar proibir o ensino de yoga em escolas públicas -- por todos os motivos já demonstrados. Mas eles, assim como os professores de yoga, estão mirando nos alvos errados. O alvo correto é o fim da interferência estatal na educação de crianças e jovens. Este deveria ser o objetivo de qualquer pessoa preocupada com a qualidade da educação de crianças e jovens.

O que você acharia de uma escola para crianças e jovens baseada na cultura indiana, com aulas de yoga, com lições a respeito de yamas e niyamas, com práticas de meditação, com merendas baseadas em alimentos orgânicos? Bacana? Você acha que você deve ter a liberdade de escolher isso para você, para seus filhos e demais familiares? Pois é, eu também acho que sim. Só que isso exige um Estado que não interfira na educação e não impeça a criação de modelos educacionais diferentes, mas que também não apóie alguns modelos em detrimento de outros.


Isto significa o fim da escola pública? Certamente isso significaria o fim do modelo atual da escola pública: fortemente submissa a uma regulação centralizada, universalista e massificante. Afinal, quem realmente quer um sistema educacional centralizado, universalista e massificante? Você confia na educação básica fornecida pelo Estado?

Se todos tivéssemos essa liberdade, teríamos escolas indianas, evangélicas, budistas, agnósticas (cada uma voltada a necessidades e interesses específicos e aos valores que cada família quer transmitir aos seus filhos) e não teríamos pastores evangélicos pedindo mais proibições ao Estado (o que só reforça o poder estatal) e professores de yoga xingando muito na Internet por causa desse pedido. Enfim, teríamos paz e a educação certamente seria melhor.

21 maio 2016

Guia Prático e Definitivo para Entendimento e Exercício de Satya

 

Satya é uma palavra do sânscrito que significa verdade. Na tradição do yoga, satya é um dos yamas definidos por Patañjali; na ordem proposta pelo mestre em sua consagrada obra Yoga Sutras, trata-se do segundo yama. Os yamas são usualmente entendidos como regras para convivência com outras pessoas -- o que modernamente pode-se chamar de princípios morais.

Por ser um yama, isto é, por ser uma regra de convivência, satya com freqüência é entendido como «não mentir». Este entendimento é correto mas superficial, porque há situações do convívio social em que a mentira é necessária. Um exemplo extremo e recorrente quando se discute a moral social é aquele que aparece no início do filme «Bastardos Inglórios»: o oficial alemão bate à porta de um fazendeiro francês no período da ocupação nazista e lhe pergunta se ele está escondendo judeus em sua propriedade, o que ele de fato havia feito -- dizer a verdade significaria condenar aquelas pessoas à morte.

Porém, como qualquer coisa que se faça no yoga, satya deve ser compreendido à luz do samadhi, não à luz das regras sociais. Dito de outro modo: satya deve ser entendido e trazido ao dia-a-dia como uma parte do conjunto de práticas e condutas que conduzem à libertação. Isto amplia enormemente a compreensão que se pode ter de satya e, claro, amplia também as possibilidades práticas deste yama.

Um exercício que eu propunha com freqüência a meus alunos era repetir para si mesmo algumas perguntas decisivas (o leitor também se beneficiará se der uma olhada neste artigo).

A primeira e mais simples destas perguntas é: o que eu estou buscando? As respostas mais comuns são reflexos dos rodopios mentais que as pessoas carregam quando saem em busca de orientação para a prática do yoga. Muitas dizem que estão buscando saúde; outras dizem que estão buscando calma; outras querem fortalecer o corpo e torná-lo mais flexível.

É claro que estas declarações são válidas não como respostas diretas à pergunta inicial, mas como subterfúgios através dos quais as pessoas a evitam. Saúde, calma, fortalecimento corporal não são fins em si mesmos; tem-se saúde para algo, para que se possa, por exemplo, viver uma vida melhor. A primeira pergunta trata justamente desse melhor: o que todos nós buscamos através do yoga é melhorar em todos os aspectos, mas melhorar para quê?

Meu professor com freqüência fazia essa pergunta para mim: o que você está buscando? Ou: o que você realmente quer? Eu com freqüência não sabia o que responder. Terminei muitas aulas com essa pergunta na cabeça. Muitas vezes a idéia do samadhi vinha à mente e, embora isso ainda fosse apenas uma idéia nebulosa numa mente turbulenta, era também um lampejo que ajudava no difícil processo de aprimoramento da percepção da realidade.

Outras perguntas decisivas na verdade são simples desdobramentos dessa primeira pergunta, assim como algumas recomendações, que são mais práticas do que parecem:

1) Não minta para si mesmo. Nunca. Isto não significa apenas «reconhecer e respeitar os próprios limites ao realizar um asana» -- como dizem os artigos bobos em revistas de ginástica que tratam de «satya na prática» e que usam expressões esquizofrênicas como «viver a sua verdade» --, mas principalmente saber diferenciar o papel que você precisa cumprir num determinado momento da pessoa que você realmente é. Por exemplo, seu chefe não está interessado se você é um amante de poesia francesa do séc. XIX; sua sensibilidade para poesia não o fará mudar de idéia sobre o relatório que você deve entregar até 17:00. No entanto, o fato de às vezes precisar cumprir papéis não significa que você precise cumpri-los para você mesmo. Mesmo que você ainda não saiba se você só é você quando se encontra despido de todos esses papéis ou quando experimenta a soma de todos eles (supondo que isso seja possível e desejável), o mais importante é vivenciar situações em que esses papéis são deixados de lado -- samyama é exatamente isso.

2) Reconheça que a verdade existe. Admitir que existe uma resposta para aquela primeira pergunta implica admitir que a verdade existe. E se a verdade realmente existe, ela não pode ser cristalizada num verbete ou num bibelô, embora possa ser vislumbrada a partir destas coisas (porque um verbete diz algo a respeito da verdade) e possa ser encarnada numa pessoa (um ente que teve uma origem e que tem uma história). Só se pode perceber todos os movimentos e turbulências a partir de uma base estável. Dizer que esta base estável é satya é caminhar em círculos: como se dá a existência de satya? Talvez você descubra que esta base estável é você.

3) Abandone, de uma vez por todas, expressões como «minha verdade», «sua verdade» etc. Entenda que a verdade não é algo que se possa possuir e busque a verdade que subjaz em cada uma das «verdades» dissonantes. Num nível intelectual, isto pode ser representado pelo processo dialético, que consiste no confronto de idéias dissonantes até que alguma síntese possa florescer. Isto é o que qualquer pessoa mentalmente saudável faz quando precisa tomar uma decisão ou avaliar uma situação: a metáfora da balança na qual colocamos prós e contras relacionados a uma determinada ação que precisa ser realizada nada mais é do que o bom e velho confronto dialético de teses e antíteses.

4) A meditação, em sua versão ocidental, é mais importante do que parece. Nas tradições espirituais e filosóficas do ocidente, meditar é o que muitos chamam de «ficar remoendo pensamentos». É uma expressão triste, que revela o desprezo que as pessoas desenvolveram nas últimas décadas a partir da contaminação com modas da Nova Era baseadas em interpretações porcas das tradições orientais. Na verdade, as modalidades ocidentais de meditação consistem em percorrer o caminho que leva à origem das próprias idéias, que é o primeiro passo para distinguir você de seus pensamentos. O exame de consciência, tal como aparece na tradição católica e que resiste bravamente como um dos poucos elementos de autoconsciência em sociedades decadentes, nada mais é do que uma forma de meditação. Na origem de todos os problemas emocionais e sociais é fácil entrever a ausência do exame de consciência e, portanto, das formas ocidentais de meditação.

5) Aliás, o exame de consciência do cristianismo católico tem muitas semelhanças com svadhyaya, o auto-estudo, quarto niyama do sistema de Patañjali, e, de forma menos específica, com atma-vichara, conforme ensinado por outro mestre, Ramana Maharshi.

Com efeito, a pergunta decisiva não é apenas sobre seus propósitos, mas sobre você mesmo, sobre quem você é. A verdade existe e ela começa no testemunho pessoal e individual sobre a própria existência.